De gota em gota: jovens irrigam a cafeicultura sustentável para permanecer no campo

Entre microaspersores e colheitas familiares, jovens mostram que o café pode ser caminho de renda e permanência no campo.

O café voltou a ganhar força em regiões de Mato Grosso antes dominadas por pecuária de baixa produtividade. Com apoio de programas de incentivo e novas técnicas de irrigação, jovens produtores descobriram na cultura uma forma de garantir renda, melhorar o uso da água e permanecer no campo.

No Assentamento Triunfo, em Pontes e Lacerda (MT), Yasmin Leite, 15 anos, aprendeu a medir a água gota a gota e transformou 2.544 mudas de café em projeto de futuro. A lavoura de um hectare, irrigada por microaspersão, garante uso racional da água e abre caminho para frutos de melhor qualidade.

No mesmo município, Patrícia dos Santos Vieira cultiva 2.800 pés irrigados por gotejamento, com apoio do Programa REM MT e da Associação Comunitária Sol Nascente, um exemplo de como o cooperativismo e a sustentabilidade estão redesenhando a cafeicultura familiar em Mato Grosso.

A cerca de 550 quilômetros dali, em Juína, Eduardo Lucena Vivian, 23, já colheu 50 sacas de café conilon em um hectare herdado do pai. Com 3 mil pés cultivados, ele reinveste a renda da produção e mostra que o café também pode ser alternativa concreta de permanência para jovens no campo.

Juntos, Yasmin, Patrícia e Eduardo representam a nova cafeicultura mato-grossense: jovem, técnica e sustentável.

💧 Irrigação e aprendizado no campo

No centro dessa nova etapa está a tecnologia aplicada ao campo. A microaspersão, usada na propriedade da família de Yasmin, permite que cada planta receba água de forma medida, com menor evaporação e maior uniformidade no crescimento. É um exemplo de como práticas simples, mas eficientes, podem elevar a qualidade do grão e tornar viável a permanência de jovens no campo.

Yasmin Leite na lavoura de café

“O café representa muito para nossa família e também para a região, porque aqui quase ninguém planta. Pode servir de incentivo para outras famílias da agricultura familiar”

— Yasmin Leite, jovem produtora

“A gente começou vendo vídeos na internet e conversando com vizinhos. Depois conhecemos a Empaer (Empresa Mato-grossense de Pesquisa, Assistência e Extensão Rural ) e a agrônoma veio até aqui, explicou tudo certinho, como comprar as mudas, onde plantar e como cuidar”, conta Yasmin.

A família iniciou o cultivo em abril de 2025, com mudas vindas de Tangará da Serra, região reconhecida pela produção de cafés de qualidade em Mato Grosso. O processo envolveu análise do solo, preparo das covas e implantação de um moderno sistema de irrigação por microaspersão, instalado com apoio técnico da Empaer-MT e de um produtor vizinho.

Café • Sustentabilidade

Irrigação por microaspersão

Eficiência hídrica no café: água na base das plantas, menos desperdício e desenvolvimento uniforme.

  • 10 mil L/h
  • Uso racional da água
  • Água na base das plantas
  • Desenvolvimento uniforme
  • Qualidade na origem
Crédito: Primeira Página / arquivo

“A gente irriga de manhã e, às vezes, de tarde também, quando precisa. A gente faz quando o café está pedindo água”, explica Yasmin, que aprendeu sobre manejo hídrico e adubação no dia a dia da lavoura. O sistema tem vazão de 10 mil litros de água por hora, controlada por microaspersores que garantem eficiência e uso racional da água, uma das práticas que fazem parte da sustentabilidade e da qualidade na produção do café brasileiro.

“Desde o início eu participei de tudo, das conversas até o plantio das mudas. Ver isso acontecendo é muito maravilhoso para mim”

— Yasmin Leite

O uso da microaspersão não apenas economiza água, mas também mantém a uniformidade no desenvolvimento das plantas, favorecendo a formação de frutos equilibrados, uma das bases para alcançar cafés de melhor padrão de bebida.

