Indígenas Bakairi mantêm criação com mais de mil cabeças de gado em oito aldeias de Paranatinga e Planalto da Serra
A pecuária indígena presente em Paranatinga e Planalto da Serra foca na autonomia, na defesa da terra e na manutenção da coletividade, segundo revelou um artigo do professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Felipe Vander Veldem.
No leste de Mato Grosso, em uma região dominada pelo bioma Cerrado, o povo indígena Kurâ-Bakairi consolida-se como um dos poucos grupos étnicos do Brasil a integrar com sucesso a criação de gado ao seu modo de vida. Atualmente, o rebanho da etnia soma cerca de 1.200 cabeças de gado, distribuídas estrategicamente por oito aldeias situadas nos municípios de Paranatinga e Planalto da Serra.

Segundo o artigo escrito pelo professor do Departamento de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Felipe Vander Velden, a responsabilidade pelos rebanhos recai sobre os caciques de cada uma das oito aldeias.
A aldeia Pakuera, por exemplo, cuida de cerca de 300 cabeças. Para garantir a saúde do rebanho, os indígenas contam com apoio do Instituto de Defesa Agropecuária de Mato Grosso (Indea), que fornece vacinas e medicamentos duas vezes ao ano.

Movimento histórico
Diferente de outros grupos em que a introdução do gado fracassou, os Bakairi possuem uma relação com os bovinos que remonta ao século XVIII. Essa conexão é tão profunda que o boi foi incorporado à mitologia do povo.
Segundo as narrativas tradicionais, a personagem mítica Keri (o Imperador) criou os seres humanos e o gado simultaneamente. Na língua indígena, o animal é chamado de tapira, termo emprestado da palavra usada para “anta”, o que demonstra a antiga familiaridade com o animal.
Atividade de subsistência
A opção pela pecuária não é apenas econômica, mas uma ferramenta política de sobrevivência. Os Bakairi utilizam o gado para ocupar e proteger o território contra invasões de fazendeiros vizinhos, seguindo a lógica regional de que áreas ocupadas por animais são menos visadas para a grilagem.
Além disso, segundo o artigo, a criação adapta-se perfeitamente à geografia local, já que cerca de 85% do território Bakairi é composto por Cerrado, área que os indígenas pouco utilizavam para horticultura ou pesca, mas que é propícia para a criação extensiva.

O gado funciona como uma “poupança com liquidez”, podendo ser convertido em dinheiro rapidamente para necessidades urgentes da comunidade, segundo o artigo.
Apesar do sucesso, o modelo Bakairi difere do agronegócio tradicional. Enquanto as grandes fazendas buscam lucro intensivo, a pecuária indígena foca na autonomia, na defesa da terra e na manutenção da coletividade, provando que é possível adotar tecnologias exógenas sem abrir mão da identidade cultural.
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