Músico aposta em plantação de mirtilo em Mato Grosso do Sul
Também conhecido como blueberry, o "fruto da longevidade" é originário da América do Norte e gosta de clima frio, mas foi adaptado geneticamente para resistir ao calor do estado.
— Blueberry?! Vocês estão louco! Vamos mexer com gado, porque o gado a gente já sabe como lidar.
Foi com essa frase que Flávio Coelho mostrou a indignidade que qualquer outra pessoa demonstraria se ouvisse a proposta feita pelo irmão dele, Euller, e por Patrick, um amigo em comum que mora no Canadá.
Lá na América do Norte, a fruta é de fácil cultivo.
No Brasil, Rio Grande do Sul e Paraná, com climas mais frios, também já plantam mirtilo há décadas.
Mas no calorzão de Mato Grosso do Sul?
A incredulidade deu lugar à curiosidade.
E Flávio passou a pesquisar essa hipótese na internet. Foi quando achou plantações em Goiás.
Conseguiu contato e, em 2023, foi até Brasília para conhecer uma plantação. Voltou de lá com cinco mudas. Plantadas em vasos, na terra, começaram a florescer dando o sinal de que sim, seria possível, cultivar blueberry no calor.
Aumentou a aposta para 3.000 pés. Seis meses depois, já estava colhendo os frutos.
São 150 quilos por semana. Até o fim deste ano, a colheita deve atingir 1 tonelada.
Produção que vai aumentar muito a partir de outubro, quando uma nova unidade da Berry Five será inaugurada com um total de 10.000 pés.
“Hoje, se eu produzisse mais, eu venderia. A procura é muito grande pelo mirtilo”, afirma Flávio.
Toda a produção é vendida para a Mape, distribuidora de frutas que já entrega o produto do sul-mato-grossense para todo o estado e também Mato Grosso.
O produto é embalado em bandejas com 125 gramas.
Em 2026, o produtor espera vender, também, diretamente para o varejo. E estuda implantar um colhe e pague na nova propriedade.

No atual pomar, Flávio, que ganhou como sócios o irmão e o amigo que mora no Canadá, tem duas espécies de mirtilo no pomar. A Emerald e a Biloxi na proporção de 50% para cada. Mas a primeira deverá ganhar mais espaço na nova plantação por apresentar produção antecipada.
O plantio é simples. Os arbustos ficam em sacos plásticos com palhas de arroz apenas. O mirtilo não gosta de umidade, por isso, não pode ser encharcado.
A atenção é diária com fertilização e irrigação. São oito disparos com duração de cinco minutos cada.
Pragas e doenças são evitadas com defensivos agrícolas.
A maior ameaça, por enquanto, vem do céu.
Os pássaros sempre dão voos rasantes em busca da fruta doce. Mas nada que afete a produção.
Flávio e os sócios fizeram todo o plantio com a consultoria de um especialista da Universidade de Brasília (UnB) e já receberam visitas de técnicos do Senar/MS para conhecerem a novidade.
O custo de implantação? Flávio calcula em R$ 500 mil por hectare em investimento.
“Vale demais, porque a fruta vem sendo cada vez mais popularizada. Quando comecei a pesquisar, só encontrava mirtilo em hortifruti especializados e elitizados. Agora, já é possível encontrá-lo em supermercados.”
Benefícios
O mirtilo tem alto teor de pigmentos antocianos (substâncias com poder antioxidante, preventivas de doenças degenerativas e agentes de redução do estresse oxidativo e da inflamação do corpo).
A polpa, de sabor doce-ácido pode ser consumida in natura, em sucos e geleias.
Com menos de 60 kcal por porção de 100g, a fruta:
- Reduz a pressão arterial e previne doenças cardíacas;
- Por agir em algumas áreas do cérebro, ajuda a saúde cerebral e a função cognitiva;
- Retarda os sinais de envelhecimento da pele com a produção de colágeno e prevenção dos radicais livres
- Composto por quase 90% de água e com fibras, ajuda na saciedade e hidratação
Música
Flávio Coelho é novato na produção agrícola. Antes de ouvir a proposta do amigo do Canadá, ele estava em outra sintonia.
Durante 10 anos, tocou violão na banda de apoio da dupla sertaneja João Bosco e Vinícius e fez parceria com vários cantores de ponta da música brasileira.

“Parei porque cansei com das viagens. Teve um mês que fizemos 27 shows em 30 dias”, revelou.
Na época, teve de se mudar para Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, para reduzir as distâncias.
De volta a Mato Grosso do Sul, fez da chácara em Jaraguari (a 50 km da capital Campo Grande) espaço para uma composição inédita no estado. De um lado, mirtilo. De outro, mogno africano, madeira de lei de reflorestamento que ainda levará oito anos para estar pronta para a extração.
Mas como um músico dono de uma chácara acabou se tornando um produtor rural com potencial para crescer e se referência no estado?
“Mesmo nunca tendo fazenda, cresci no mundo rural, desde criança indo a fazendas de tios, de amigos, sempre vivendo esse clima”, lembrou.
Apesar da aposta no agro, ele não abandonou a música. A prova tá na parede da sala de estar de chácara, recheada de fotos de sucessos de duplas sertanejas.
Espaço que logo logo vai ganhar mais lembranças.
Flávio tem mais um projeto musical. Uma nova dupla: Modão e Moagem.
“Por que esse nome?” — perguntei.
“Modão por conta do estilo musical que a gente canta, que é o sertanejo mais tradicional com as músicas regionais. Moagem é um termo que usamos aqui no estado, tem o mesmo significado que festa e resenha.”, explicou.
Aliás, quer resenha melhor que dizer que há numa plantação de mirtilo em pleno Mato Grosso do Sul?
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