Ameaça no Cerrado: estudo desvenda sarna que coloca o lobo-guará em risco

Casos registrados em três estados indicam surto de sarna sarcóptica e acendem alerta para a conservação do lobo-guará

Um dos maiores símbolos do Cerrado brasileiro, o lobo-guará enfrenta uma ameaça silenciosa que intriga a ciência: a sarna sarcóptica. A espécie está entre uma das mais suscetíveis à doença, que provoca queda intensa de pelos e graves lesões na pele, comprometendo significativamente a qualidade de vida desses “gigantes”.

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Lobo-guará com sarna sarcóptica. (Foto: Rogério Cunha de Paula)

Na linha de frente das pesquisas sobre a enfermidade e a preservação da espécie estão estudiosos do Instituto Pró-Carnívoros, da FMVZ-USP (Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo) e do CENAP/ICMBio (Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade).

Um dos estudos mais recentes, publicado em 2025, assinado pelos pesquisadores Flávia Fiori, Rogério Cunha de Paula, Ricardo Luiz Pires Boulhosa e Ricardo Augusto Dias, traça um panorama preocupante da doença a partir da análise do estado clínico de 20 lobos-guarás capturados com sinais de sarna sarcóptica na região Sudeste do Brasil.

O que é a sarna sarcóptica

Altamente contagiosa, a sarna sarcóptica é causada por um ácaro microscópico que escava “túneis” na pele do hospedeiro. A doença afeta mais de 100 espécies animais em todo o mundo e os carnídeos, grupo ao qual o lobo-guará pertence, figuram como a segunda classe mais impactada.

Entre os principais sintomas estão a alopecia (queda de pelos), coceira intensa, vermelhidão, seborreia e a formação de crostas, que alteram drasticamente o aspecto da pele. A enfermidade costuma se espalhar a partir das regiões de pelagem mais curta, como cabeça, focinho, orelhas e extremidades, avançando posteriormente para áreas de pelos mais densos.

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Flagrante de lobo-guará em fazendo na zona rural de Camapuã. (Foto: Arquivo Pessoal)

A doença muda radicalmente o aspecto do animal que chama atenção pela coloração dos pelos e o porte esguio. O lobo-guará mede entre 95 cm e 115 cm de comprimento, tem cerca de um metro de altura, cauda com tamanho entre 38 cm e 50 cm e peso entre 20 kg e 30 kg.

Um flagrante registrado em 2021, em uma fazenda na zona rural de Arceburgo (MG), ilustra um estágio avançado da doença, revelando um lobo-guará com aparência severamente comprometida.

Assista abaixo:

Surto preocupa pesquisadores

Para o estudo, os 20 lobos-guarás foram avaliados nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, regiões onde a doença apresentou intensificação nos últimos 15 anos. Os animais foram capturados com armadilhas do tipo caixa, sedados e submetidos a exames clínicos completos.

Oito deles precisaram ser encaminhados para tratamento e reabilitação em cativeiro, enquanto os outros 12 receberam tratamento diretamente na natureza. Os resultados acendem um alerta:

• 50% dos animais apresentavam mais de 75% do corpo afetado;
• 25% tinham lesões consideradas graves.

Os dados indicam a ocorrência de um possível surto da doença no Sudeste do país.

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Ilustração: CENAP/ICMBio

Relação com a ação humana

Apesar de a sarna sarcóptica ter tratamento, sua origem em lobos-guarás ainda é um mistério. Os pesquisadores, no entanto, levantam a hipótese de que a doença esteja associada ao avanço da ocupação humana sobre o habitat natural da espécie. As áreas de maior incidência coincidem com territórios profundamente modificados pela ação humana.

Nesse contexto, existe a possibilidade de contaminação a partir do contato com animais domésticos, como cães e gatos, conforme explica o médico-veterinário Ricardo Augusto Dias, um dos autores do estudo e coordenador do Bionabio (Biorrepositório Nacional da Biodiversidade).

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Lobo-guará com sarna sarcóptica. (Foto: Rogério Cunha de Paula/ReproduçãoMongabay)

“Não sabemos exatamente como ocorre a transmissão da sarna para os lobos-guarás, mas não podemos descartar que a fonte dos ácaros sejam animais domésticos ou espécies invasoras. A área de ocorrência conhecida é primordialmente antropizada, mas, como não conhecemos a real extensão do problema, também não se pode descartar casos em áreas preservadas.”

Ricardo Augusto Dias.

O pesquisador também alerta para o risco de disseminação da doença em regiões onde o Cerrado predomina, como o Centro-Oeste do Brasil. A ausência de um plano específico de monitoramento dificulta a mensuração real da gravidade do cenário.

“É difícil saber com exatidão a real extensão do surto, pois não existe um sistema de vigilância específico para a sarna sarcóptica em animais silvestres. Dependemos de relatos de colegas e de artigos científicos. Ainda assim, é possível afirmar que a doença pode se espalhar para outros estados, ou até por toda a área de ocorrência da espécie, caso isso já não esteja acontecendo.”

Ricardo Augusto Dias.

Ricardo defende que é urgente a criação de sistemas de vigilância e redes colaborativas, como o Bionabio, para aumentar a disponibilidade de informações precisas sobre doenças que ameacem a biodiversidade ou a saúde pública.

Desafios no diagnóstico

A partir dos casos analisados, o estudo avaliou o desempenho das ferramentas diagnósticas disponíveis. Os pesquisadores constataram que a sarna sarcóptica apresenta baixa sensibilidade aos testes convencionais, como raspagem de pele e análise microscópica, o que pode resultar em falsos negativos.

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Ilustração: CENAP/ICMBio

Diante disso, as pesquisas futuras devem combinar um desses métodos com exames sorológicos, ampliando a capacidade de detecção do ácaro causador da doença, concluíram os pesquisadores.

O estudo intitulado “Avaliação clínica da sarna sarcóptica em lobos-guará”, assinado pelos pesquisadores, integra o Programa Nacional de Conservação do Lobo-Guará, conduzido pelo CENAP/ICMBio, e foi publicado na plataforma internacional Springer Nature Link, uma das principais bases online de pesquisa científica e acadêmica do mundo.

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