Força que brota da terra: o protagonismo de mulheres no agro
Histórias de coragem e gestão marcam o protagonismo feminino no campo
Neste Dia Internacional da Mulher (8), o agronegócio de Mato Grosso do Sul celebra mais do que recordes de produtividade: reconhece a presença e a liderança de milhares de mulheres que estão à frente das atividades no campo. No estado, quase 20 mil cargos de liderança no agro são ocupados por mulheres, que assumem papel cada vez mais estratégico na gestão das propriedades rurais.

Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), indicam que mais de 152 mil mulheres vivem na área rural de Mato Grosso do Sul, representando 46,73% da população da porteira para dentro.
O Serviço Nacional de Aprendizagem Rural de Mato Grosso do Sul (Senar/MS) também aponta que a presença feminina nas propriedades rurais é uma realidade consolidada. Atualmente, a Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) atende 9.331 propriedades, sendo 2.753 geridas por mulheres, o que representa 27,59% do público atendido.

A analista educacional do Senar/MS, Luciane Consoli Saad, ressalta que a presença de mulheres no meio rural é fundamental para o desenvolvimento sustentável do agronegócio e das comunidades rurais.
“A mulher atua de forma estratégica na gestão das propriedades, na organização financeira, na diversificação das atividades produtivas e na sucessão familiar, contribuindo diretamente para a permanência das famílias no campo e para o fortalecimento da economia rural”, aponta.
Esta reportagem apresenta histórias de mulheres fortes e corajosas que conquistaram espaço no agro de Mato Grosso do Sul e inspiram outras a seguir o mesmo caminho.
Do sonho de infância à gestão da Embrapa
Zootecnista com PhD em Gestão Agropecuária, Mariana de Aragão Pereira assumiu em 2026 uma das unidades mais importantes da pesquisa científica do país: a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária Gado de Corte (Embrapa Gado de Corte), localizada em Campo Grande.

Seu amor pelo rural nasceu ainda na infância. Mesmo morando no Rio de Janeiro, ela conta que visitava a fazenda de parentes nas férias escolares, o que despertou seu interesse pelo campo.
“Desde criança eu dizia que trabalharia com animais, mesmo tendo crescido no Rio de Janeiro, longe da realidade do campo, e meu interesse também foi estimulado por meu avô, agrônomo. Com o tempo, entendi que a zootecnia seria o caminho para transformar essa vocação em profissão”, relata.
A pesquisadora afirma que a construção de sua carreira exigiu persistência, preparo técnico e capacidade de adaptação, trocando a realidade urbana pela vocação rural. Um dos grandes desafios foi atuar em temáticas transversais enquanto a maioria dos projetos tinha caráter disciplinar.
“Se destacar em um ambiente historicamente masculino nem sempre é fácil. Exige foco, persistência e agarrar as oportunidades, mesmo quando dá frio na barriga, como assumir posições de liderança” afirma.

Para ela, a liderança exige habilidades que vão além da formação acadêmica tradicional, como gestão de pessoas e visão sistêmica, e que a presença feminina nesses cargos auxilia na tomada de decisões, amplia as perspectivas e fortalece a capacidade de se resolver problemas complexos.
“Busquem excelência técnica, mas não deixem de desenvolver autoconfiança e posicionamento. O agro é um setor de oportunidades imensas, especialmente para quem está preparada e disposta a aprender continuamente. Construam redes, tenham bons mentores e também se tornem referência para outras mulheres. O protagonismo feminino no agro é uma realidade em expansão”.
Mariana de Aragão Pereira

Escritora e mãe inspira mulheres no campo
Bióloga e doutora em Agronomia, Carla Aquino transformou sua vivência na roça em um propósito de vida e de comunicação. Após anos em multinacionais do setor agrícola, hoje atua na gestão familiar e usa a escrita para valorizar e inspirar mulheres do agro por meio de seu projeto “Elas Lideram o Agro”, disseminado através de livros e palestras, que contam histórias reais de figuras femininas que lideram na produção, pesquisa, gestão ou nas empresas familiares.
“Mais do que um livro ou um projeto editorial, o ‘Elas Lideram o Agro’ é uma forma de reconhecer o trabalho dessas mulheres e inspirar outras a acreditarem no seu papel no campo. Através dessas histórias, mostramos que existem muitas formas de liderar dentro do agro”.
Carla Aquino

Nascida e criada no meio rural, o agro sempre fez parte de sua história. Mesmo quando tomou a decisão de deixar a carreira corporativa para ficar mais perto dos filhos, ela percebeu que continuava profundamente conectada ao agro.
“O projeto Elas Lideram o Agro, acredito que tenha surgido como um propósito de Deus na minha vida: dar voz às mulheres do agro que lideram de onde estão e fazem a diferença no campo”, explica.
Carla ressalta que a sensibilidade feminina é um diferencial estratégico na gestão de pessoas e na construção de um legado sólido. Em entrevista ao Primeira Página, ela afirma que: “a mulher traz uma visão muito forte de gestão e cuidado. Elas não apenas participam do campo, elas ajudam a transformá-lo de forma profunda”.