HQ PP

Mais do que uma cultura agrícola, o café se tornou um projeto de aprendizado e permanência no campo. “Me ajuda a ter conhecimento e também a continuar no campo. Eu gosto muito disso e quero fazer Agronomia”, diz.

Inspirada pela vivência, Yasmin pensa em criar uma conta no Instagram para mostrar a rotina da propriedade. “Pretendo fazer vídeos explicando nosso dia a dia, tirando fotos, porque sei que isso chama atenção de outros jovens”, afirma.

Yasmin mostra como a irrigação por microaspersão fortalece a cafeicultura em Mato Grosso

No Assentamento Triunfo, em Pontes e Lacerda, a jovem produtora de 15 anos explica como a água, aplicada gota a gota, garante sustentabilidade e qualidade ao cultivo familiar de café.

No vídeo acima, a adolescente mostra na prática como o aspersor foi instalado no solo, irrigando plantas em ambos os lados de cada fileira, garantindo a cobertura uniforme do cultivo. Ela explica ainda a dinâmica de mudança de setores: ao abrir um ponto de água, o sistema é direcionado para determinada área da lavoura e, após alguns minutos, o fluxo é ajustado para outro setor, de forma que cada espaço receba a quantidade necessária.

Yasmin comenta que o volume de água utilizado, equivalente a 10 mil litros por hora, distribuídos em ciclos de meia hora em cada setor. Segundo ela, a eficiência do sistema garante que a irrigação seja feita sem desperdício, bastando pequenos ajustes manuais quando algum aspersor apresenta falhas.

💦 Como funciona a microaspersão

  • Vazão do sistema: 10 m³/h (10 mil litros por hora), divididos em 3 setores.
    → Cada setor é irrigado por cerca de 20 minutos, garantindo cobertura uniforme.
  • Entrega por planta (estimada): 2.544 mudas em 1 hectare.
    → Em cada ciclo de 20 min/setor, a irrigação entrega cerca de 1,3 a 1,5 litro por planta.
  • Benefícios:
    ✅ Molha o solo na base, não as folhas → menos doenças fúngicas.
    ✅ Reduz evaporação → economia de até 30% de água vs. aspersão convencional.
    ✅ Mantém umidade uniforme → plantas crescem de forma equilibrada, favorecendo frutos de melhor qualidade.
  • Riscos e cuidados:
    ⚠️ Entupimento de emissores → rotina de flushing (limpeza das linhas) e filtros de água.
    ⚠️ Ajuste manual quando um emissor falha.
    ✔️ Manutenção preventiva garante eficiência hídrica e longevidade do sistema.

Infográfico • Primeira Página

A experiência também ultrapassou as cercas da propriedade. Yasmin apresentou o projeto à turma da escola, unindo teoria e prática e despertando nos colegas o interesse pela agricultura. O relato virou exemplo de como o campo pode dialogar com a educação e abrir espaço para novos sonhos. “Como sou jovem, consigo chamar a atenção de outros jovens com formas diferentes de conversar”, afirma, com orgulho.

A lavoura cultivada pela família de Yasmin é formada por 2.544 mudas de café robusta, distribuídas em um hectare. Segundo a jovem, o plantio, iniciado há seis meses, já apresenta resultados visíveis no desenvolvimento das plantas após a implantação da irrigação e da adubação adequada. A primeira colheita é esperada dentro de um ano.

“Foi um trabalho novo, mas que agora faz parte de um sonho, porque estamos vendo que o café está se desenvolvendo e acreditamos que será um incentivo também para outras famílias da agricultura familiar da região”, declara Yasmin.

Ela contou que participou de todas as etapas, desde as conversas iniciais sobre o cultivo até o plantio das mudas, sempre com incentivo dos pais. O sistema de irrigação por microaspersores foi instalado com apoio técnico da Empaer, e a água utilizada vem de um poço da propriedade. Para Yasmin, o café se tornou mais que uma lavoura: é um projeto de aprendizado, permanência no campo e motivação para que outros jovens conheçam a cafeicultura.

