Tecnologia de precisão corta até 90% do uso de herbicidas na agricultura

Máquinas inteligentes mudam a lógica da pulverização, reduzem impactos ambientais e transformam a produção agrícola.

Durante muito tempo, pulverizar defensivos significou tratar a lavoura inteira como se enfrentasse o mesmo problema. Com o avanço da tecnologia no campo, essa lógica começa a mudar. Máquinas agrícolas cada vez mais inteligentes já são capazes de identificar, em tempo real, onde há erva daninha e aplicar herbicida apenas nesses pontos, reduzindo drasticamente o uso de produtos químicos.

Segundo o presidente do grupo Áster/John Deere, Luiz Piccinin, a tecnologia embarcada nas máquinas agrícolas transformou completamente a forma de produzir no campo. “Nos últimos anos, as indústrias deixaram de construir ferro e passaram a produzir tecnologia. Hoje, as máquinas são muito tecnológicas e são fábricas de dados”, afirma.

Tecnologia no campo

Pulverização inteligente reduz uso de herbicidas e transforma a gestão da lavoura

Máquinas e drones identificam a erva daninha em tempo real e aplicam o produto apenas onde há necessidade — com economia, menor impacto ambiental e decisões cada vez mais baseadas em dados.

Drone realizando pulverização em área agrícola Aplicação mais precisa no campo Drone pulverizando lavoura ao entardecer Menos produto químico, mais eficiência
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Economia estimada de 80% a 90%
Pulverizadores inteligentes aplicam herbicida apenas onde detectam erva daninha.
📶
88 torres 3G/4G em 4 milhões de hectares
Conectividade permite monitoramento remoto e reduz tempo de máquina parada.
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700 mil famílias atendidas
Estrutura de sinal e suporte remoto amplia acesso à tecnologia no campo.
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1 operador para 10 a 15 máquinas (projeção)
Tendência é de máquinas autônomas conectadas entre si nos próximos anos.
Por que isso importa?
Ao tratar apenas os pontos com infestação, a pulverização deixa de ser “no escuro” e vira uma operação guiada por dados. Resultado: menos herbicidas, menor risco de contaminação do solo e da água e mais eficiência na janela de plantio e colheita.
Imagens: divulgação | Arte: Primeira Página

Um dos exemplos mais claros dessa transformação é o pulverizador inteligente, capaz de identificar a presença de plantas invasoras e aplicar o defensivo somente onde há necessidade. “Com isso, você vai ter uma economia gigantesca de defensivos, 80%, 90% de economia. Tem redução de impacto ambiental porque você vai usar muito menos herbicidas nessas lavouras, com melhoria na produtividade”, explica Piccinin.

A tecnologia, além de reduzir custos para o produtor, tem impacto direto na sustentabilidade da produção agrícola. Menos herbicidas significam menor risco de contaminação do solo e da água, além de uma lavoura mais equilibrada do ponto de vista ambiental. Para Piccinin, esse tipo de inovação ajuda a desconstruir a ideia de que produtividade e preservação são opostas.

Outro avanço citado pelo empresário é o uso de máquinas autônomas, que já conseguem realizar manobras sozinhas, sem a necessidade constante de um operador. Apesar disso, ele ressalta que a tecnologia não elimina a mão de obra no campo, mas transforma o perfil do trabalhador rural. “Não acho que a mão de obra será substituída pelas máquinas. O que vai acontecer é uma mudança no perfil. Vai exigir mais estudo, mais conhecimento em dados e conectividade”, afirma.

Esse novo cenário exige profissionais mais capacitados e, consequentemente, melhor remunerados. “Mais capacitado será, também, melhor remunerado”, diz Piccinin. Para ele, a agricultura brasileira vive um momento de transição, em que a tomada de decisão deixa de ser baseada apenas na experiência empírica e passa a se apoiar fortemente em dados gerados pelas próprias máquinas.

