Tecnologia faz cultivo de mandioca migrar da Baixada Cuiabana para o norte de MT

Clenio de Souza Casarim herdou o plantio de mandioca dos pais e hoje sustenta a família com seus cinco hectares de mandiocultura em Várzea Grande. Porém, atualmente, o produtor rural é um dos poucos que ainda trabalham com a cultura na Baixada Cuiabana. A produção de mandioca tem migrado para o norte de Mato Grosso, graças ao interesse, ao investimento e à tecnologia de médios e grandes produtores vindos de outros Estados.

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Produtor de Várzea Grande aprendeu a ser agricultor com os pais e hoje planta cinco hectares de mandioca – Foto: Clenio Casarim

“A produção de mandioca pelos pequenos produtores diminuiu, mas no Estado, ela aumentou porque têm produtores que investem em tecnologia, maquinários. Já vi até colheitadeira de mandioca. O pequeno produtor não consegue competir com isso, por isso conheço muitos que gradearam a terra e migraram para outras culturas”, explica.

A falta de competitividade seria causada por outro entrave: a dificuldade de conseguir crédito como pequeno produtor para investir em tecnologia. De acordo com a engenheira agrônoma e pesquisadora da Empresa Mato-grossense de Pesquisa, Assistência e Extensão Rural (Empaer), Dolorice Moreti, para ter produção durante todo o ano é preciso ter sistemas de irrigação eficientes. “Fora do período de chuva tem que ter irrigação e pra isso, precisa de acesso a crédito. Temos potencial grande, mas não tem incentivo e os pequenos produtores plantam para sobreviver”, avalia.

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Clenio trabalha na lavoura junto com a família e juntos pretendem construir a própria farinheira – Foto: Arquivo pessoal

Por isso, a estratégia de Clenio para se adaptar à nova realidade do mercado é fabricar a própria farinheira. “É uma máquina cara para comprar, mas tem uma mecânica simples, então temos pesquisado como construí-la”.

Segundo o agricultor, hoje a maior parte da farinha consumida em Mato Grosso vem de outros Estados, por isso, produzir a própria farinha pode ser vantajoso e competitivo. “Com os cuidados adequados, podemos guardar uma farinha por cerca de dois anos, sem prejuízo para a qualidade do alimento. Assim podemos ter outra opção para a mandioca, que é uma cultura cíclica, e aproveitar a demanda”, avalia.

Dados do cultivo da mandioca em MT

O último levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aponta que Mato Grosso registrou uma área plantada de mandioca de 14,4 mil hectares em 2024. Atualmente, o município que lidera a lista com maior área plantada no Estado é Colniza (1.057 km de Cuiabá), com 800 hectares, seguido por Matupá e Peixoto de Azevedo com 600 hectares. Santo Antônio do Leverger é o município da Baixada Cuiabana com maior quantidade de hectares, 450, mas ainda assim só ocupa a 8ª colocação no ranking.

Segundo a pesquisadora da Empaer, Dolorice Moreti, mesmo com a migração para o norte, a mandiocultura tem perdido espaço no estado.

“Em 2010, Mato Grosso tinha cerca de 38 mil hectares de área plantada. Em novembro de 2025, são 13 mil hectares. Uma redução de 65% e uma área que hoje equivale a 1% da produção nacional”, explica.

Mandioca (Foto: Divulgação)
Colniza é município maior produtor de mandioca de MT, cultura tem migrado para norte do Estado – Foto: Divulgação

Desenvolvimento no Norte

Em contrapartida, há 42 anos em Nova Mutum e com 18 anos dedicados à cultura da mandioca, o engenheiro agrônomo de formação e produtor rural, Gervásio Marco Becker— afirma que hoje obtém rendimento três vezes maior como produtor de mandioca do que quando atuava como agrônomo. “O mercado exige garantia de qualidade o ano todo e constância no fornecimento”, afirma.

Para a realidade de Gervásio, hoje a mandioca de mesa apresenta maior lucratividade do que se dedicar à farinha. Embora já tenha considerado investir na produção de farinha, o produtor acredita que o caminho esteja na agregação de valor. “Não conheço nenhuma grande fábrica de farinha em Mato Grosso. Hoje vem muito produto do Acre e do Pará. Se houvesse mais dedicação ao desenvolvimento de tecnologia, daria para criar mercado aqui”, avalia.

Ele cultiva cerca de 15 hectares e complementa a produção comprando de outros produtores rurais que ajudou a estruturar. “Forneci rama, dei assistência técnica e fomentei esses produtores. Temos uma parceria. Eles produzem e me fornecem”, explica.

Residente em uma cidade com muita oferta de mão de obra em indústrias e frigoríficos, o produtor afirma que há mais dificuldade em encontrar quem queira trabalhar em uma lavoura, mas garante que adotar uma boa gestão de pessoas é um diferencial. “Funcionário tem que ser tratado como gente. Tenho funcionários jovens e mais velhos, alguns se aposentam trabalhando comigo. É preciso oferecer benefícios, incentivo e ter respeito por todos”, relata.

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