🌱 Sustentabilidade e associativismo

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Patrícia dos Santos Vieira produz café com o apoio da Associação Sol Nascente e do Programa REM MT – Foto: Arquivo pessoal

Em Pontes e Lacerda, a produtora Patrícia dos Santos Vieira, de 33 anos, é um dos rostos que simbolizam o impacto social do Programa REM MT na agricultura familiar. No Assentamento Sol Nascente, ela cultiva 2.800 pés de café irrigados por gotejamento.

“Meu marido nasceu e cresceu aqui no sítio, e até hoje a gente mora no mesmo lugar, num pedaço de terra que o pai dele cedeu pra gente plantar o café. Eu sou mineira, mas fui criada em Mato Grosso, em Alta Floresta. Saí de lá com 15 anos e depois voltei, e desde então não pretendo mais sair daqui. Adoro morar no sítio”, conta a produtora.

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O cultivo começou há cerca de um ano, com apoio da Associação Comunitária Rural Sol Nascente (ACRSN), que foi reestruturada com investimento de R$ 1 milhão do Programa REM MT, destinado ao projeto Plano de Gestão da Cadeia de Valor do Café no Território do Portal da Amazônia.

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Associação Sol Nascente é dirigida por mulheres – Foto: Programa REM MT/ Assessoria

A iniciativa, financiada pelos governos da Alemanha e do Reino Unido por meio do Banco Alemão de Desenvolvimento (KfW), fortaleceu comunidades rurais em todo o estado e transformou a associação em um polo de cooperação e renda para dezenas de famílias.

“O nosso café tem um ano. Começou com a nova diretoria da associação nos motivando e também graças ao Projeto REM. Escolhemos o café porque ocupa pouco espaço e é muito produtivo. Irrigado, ele fica mais bonito e cresce melhor”, explica Patrícia, que trabalha com o marido, Paulo Ricardo, de 26 anos.

“Meu marido nasceu e cresceu aqui no sítio, e até hoje a gente mora no mesmo lugar. Adoro viver no campo e ver o café crescendo junto com a gente.”

— Patrícia dos Santos Vieira

A Associação Comunitária Rural Sol Nascente, da qual Patrícia faz parte, também atua na comercialização do café produzido pelos associados. Segundo ela, embora sua família ainda vá realizar a primeira colheita em 2026, outros produtores da comunidade já vendem a produção com o apoio da entidade.

“A associação compra o café dos produtores e ajuda a encontrar outros compradores quando precisa. Assim, ninguém fica sem vender”, explica.

A primeira colheita de Patrícia está prevista para 2026, e a família pretende ampliar a área cultivada nos próximos anos. “O campo é muito bom. A gente tem de tudo e vive de forma mais tranquila. Eu adoro morar aqui”, diz.

Além do apoio direto aos produtores, o projeto reformou a agroindústria local, adquiriu equipamentos modernos para torrefação e empacotamento e criou um plano de comunicação para valorizar o café da região.

A coordenadora do projeto “Plano de Gestão da Cadeia de Valor do Café no Território do Portal da Amazônia”, o resultado mais visível do fortalecimento da associação é o Café Congens, marca registrada pelos produtores do Assentamento Sol Nascente. Produzido por agricultores familiares de Pontes e Lacerda e Alta Floresta, o grão é torrado e moído na própria agroindústria da comunidade e leva no rótulo o selo “Café puro produzido na Bacia Amazônica”, que valoriza a origem e reforça o compromisso com práticas sustentáveis.

Café & cooperativismo

Café Congens: a marca do cooperativismo na Bacia Amazônica

Produzido por agricultores familiares e beneficiado localmente, o Café Congens simboliza o renascimento da cafeicultura com selo de origem e força coletiva no campo.

Fontes: Associação Sol Nascente / Programa REM MT • Fotos: Primeira Página / arquivo

A associação modernizou as embalagens, ampliou a capacidade de beneficiamento e passou a comercializar diretamente em feiras regionais, supermercados e plataformas online, garantindo renda a dezenas de famílias da agricultura familiar. O Café Congens, de torra média e 100% robusta, reflete o avanço técnico e a cooperação que impulsionam a nova cafeicultura mato-grossense.