Agricultura conectada 📶 Sem internet, a tecnologia para

Conectividade no campo: a infraestrutura por trás das máquinas inteligentes

Rede de sinal e suporte remoto mantêm máquinas online, reduzem tempo parado e aceleram a tomada de decisão na lavoura.

🗼
88 torres 3G/4G
Estrutura de sinal para manter máquinas conectadas e viabilizar tecnologia em tempo real.
Rede móvel: 3G e 4G
🌾
4 milhões de hectares
Área aproximada coberta pelo investimento em conectividade para operações agrícolas.
Escala: cobertura territorial ampla
👨‍👩‍👧‍👦
700 mil famílias
População atendida indiretamente pela infraestrutura de sinal e suporte conectado.
Impacto: conectividade chegando ao interior
🛠️
12 pessoas no Centro de Soluções Conectadas
Equipe acompanha máquinas online e aciona agrônomos/engenheiros ao primeiro sinal de falha.
Monitoramento: em tempo real (online)
☎️
80% dos problemas são resolvidos por telefone
Quando surge um código de erro, agrônomos ou engenheiros orientam o operador à distância — reduzindo deslocamentos e tempo de máquina parada.
💡 Resultado direto: mais disponibilidade das máquinas nas janelas de plantio e colheita
Em resumo: sinal + monitoramento online = menos tempo parado Arte: Primeira Página

A conectividade no campo é apontada como peça-chave nesse processo. Sem internet, boa parte dessas tecnologias simplesmente não funciona. Para garantir esse suporte, a concessionária investe na instalação de 88 torres de sinal 3G e 4G em uma área de cerca de 4 milhões de hectares, atendendo aproximadamente 700 mil famílias.

“Hoje, temos um Centro de Soluções Conectadas com 12 pessoas acompanhando o funcionamento das máquinas online. Quando surge um código de erro, um agrônomo ou engenheiro entra em contato com o operador e, em 80% dos casos, o problema é resolvido por telefone”, relata.

Esse acompanhamento remoto reduz o tempo de máquina parada e evita deslocamentos longos até a fazenda, o que é essencial em um estado como Mato Grosso, onde as distâncias são grandes e as janelas de plantio e colheita estão cada vez mais curtas.

Piccinin também destaca a importância da pesquisa adaptada à realidade brasileira. Ele cita a construção de um centro de pesquisa da John Deere em Indaiatuba (SP), voltado ao desenvolvimento de máquinas adequadas ao clima tropical. “Antes, as máquinas eram criadas nos Estados Unidos e vinham para cá. Lá, com clima temperado, a operação é totalmente diferente. Aqui, a máquina trabalha 20, 22 horas por dia”, explica.

De acordo com o empresário, cerca de 80% dos produtores de Mato Grosso já utilizam algum tipo de tecnologia para facilitar a gestão da fazenda, reduzir custos e aumentar a produtividade. Para ele, o futuro do campo passa, necessariamente, pela inovação. “Em dez anos, acredito que teremos máquinas autônomas ligadas entre si, com apenas um operador controlando dez ou quinze delas”, projeta.

🔬 O que diz a ciência sobre a pulverização inteligente

Estudo publicado em 2023 na revista científica Smart Agricultural Technology, da editora Elsevier, aponta que a pulverização de precisão é hoje uma das estratégias mais eficazes para reduzir o uso excessivo de herbicidas na agricultura. O artigo, assinado por pesquisadores da University of Florida, analisou 116 estudos científicos sobre manejo de plantas daninhas e tecnologias agrícolas desenvolvidas ao longo dos últimos 25 anos.

Prato de comida: segurança alimentar e saúde pública
Saúde pública & alimentos

Pulverização de precisão pode reduzir resíduos químicos no alimento e proteger mananciais

Tecnologias que diminuem aplicações desnecessárias de herbicidas ajudam a manter resíduos dentro de padrões seguros e reduzem a pressão sobre solos, rios e nascentes.

