Guerra no Irã pode pressionar preço de fertilizantes, alerta Imea
Em entrevista, analista do Imea diz que escalada no Oriente Médio pode elevar custos da próxima safra, embora impacto imediato ainda seja limitado.
A escalada das tensões no Oriente Médio reacendeu o alerta no agronegócio brasileiro, especialmente em relação ao custo dos fertilizantes. Embora os impactos imediatos ainda sejam limitados para a safra em andamento, analistas do setor e autoridades do governo avaliam que a continuidade do conflito pode pressionar os custos de produção nas próximas safras.

De um lado, o Governo Federal adota um tom de cautela. O ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro (PSD-MT), afirma que a maior parte dos insumos necessários para as lavouras atuais já foi adquirida, o que reduz o risco de efeitos imediatos sobre a produção.
“Os produtores que estão agora na segunda safra de milho já compraram seus insumos. A safra de verão será implementada a partir de setembro, então temos um tempo ainda para comprar os insumos. É momento de observação e de cautela e o governo vai estar acompanhando isso ao lado dos produtores”, disse o ministro.
Por outro lado, análises técnicas indicam que os efeitos do conflito podem começar a aparecer na formação dos custos da safra 2026/27. Estudo do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) aponta que a instabilidade já pode ser observada no mercado internacional de fertilizantes.
Levantamento do Imea
Segundo o levantamento, a incerteza sobre a oferta e o aumento dos custos de frete e seguros marítimos elevaram significativamente os preços futuros da ureia, insumo utilizado nas safras de milho. O contrato para março de 2026 chegou a US$ 618 por tonelada em 5 de março, alta de 30,65% desde o início da escalada do conflito.
Em entrevista ao Primeira Página, o coordenador de Inteligência de Mercado Agropecuário do Imea, Rodrigo Silva, a safra atual praticamente não sofre influência desse movimento porque as compras de insumos já foram realizadas. No entanto, o cenário muda quando se olha para o próximo ciclo produtivo.
Segundo ele, a composição de custos da safra 2026/27 está no começo, o que deixa o produtor mais exposto às oscilações do mercado internacional. No caso do milho, por exemplo, apenas cerca de 6% das compras de fertilizantes haviam sido realizadas no momento da análise.
Silva explica que a alta nos contratos futuros não significa necessariamente que o produtor já esteja pagando esses valores, mas indica uma tendência de mercado. Caso o conflito se prolongue e os preços internacionais se mantenham elevados, o impacto pode se consolidar nas negociações de fertilizantes.
“Para a próxima safra, que começa com a soja em meados de setembro e depois com o milho, aí sim a gente provavelmente pode ver impacto. Se a gente olhar o mercado futuro, o preço da ureia subiu cerca de 30% em uma semana depois do início da guerra. Não significa que o produtor já está pagando esse preço, mas mostra como o mercado está reagindo”, disse o coordenador.
Outro fator que pressiona os custos é a cadeia logística. Com a instabilidade no Estreito de Ormuz, principal rota comercial de fertilizantes, o preço do petróleo subiu e o transporte marítimo ficou mais caro, elevando o custo do frete e seguro das embarcações.
“Ainda temos cerca de 94% das compras de fertilizantes para o milho da próxima safra que precisam ser feitas. E justamente entre o segundo e o terceiro trimestre é quando ocorrem as principais aquisições desses insumos. Se esse patamar não recuar, seja por questões de mercado ou pelo prolongamento do conflito, o impacto no custo de produção do produtor será muito grande e, consequentemente, também na rentabilidade”, explicou Silva.
Simulações do Imea indicam que, em um cenário de alta de 30% nos fertilizantes nitrogenados, o Custo Operacional Efetivo (COE) do milho de alta tecnologia poderia subir cerca de 4,68% em Mato Grosso. No caso da soja, a preocupação está concentrada nos fertilizantes fosfatados, já que o Brasil depende de importações de países como Egito e Israel.
Acompanhe um trecho da entrevista com o representante do Imea:
Apesar dos sinais de alerta, analistas ressaltam que o comportamento dos preços ainda depende da evolução do conflito e da reação do mercado. Com isso, a palavra que ecoa no setor é: cautela.
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