“Hoje o nosso café tem uma cara nova, moderna, mas o mais importante é o que está por trás dela, o esforço coletivo de quem acreditou que era possível recomeçar. O projeto chegou para resgatar os sonhos dos produtores da nossa comunidade e de comunidades vizinhas. Muitos tinham deixado o café para trás, e agora estão revivendo esse sonho”, diz Ana Aparecida.

O impacto também se refletiu na representatividade feminina: a nova diretoria da associação passou a ter 45% de mulheres, que agora participam das decisões e da gestão da produção.

O número de cafeicultores na região triplicou desde o início do projeto, consolidando o café como alternativa real de renda e permanência no campo.

☕️Café como escolha de permanência

HQ EDUARDO

Já Eduardo Lucena cultiva café em um hectare que recebeu do pai. Em 2023, primeiro ano de resultado, ele colheu 50 sacas, vendidas a R$ 700 cada, o que lhe garantiu renda para reinvestir na lavoura e manter-se no campo.

“Aqui em casa, eu, meu pai e meu irmão trabalhamos juntos. Meu pai gerencia tudo e nós botamos o serviço para andar. O kit de irrigação que recebemos de um programa do governo foi muito importante para a gente organizar a área e facilitar o manejo”, diz Eduardo, destacando que a produção própria sempre foi o objetivo da família.

O café, para eles, é mais que uma lavoura, é permanência no campo, aprendizado e futuro.

📈MT é um dos 10 maiores produtores do Brasil

Jocir Kasecker Junior — Coordenador do Centro Regional de Pesquisa e Transferência de Tecnologia da Empaer em Sinop

O coordenador do Centro Regional de Pesquisa e Transferência de Tecnologia da Empaer em Sinop, Jocir Kasecker Junior, destacou a importância do jovem empreendedor rural no avanço da cafeicultura em Mato Grosso. Segundo ele, o estado já figura entre os 10 maiores produtores de café do Brasil, resultado de investimentos em pesquisa, produção de mudas e validação de clones adaptados às condições locais.

“A cafeicultura sem irrigação em Mato Grosso se torna uma atividade não lucrativa. Com um sistema simples e de baixo custo, é possível alcançar qualidade e produtividade incomparáveis”, destaca.

Ele ressaltou ainda que técnicos da Empaer, em parceria com a Embrapa e com apoio da Secretaria de Estado de Agricultura Familiar (Seaf), acompanham os produtores em todas as etapas, desde o planejamento da lavoura até o processamento do café, com o objetivo de fomentar a nova cafeicultura mato-grossense.

Perfil dos produtores rurais de Mato Grosso

Pesquisa Imea/Senar-MT (2024) • foco: idade, escolaridade e adoção tecnológica

Faixa etária

A maioria está entre 36 e 65 anos, indicando um setor liderado por produtores experientes. A presença de jovens é minoritária, o que pressiona a sucessão familiar.

Desafio: sucessão Experiência no comando

Escolaridade

Maioria com ensino superior; somente 1% está no ensino básico. A gestão do campo é cada vez mais técnica e profissional.

Formação elevada Gestão técnica

Uso de tecnologia

O produtor mato-grossense é conectado e operacionaliza o dia a dia com ferramentas digitais.

Conectividade

86% das propriedades têm internet — base para assistência técnica remota, gestão e comércio digital.

Cobertura 86% Campo conectado

Aptidão à inovação

27% são early adopters; 40% preferem observar antes de adotar. A difusão tecnológica avança, mas com perfis distintos.

Early adopters 27% Cautelosos 40%

Compras & Vendas digitais

35% compram insumos online e 23% vendem por plataformas digitais — tendências que ganham força com a conectividade no campo.

Compras 35% Vendas 23%

Fonte: Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) e Senar-MT, 2024.

🧑🏻‍🌾Jovens no campo, ainda são poucos

Apesar do avanço da tecnologia e da profissionalização no campo, a presença de jovens entre os produtores rurais de Mato Grosso ainda é limitada. Segundo pesquisa realizada pelo Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar-MT), divulgada em 2024, a maior parte dos agricultores do estado está na faixa etária de 36 a 65 anos. O dado evidencia um desafio crescente: a sucessão familiar e a permanência das novas gerações no meio rural.

