Cereja Negra: mulheres produzem café artesanal e cultivam independência

Liderado por 38 mulheres em Nova Bandeirantes, o Cereja Negra nasce de manejo sustentável, torrefação própria e independência econômica para a comunidade

Em Nova Bandeirantes, na região norte de Mato Grosso, 38 mulheres cultivam um futuro diferente. Do café que plantam, colhem e transformam, nasce não apenas um sabor intenso, mas também a prova de que a Amazônia pode produzir com excelência e respeito à floresta. Assim surgiu o Cereja Negra: artesanal, sustentável e carregado de histórias de independência feminina.

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O café é vendido diretamente ao consumidor e em comércios locais – Foto: Divulgação

Na comunidade de São Brás, as mulheres assumiram o controle de todo o processo produtivo. São elas que cuidam do plantio, da colheita, da torra e do empacotamento. O Cereja Negra nasce em uma sala de torrefação equipada com moinho, torrador, empacotadora e seladora, instalada com apoio da Secretaria de Agricultura Familiar (Seaf). Cada pacote carrega a identidade de uma produção artesanal, feita à mão, mas com qualidade capaz de competir com os melhores cafés especiais do país.

Mudança de vida

Antes, eu tinha vergonha até de entrar em um banco. Hoje participo de reuniões, viajo para oficinas, vou atrás de projetos e enfrento tudo com coragem.

Elaine Cristina GuilhermeCoordenadora do grupo

Do grão à torra: como nasce o sabor

Embora o processo seja artesanal, há um cuidado rigoroso para garantir qualidade. A seleção dos grãos ainda não conta com equipamentos modernos, o que impede uma triagem detalhada. Por isso, a responsabilidade começa já na lavoura: os agricultores associados recebem a orientação de entregar um café limpo, colhido e seco com atenção.

Cereja Negra

Dados do café produzido em Nova Bandeirantes

Na comunidade de São Brás, 38 mulheres conduzem plantio, colheita, torra e empacotamento com manejo sustentável e apoio técnico.

38
Mulheres na produção
Liderança feminina em todas as etapas
41
Famílias associadas
Organização comunitária e renda local
70 t/ano
Produção média
Volume de café cru (beneficiado)

Indicadores visuais

Mulheres
38
Famílias
41
Produção/ano
70 t

Meta de torrefação própria

Processar 80% do volume dentro da associação, agregando valor ao produto.

Fonte: Associação de Produtores de Nova Bandeirantes / Seaf / Empaer

Antes da torra, o grão passa por uma máquina de pré-limpeza, que retira cascas, palhas, pedras e impurezas. Além disso, cada produtor que deseja vender o café à associação precisa apresentar uma amostra para avaliação. Apenas os lotes com grãos bem formados e de boa qualidade são adquiridos, assegurando um produto final 100% puro.

Sustentabilidade como essência

O cultivo não é apenas uma atividade econômica: é também compromisso com a floresta. Parte das propriedades já conta com certificação orgânica, enquanto outras adotam sistemas agroflorestais, onde pés de café dividem espaço com frutíferas que oferecem sombreamento natural e atraem polinizadores. As abelhas, trazidas em caixas para fortalecer a biodiversidade local, completam o ciclo de cuidado ambiental que diferencia o produto.

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Mas nem tudo depende apenas do manejo. As mudanças climáticas têm imposto desafios cada vez maiores. Produtoras relatam perdas significativas em lavouras devido à irregularidade das chuvas, que afetam a floração e o enchimento dos grãos. Em anos recentes, a seca e as queimadas trouxeram prejuízos a propriedades associadas. Por isso, a associação tem reforçado práticas sustentáveis, como proteção de nascentes e combate ao uso do fogo, para reduzir riscos e manter a produção.

Cereja Negra
Café 100% puro, com pré-limpeza e triagem manual dos grãos.
Torrefação equipada com moinho, torrador, empacotadora e seladora.
Padrão de qualidade capaz de competir com cafés especiais nacionais.

Autonomia e protagonismo feminino

A história do Cereja Negra é, sobretudo, uma história de emancipação. As mulheres de Nova Bandeirantes não se limitam às tarefas tradicionais da agricultura familiar: elas decidiram ocupar a gestão do processo, garantir renda própria e participar ativamente da comercialização. O café é vendido diretamente ao consumidor e em comércios locais, e a meta é conquistar todas as licenças necessárias para ampliar o alcance, levando o grão amazônico para novos mercados.

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Mulheres se uniram para produzir café – Foto: Associação São Brás

Assumir esse protagonismo não foi simples. Por questões culturais, as agricultoras sempre estiveram presentes no trabalho mais pesado da lavoura, mas ficavam de fora da gestão e da venda. Isso começou a mudar quando elas passaram a ocupar cargos na associação. Hoje, as mulheres lideram projetos, cuidam do escritório, tocam a torrefação e até representam a comunidade em conselhos municipais. Essa transformação trouxe autoestima, independência e a certeza de que elas podem ocupar espaços antes negados.

“Antes, eu tinha vergonha até de entrar em um banco. Hoje participo de reuniões, viajo para oficinas, vou atrás de projetos e enfrento tudo com coragem”, relata a coordenadora do grupo, Elaine Cristina Guilherme.