Um de seus maiores desafios foi equilibrar a carreira com a maternidade e os novos planos profissionais. Segundo ela, encontrar o próprio espaço de voz em um setor ainda masculino exigiu consistência e coragem.
“Minha principal mensagem é que a mulher precisa conhecer a própria identidade. Quando ela sabe quem é, fica muito mais fácil entender o seu lugar e o seu papel dentro do agro”, garante a escritora e palestrante.
Por fim, ela enfatiza que a presença feminina no campo reflete diretamente na formação dos filhos, criando novos sucessores.
“As mulheres do agro estão tanto da porteira pra dentro quanto da porteira pra fora, e todas são fundamentais. Quando uma mulher cresce no campo, ela não cresce sozinha, ela fortalece toda a família, inspira outras mulheres e ajuda a construir o futuro do agro”.
Carla Cristina Aquino
Carla se dedica hoje a sua família e a fortalecer a liderança feminina no agro por meio de livros, palestras e projetos que contam histórias reais de mulheres do campo.

A sucessão familiar que virou referência de força e crescimento
Maria Augusta Alonso, mais conhecida como Guta, assumiu a gestão dos negócios familiares aos 33 anos, logo após o falecimento precoce de seu pai, em 2015. Com doutorado em reprodução animal pela Universidade de São Paulo (USP), ela comanda a seleção de Nelores PO localizada em Dois Irmãos do Buriti (MS), além de uma central equina no estado de São Paulo.

Com uma infância rodeada de animais, Guta decidiu seguir os estudos na veterinária para ajudar a família e tocar os negócios.
“Sempre vivi no agro, nas fazendas, mexendo com cavalo, com boi, no curral, na cocheira e foi assim que eu vivi no agro, desde muito pequena queria ser veterinária e nunca quis trabalhar com outra coisa que não fosse com o agronegócio”, explica.
Quando questionada sobre a valorização da presença feminina no campo, ela aponta que a competência profissional deve sobressair às questões de gênero, promovendo um ambiente de trabalho de mútua colaboração.

“Acho que a gente só ganha com mulheres e homens trabalhando juntos. Eu tento fazer o que meu pai fazia comigo: fazer com que o gênero seja apenas um detalhe e não uma diferença”, aponta.
A pecuarista assumiu a gestão dos negócios em meio ao desafio de cuidar de sua filha de 6 meses e de sua irmã com deficiência. No entanto, sua postura resiliente e guiada por valores humanos foi decisiva para consolidar a estrutura de seus negócios.
“Para as meninas que querem começar no agro, a dica é não colocar problemas. Dá para fazer, levantar a cabeça, provar seu valor e trabalhar sem medo. O trabalho dignifica o ser humano. Se você é uma boa pessoa, as portas se abrem e o caminho vai levando a gente pelo bem”.
Guta Alonso

Da aposentadoria ao empreendedorismo rural
A história de Cláudia Cecília Nakagaki Cunha Fukuda mostra como o empreendedorismo pode nascer a partir da vontade de transformar a propriedade rural em uma fonte de renda. Bacharel em Direito e aposentada da Caixa Econômica Federal, ela encontrou no campo uma nova vocação: produzir e comercializar farofa artesanal.

Dona de uma pequena propriedade próxima a Dourados (MS), Cláudia conta que sempre teve o desejo de tornar o espaço mais produtivo. A mudança começou quando buscou orientações no Sindicato Rural e conheceu o curso Mulheres em Campo, do Senar/MS.
Foi então que decidiu levar sua receita tradicional de farofa que sempre fez sucesso entre parentes e amigos para o mercado, e assim deu origem à marca Dona Farofinha, produto que hoje é comercializado e representa a concretização de um projeto que nasceu dentro da capacitação.
Apesar do sucesso, ela afirma que o principal desafio foi acreditar no próprio potencial e enfrentar as dificuldades do empreendedorismo.
“O maior desafio foi sair da comodidade e perceber que eu podia fazer acontecer. A gente trabalha dentro de normas no Brasil muito burocráticas, então outro desafio do pequeno empresário é ele arcar com tributação muito alta”, afirma.

Para Cláudia, as mulheres têm um olhar diferenciado para oportunidades no campo, especialmente quando se trata de agregar valor aos produtos. E que a força feminina tem que ser reconhecida no agronegócio.
“A mulher muitas vezes enxerga possibilidades onde outros não veem, pode ser um pão, um queijo, uma compota ou qualquer produto que ela transforme e leve para o mercado. A gente precisa sair do pano de fundo e ser protagonista. A mulher pode transformar o que produz na propriedade em negócio e inspirar outras a fazer o mesmo”.
Claudia Cecília Nakagaki Cunha Fukuda

Legado que inspira
As trajetórias de Mariana, Carla, Guta, Claudia e tantas outras mulheres mostram a força feminina no agro de Mato Grosso do Sul. Seja na pesquisa científica, na literatura técnica, na lida direta no curral ou empreendendo com receitas de familia, elas imprimem um olhar que une produtividade com sensibilidade, garantindo a evolução do setor.

Celebrar essas histórias no Dia Internacional da Mulher é reconhecer que o futuro do agronegócio passa pelas mãos e pela inteligência feminina. Elas provam que, com preparo e coragem, é possível liderar transformações que impactam desde a pequena propriedade até as grandes exportações.
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