O levantamento mostra que, embora haja interesse pontual de jovens em atividades ligadas à agropecuária, a gestão das propriedades permanece predominantemente nas mãos de produtores mais experientes. Para especialistas, esse cenário reforça a necessidade de políticas de incentivo, capacitação e valorização do papel do jovem no campo, de modo a garantir a continuidade e a inovação da agricultura mato-grossense nos próximos anos.

☕ A nova cafeicultura de Mato Grosso

Da retomada dos experimentos à nova geração sustentável liderada por jovens como Yasmin Leite.

2005–2010

Retomada dos experimentos

Testes de variedades de café arábica em Tangará da Serra e Juína, conduzidos pela Empaer e Embrapa Agrossilvipastoril.

2015–2018

Primeiros projetos assistidos

Pequenos produtores recebem apoio técnico e implantam irrigação por gotejamento e microaspersão.

2020–2024

Expansão familiar

A cafeicultura se expande para Pontes e Lacerda e Colniza, com foco em qualidade e agricultura familiar.

2025

Nova geração

Jovens como Yasmin Leite simbolizam o futuro: sustentabilidade, irrigação eficiente e aprendizado técnico no campo.

Fontes: Empaer-MT • Conab • CNC • OCB

O movimento reflete uma tendência nacional. Segundo o Conselho Nacional do Café (CNC) e a Conab, o Brasil segue como o maior produtor e exportador mundial de café, com aproximadamente 36 milhões de sacas colhidas na safra 2023/24. Em Mato Grosso, a expansão da cultura é guiada por tecnologia, sustentabilidade e o envolvimento de novas gerações.

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Cafeicultura em Mato Grosso elevou em mais de 250% a produtividade nos últimos anos, segundo a Embrapa. | Foto: Mayke Toscano/Secom-MT

O Estado aposta em cafés de alta qualidade e em sistemas produtivos sustentáveis, impulsionados por boas práticas agrícolas e parcerias com cooperativas e instituições de pesquisa. Esse modelo, que alia eficiência técnica e responsabilidade social, é defendido pelo CNC e pela Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) como base para o futuro da cafeicultura nacional.

📊Aumento na produtividade

CAFEICULTURA EM MT

NÚMEROS QUE EXPLICAM O AVANÇO

Contexto para a nova geração do café: produtividade em alta, base familiar fortalecida e eficiência no uso da terra.

+258,7%
Crescimento da produtividade (2015–2023) — Embrapa
22,6 sc/ha
Produtividade média (2023); era 6,3 sc/ha em 2015
270 mil sacas
Produção prevista para 2025
11,6 mil ha
Área atual (queda ante 20 mil ha em 2014), com mais eficiência
8.050 postos
Empregos gerados (2015–2023)
+ inclusão
Mais mulheres, jovens e povos indígenas na atividade
100% familiar
Produção conduzida por agricultores familiares
MT Produtivo Café
Assistência técnica, mudas, mecanização, calcário e irrigação (Seaf & Empaer)
ICMS isento
Sobre café cru vendido à indústria local (estimula beneficiamento interno)
9º no país
Entre os maiores produtores de café do Brasil
Produtividade Estrutura & Social Mercado & Posição
Fontes: Embrapa (2015–2023); Seaf/MT; Empaer-MT. Valores conforme dados fornecidos pela redação.

Nos últimos anos, o estado ampliou a produtividade em mais de 250%, segundo a Embrapa, reflexo de investimentos em melhoramento genético, mecanização e manejo sustentável. O programa Mato Grosso Produtivo Café, conduzido pelo governo estadual, oferece assistência técnica e insumos diretamente às propriedades, o que fez com que toda a produção estadual esteja nas mãos de agricultores familiares.

Mesmo com menos área plantada, a produção cresceu e alcançou 270 mil sacas previstas para 2025, cultivadas em 11,6 mil hectares, sinal de eficiência e de modernização do campo. O setor já gera mais de oito mil empregos e vem atraindo mulheres, jovens e povos indígenas para a atividade.

