Setor de charcutaria cobra melhores condições em MS

Histórias de superação movimentam um setor cheio de sabor, técnica e desafios.

A charcutaria está ganhando espaço em Mato Grosso do Sul graças a produtores que apostam em carnes locais, processos naturais e técnicas tradicionais de salga, cura, maturação e fermentação. Apesar do avanço, o setor enfrenta diversos desafios ao longo do processo de produção, fiscalização e certificação.

Produto feito pela charcuterie
Charcuterie aproxima o consumidor a produtos artesanais com sabores únicos. (Foto: Nostra Charcuterie)

O primeiro dos desafios é o custo: a carne é local, mas quase todos os outros insumos vêm de fora, o que aumenta os custos de logística e reduz a margem de lucro. Em entrevista ao Portal Primeira Página o proprietário da Nostra Charcuterie (nome francês para charcutaria), Everson Fleck, afirma que a dependência externa limita o ritmo de crescimento.

“Você acha a matéria-prima principal que é a carne aqui no estado, mas a parte de temperos e de invólucros a gente tem que trazer tudo de fora, porque não tem aqui. Então é um desafio”, explicou Fleck.

A sócia proprietária da La Loncha Charcutaria Premium, Isabella Blanco, também relata que a produção de peças artesanais é muito custosa devido a falta de insumos em Mato Grosso do Sul.

“É tudo muito grande logisticamente, a gente paga mais para produzir. Trazemos matéria primária de fora, o que às vezes, atrasa um pouco a questão da evolução do artesanal aqui no estado”, relata Isabela. 

Processo de defumação em chacuterie
Processo de defumação feita em ambiente controlado. (Foto: La Loncha Charcutaria Premium)

A fiscalização também aparece como obstáculo para o setor, não por falta de rigor — visto como necessário —, mas por orientações desencontradas entre município e estado. Produtores relatam mudanças constantes, exigências conflitantes e dificuldades para obter informações claras.

Atualmente, a Nostra Charcuterie possui o Selo Arte para um de seus produtos, o que lhe permite a comercialização do mesmo em todo o Brasil. Já a La Loncha Charcutaria Premium possui o SIM (Selo de Inspeção Municipal), que atesta a qualidade e a segurança de produtos de origem animal e autoriza apenas a comercialização local.

Selo Arte da Nostra Charcuterie
Everson Fleck exibe com orgulho o Selo Arte de sua charcuterie, mas cobra agilidade das autoridades para certificados que permitem venda em escala nacional. (Foto: Thauana Luares)

Ambas as empresas estão em busca da certificação do SISBI/POA (Sistema Brasileiro de Inspeção de Produtos de Origem Animal), que permite a venda no país inteiro. No entanto, a interferência de informações traz incertezas quanto às adequações necessárias.

“Um aceita e fala que podemos vender para o estado inteiro, aí você vai no consórcio e eles rebatem dizendo que tem que se adequar com outra questão”, relata Everson.

Leia também: Selo Arte: produtos de MS conquistam certificação nacional

Isabela vê esse desencontro como um desincentivo para o setor da charcuterie.

“Podia ser mais desenvolvido e explícito para facilitar a nossa vida. Pra quem tá trabalhando certo conseguir tirar o selo rapidinho e vender seus produtos. Porque tem charcutaria muito boa, sendo feita e não sendo vista”, pontuou ela.

Processo de produção exige cuidados sanitários específicos. (Foto: Thauana Luares)
Processo de produção exige cuidados sanitários específicos. (Foto: Thauana Luares)

Outra queixa recorrente pelas empresas de charcutaria é a impossibilidade de usar a palavra “artesanal” no rótulo — algo permitido em estados vizinhos, segundo os produtores.

“Nossos produtos são totalmente artesanais, só que eu não posso colocar no meu selo a palavra artesanal. Não tem uma legislação específica que fala o que você tem que fazer para se adequar, eles só falam que não pode”, afirma Fleck.

Isabela cobra agilidade do poder público.

“Podia ser mais desenvolvido e explícito para facilitar a nossa vida. Pra quem tá trabalhando certo conseguir tirar o selo rapidinho e vender seus produtos. Porque tem charcutaria muito boa, sendo feita e não sendo vista”, pontuou ela.

A equipe do Portal Primeira Página entrou em contato a Semadesc (Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação), mas não houve retorno até a data de publicação desta matéria.