🧪
O que é o PARA (Anvisa)?
Programa que monitora regularmente resíduos de agrotóxicos em alimentos consumidos no Brasil, avaliando se os níveis estão dentro dos padrões de segurança.
O que os dados indicam
A maior parte das amostras analisadas no país apresenta resíduos abaixo do limite máximo permitido, cenário associado à melhoria no manejo e ao uso mais racional de defensivos.
🎯
Por que a pulverização de precisão importa?
Ao reduzir aplicações desnecessárias, diminui a chance de resíduos excedentes nos alimentos e reduz a contaminação ambiental — com efeito direto sobre solos, rios e mananciais que abastecem cidades.
🥗 Segurança alimentar
Menos aplicação = menor risco de resíduos acima do recomendado nos alimentos.
💧 Água e mananciais
Redução de químicos diminui pressão sobre cursos d’água e áreas de abastecimento.
🌱 Solo e equilíbrio ambiental
Uso mais racional de defensivos reduz risco de contaminação e ajuda a manter a lavoura mais equilibrada.
Contexto: monitoramento do PARA (Anvisa) e avanço da pulverização de precisão Imagem: divulgação | Arte: Primeira Página

Um dos pontos mais contundentes levantados por pesquisas recentes não está apenas no volume de herbicidas aplicado, mas no custo invisível do modelo tradicional de controle de plantas daninhas. Estudo publicado em 2025 na revista científica Agronomy aponta que as ervas daninhas seguem como o principal fator biológico de perda agrícola no mundo, respondendo por uma redução média de 10% da produção global de alimentos, o equivalente a cerca de 200 milhões de toneladas por ano .

O trabalho chama atenção para um paradoxo do campo moderno: enquanto a tecnologia agrícola avança rapidamente, o controle de plantas daninhas ainda depende, em grande parte, de estratégias que ampliam o uso de químicos sem resolver o problema estrutural. Segundo os pesquisadores, a resistência a herbicidas já foi identificada em 267 espécies de plantas daninhas, um número que cresce à medida que o manejo se mantém baseado na repetição de aplicações em larga escala .

É nesse ponto que a ciência aponta uma inflexão. Ao invés de reagir ao problema com mais produto, sistemas inteligentes de detecção e controle permitem antecipar decisões. De acordo com o estudo, tecnologias que combinam visão computacional, sensores e algoritmos avançados conseguem identificar plantas daninhas com mais de 90% de precisão, permitindo intervenções pontuais. Essa mudança de lógica, do excesso para a precisão, já mostra efeitos práticos, com redução entre 30% e 70% no uso de herbicidas e aumento significativo na eficiência do manejo, sem comprometer a produtividade das lavouras.

O estudo também destaca que pulverizadores inteligentes baseados em sensores, visão computacional e inteligência artificial “are key to improving crop productivity while working towards a sustainable future in agriculture”. De acordo com os pesquisadores, essa abordagem permite manter a eficiência no controle de plantas daninhas ao mesmo tempo em que diminui o volume total de herbicidas aplicados, reduz riscos de contaminação do solo e da água e contribui para uma produção agrícola mais sustentável.

🌱 Redução de herbicidas também impacta a cidade e a saúde pública

A adoção de tecnologias que reduzem a aplicação de herbicidas no campo dialoga diretamente com a segurança alimentar e a saúde pública. No Brasil, o Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA), coordenado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, monitora regularmente a presença de resíduos químicos nos alimentos consumidos pela população e aponta que práticas agrícolas mais precisas são fundamentais para manter os níveis dentro dos padrões considerados seguros.

Dados do próprio programa indicam que a maior parte das amostras analisadas no país apresenta resíduos abaixo do limite máximo permitido, resultado associado, entre outros fatores, à melhoria nas técnicas de manejo e ao uso mais racional de defensivos. Tecnologias de pulverização de precisão contribuem para esse cenário ao reduzir aplicações desnecessárias, diminuindo a chance de resíduos excedentes nos alimentos e de contaminação ambiental.

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