🏆Maior produtor de café de MT

Colniza mostra que o café pode sustentar uma cidade inteira
Crédito: Antonio Pinheiro / Secom-MT

Em Colniza, no extremo noroeste de Mato Grosso, o café deixou de ser promessa e virou base da economia local. O município responde por 53% de toda a produção estadual, com mais de 2 mil agricultores familiares cultivando 40 milhões de pés e uma estimativa de 100 mil sacas por safra.

O avanço foi impulsionado por programas da Secretaria de Agricultura Familiar (Seaf-MT), que distribuíram kits de irrigação e mais de 900 mil mudas clonais. Cerca de 80% das lavouras utilizam irrigação, essencial para o café clonal, e os resultados são visíveis: produtividade em alta e novas áreas sendo abertas a cada safra.

Do grão à embalagem

Torra e embalagem do café produzido por agricultores familiares fortalecem a economia de Colniza

Linha de beneficiamento do café; pacote pronto na esteira
Beneficiamento
Trabalhadora organiza pacotes de café na linha de produção
Geração de emprego
Crédito: Antonio Pinheiro / Secom-MT

A cadeia produtiva ganhou fôlego com a instalação da indústria Café Rocha, que torra e embala o grão colhido pelos produtores locais, agregando valor e garantindo que parte da renda permaneça no município.

“O café está segurando Colniza. Muitos produtores estão pagando as contas com o dinheiro do café”, resume o empresário Edison Rocha, proprietário da marca.

A expansão do café em Colniza também fortaleceu o cooperativismo. Produtores familiares têm se organizado em associações para compartilhar máquinas, custos de transporte e estratégias de comercialização, reduzindo a dependência de atravessadores e consolidando a renda no território.

Café significa desenvolvimento

Em Colniza, o café organiza trabalho, tecnologia e renda na agricultura familiar

Mudas de café recebem irrigação controlada, base da produtividade e da sustentabilidade.
Após a colheita, o café é espalhado no terreiro para secagem natural, etapa essencial do beneficiamento.
Qualidade e permanência no campo com manejo de pós-colheita e tecnologia hídrica acessível.
Organização produtiva que fortalece renda local e encurta a cadeia na agricultura familiar.
Local: Colniza (MT)
Crédito: Antonio Pinheiro / Secom-MT

O modelo de Colniza combina tecnologia já, cooperação e agroindustrialização, tornando-se referência para outras regiões do estado. O município se destaca pela organização comunitária e pela parceria entre agricultores, cooperativas e poder público, que enxergam no café uma oportunidade concreta de desenvolvimento.

“Colniza é o celeiro da agricultura familiar. O potencial é enorme e o café mostra isso”, afirmou o produtor Edemilton dos Santos.

🔬O futuro do café

Fotomicrografia do café verde em estudo de nanotecnologia em Mato Grosso

Fotomicrografia do café verde em estudo de nanotecnologia desenvolvido em Mato Grosso, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso (Fapemat). A técnica em lipossomas e outras nanoestruturas preserva antioxidantes e agrega valor à cadeia do café.

Infográfico • Primeira Página

O futuro, em Mato Grosso, já começa a ser desenhado também nos laboratórios. Enquanto famílias como a de Yasmin garantem sustentabilidade com uso racional da água, pesquisadores do estado exploram novos caminhos para o grão, transformando subprodutos como a casca, a película prateada e até o fruto inteiro do café verde em nanopartículas ricas em antioxidantes, minerais e compostos bioativos.

A tecnologia, conduzida pela empresa Cafenólicos, coordenada pela pesquisadora farmacêutica doutora Wanessa Costa Silva Faria, e apoiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso (Fapemat), busca criar formulações para a indústria farmacêutica e cosmética, incluindo sabonetes, hidratantes e águas micelares.

O café verde, muitas vezes considerado um resíduo, passa a ser tratado como insumo de alto valor agregado, capaz de impulsionar a inovação e diversificar o destino da produção.

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