Apoio e futuro

O projeto recebe suporte técnico da Empresa Mato-grossense de Pesquisa, Assistência e Extensão Rural (Empaer) e contou com investimentos públicos em máquinas, patrulha mecanizada, trator e implementos. Esse apoio possibilitou não apenas aumentar a produção, mas também fortalecer a associação que reúne 41 famílias, das quais 38 são representadas por mulheres.

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Mesmo assim, desafios persistem. A associação precisa manter estoque de café para atravessar o período entre colheitas, mas não dispõe de recursos suficientes para grandes compras. Sem capital de giro e espaço adequado para armazenar, ainda não consegue absorver toda a produção dos associados. Hoje, a média é de 70 toneladas de grãos crus por ano, mas boa parte ainda é vendida a serialistas, e não passa pela torrefação. A meta é que, no futuro, pelo menos 80% desse café seja processado e comercializado diretamente pela associação.

Outro obstáculo é a infraestrutura: o escritório funciona em um espaço improvisado e a torrefação utiliza equipamentos simples, que geram fumaça e desconforto para as mulheres – muitas delas precisam levar os filhos pequenos para o local de trabalho. Modernizar esse parque de máquinas é um sonho constante, junto com a construção de depósitos adequados para armazenamento.

Há ainda barreiras burocráticas que limitam o crescimento. A falta de inscrição estadual impede o envio do café para outros mercados, mesmo quando há demanda em cidades como Cuiabá. “Muita gente entrou em contato querendo comprar depois de uma divulgação feita pela Seaf, mas não conseguimos atender sem a regularização”, explica Elaine Cristina.

Com a documentação em análise junto à Receita Federal, a expectativa é ampliar as vendas, investir em divulgação e movimentar melhor as redes sociais, que hoje estão quase paradas pela correria do dia a dia.

Conab • Safras 2021–2025

Produção de café em Mato Grosso cresce 43,7% em cinco anos

Evolução oficial (mil sacas, 60 kg)

2021 194,0 · 2022 227,9 · 2023 245,8 · 2024 268,4 · 2025 278,7

Variação 2021 → 2025: +43,7%

Fonte: Conab – Safras de Café (séries 2021–2025; 3º Levantamento/2025). Unidades: mil sacas de 60 kg.

Nos últimos cinco anos, a produção de café em Mato Grosso apresentou crescimento contínuo, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Em 2021, o estado colheu 194 mil sacas de 60 kg, número que subiu para 227,9 mil em 2022 e alcançou 245,8 mil em 2023. No ano seguinte, a produção manteve a tendência de alta, chegando a 268,4 mil sacas em 2024.

Já em 2025, conforme o terceiro levantamento divulgado pela Conab, a safra está estimada em 278,7 mil sacas, consolidando Mato Grosso como um produtor em expansão, ainda que em escala menor diante dos grandes polos do país.

O Brasil responde por cerca de um terço da produção mundial de café e segue como o maior exportador do grão. Em 2024, o país embarcou mais de 46 milhões de sacas, gerando receita recorde próxima de US$ 14 bilhões. Nesse cenário de grandeza global, iniciativas locais como o Cereja Negra, produzido por 38 mulheres em Nova Bandeirantes, mostram que a Amazônia também pode se destacar pela qualidade e pela sustentabilidade.

Café tradicional x café especial: o que muda na xícara

Christianne de Moraes Casoni, barista e empresária, explica que a diferença entre cafés tradicionais e cafés especiais vai muito além do sabor: está no cuidado desde o plantio até a xícara.

“Os cafés tradicionais não têm rigor na seleção dos grãos. É permitido que grãos defeituosos, verdes ou muito passados sejam colhidos e torrados em torra escura para disfarçar essas imperfeições. É daí que vem o amargor que estamos acostumados”, diz Christianne.

Em contraste, os cafés especiais recebem atenção em todas as etapas da produção. “São colhidos apenas os grãos maduros, no ponto certo de maturação. Muitas vezes, as coletas são repetidas várias vezes no mesmo pé para garantir que apenas os grãos perfeitos sejam selecionados. O cuidado se estende à secagem, torra e preparo, de forma a ressaltar o sabor natural do fruto, da região, do clima e da variedade”, explica.

A torra é média ou clara, justamente para evidenciar as notas naturais do café, sem esconder suas características em um amargor excessivo.

O Cereja Negra, produzido por 38 mulheres em Nova Bandeirantes, exemplifica esse padrão de café especial. Segundo Christianne, ele apresenta notas de cereja e chocolate, com doçura natural e corpo que preenche a boca. Cada grão passa por seleção cuidadosa, secagem adequada e torra artesanal, garantindo que o sabor refletido na xícara seja fiel ao trabalho feito desde a lavoura.

Mais do que qualidade, o Cereja Negra representa autonomia feminina e produção sustentável, mostrando que é possível unir excelência do café, cuidado ambiental e protagonismo social. “É uma produção artesanal, de altíssima qualidade, que fortalece a produção de cafés especiais do Brasil e valoriza a igualdade de gênero”, destaca Christianne.

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Comentários (1)

  • Brígida Silva

    Parabéns, parabéns, parabéns,são guerreiras , independentes ,honestas,de cumplicidade,com elas e com a natureza,que as vezes responde com o que oferecem,mas não desistam,continuem firmes com a trajetória feminina e café e com nome ?,só pode ser a cereja do seus empreendimentos,vão a luta , porque já são guerreiras,????????❤️????????