Cuidados que enriquecem o sabor

O processo produtivo nas duas charcutarias seguem uma rotina cuidadosa. Depois da seleção da carne é feita a moagem, mistura de temperos, embutimento, fermentação e o período de cura, que pode durar dias ou meses, dependendo do tipo de peça.

A etapa mais sensível é justamente a maturação, quando temperatura e umidade precisam ser controladas com precisão para garantir segurança e sabor. Em Mato Grosso do Sul, onde o clima é quente e úmido, o controle ambiental exige investimento alto em câmaras especializadas e manejo constante.

Processo de produção na La Loncha Charcutaria Premium em Campo Grande/MS. (Vídeo: Thauana Luares)

As charcutarias sul-mato-grossenses se destacam por oferecer peças naturais, sem aditivos químicos e com perfis sensoriais marcantes. Na La Loncha, a produção média chega a 2,5 toneladas mensais, todas com vida de prateleira curta — entre 30 dias e, depois de abertas, apenas dois.

“O nosso produto é muito perecível. A gente tem um mês de prateleira, e olhe lá. Depois de pateado, em dois dias a peça já vai estar perdendo muito suas características”, explica a proprietária. 

A redução do tempo é uma das características dos produtos artesanais, que não utilizam conservantes e exigem consumo mais rápido.

Produtos da Nostra Charcuterie
Charcutaria une processos naturais e técnicas tradicionais de salga, cura, maturação e fermentação. (Foto: Thauana Luares)

Outra força do setor é a proximidade com a cultura do estado, com o uso de ingredientes regionais, como a guavira, reforçando a identidade dos produtos e as diferenciando das peças industriais. 

Nos itens artesanais, o consumidor encontra sabores mais complexos, texturas variadas e um produto que expressa técnica, terroir e história.

A arte da charcutaria

As histórias de amor e dedicação à charcutaria em Mato Grosso do Sul surgiram em meio aos desafios do isolamento social, e hoje formam uma cadeia que vai do campo ao prato com identidade regional.

salame pantaneiro de guavira da Nostra Charcuterie
Salame pantaneiro de guavira da Nostra Charcuterie recebe Selo Arte. (Foto: Reprodução)

Em entrevista ao portal Primeira Página, Fleck relata que a inspiração e dedicação à charcutaria veio de uma experiência na Itália em 2020, mas o impulso surgiu em meio à pandemia, quando o isolamento o levou a fazer cursos online e iniciar as primeiras peças no fundo de casa.

“O que era experimento virou negócio em 2021, com a criação formal da fábrica e a ampliação da linha para mais de 20 produtos, incluindo o salame regional com guavira, que se tornou marca registrada da Nostra”, explicou Fleck.

Produtos da La Loncha Charcutaria
Produtos artesanais feitos na La Loncha Charcutaria. (Foto: Thauana Luares)

História semelhante aconteceu com Isabella Blanco, da La Loncha Charcutaria Premium, que uniu formação técnica e paixão pelo artesanal para criar uma produção dedicada a peças artesanais produzidas manualmente.

“A gente quer demonstrar essa parte mais artesanal e 100% natural. O nosso produto é muito imperecível e temos os que demandam tempo para atingir a qualidade necessária, são conhecimentos diferentes para cada produção”, afirmou Isabella.

Ambas as empresas priorizam a compra de carne suína e bovina de Mato Grosso do Sul, aproximando o consumidor do ciclo “do campo ao prato”, no entanto ainda dependem de temperos, tripas e equipamentos de fornecedores externos.

Visão de futuro

Mesmo com entraves, o setor da charcutaria segue otimista. A certificação SISBI-POA é vista como o próximo passo para ampliar mercado e profissionalizar ainda mais a cadeia. Os apelos dos produtores apontam para três necessidades principais para este avanço:

  • Clareza regulatória;
  • Redução de custos;
  • Educação do consumidor. 

A degustação aparece como ferramenta poderosa para a chamada ‘educação do consumidor’. Avaliada como uma forma de aproximar o consumidor de um produto que exige conhecimento e percepção de valor.

Tabua de produtos feitos em chacuterie
Produção artesanal em charcutaria respeita o tempo, a tradição e o sabor. (Foto: Reprodução)

No fim, as charcuteries em Mato Grosso do Sul avança pela combinação de técnica, histórias pessoais e a relação direta com o regional. Para ganhar escala sem perder identidade, os produtores pedem processos mais simples, ambiente regulatório estável e incentivo ao setor.

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