Armadilhas registram onça dando aula de território à filhote
Registro raro mostra fêmea levando a cria a um scratch post, ponto-chave da comunicação territorial da espécie.
Armadilhas fotográficas instaladas no Pantanal mato-grossense capturaram um momento raro e altamente revelador da vida das onças-pintadas. As imagens mostram a fêmea conhecida como Patrícia ao lado de sua filhote, Makala, nascida em 2024, em um ponto de marcação territorial chamado scratch post.
Mais do que uma cena de convivência entre mãe e cria, o flagrante indica uma etapa fundamental do aprendizado da espécie, quando a filhote começa a ser apresentada aos códigos de comunicação que regem a vida adulta das onças.
O registro foi divulgado pelo Wild Cat Imaging Project, em colaboração com o Jaguar ID Project, como parte de um trabalho contínuo de monitoramento ao longo das áreas ribeirinhas do Pantanal, onde esses grandes felinos caçam, se deslocam e criam seus filhotes. Para pesquisadores, cenas como essa são raríssimas e extremamente valiosas, pois ajudam a compreender como o conhecimento é transmitido entre gerações.
O que é um scratch post
O scratch post é uma árvore ou tronco usado pelas onças para arranhar com as garras e esfregar o corpo. Nesse processo, o animal deixa marcas visuais e químicas, por meio de odores liberados por glândulas, que funcionam como um verdadeiro sistema de comunicação. Ali, as onças sinalizam presença, delimitam território e evitam confrontos diretos com outros indivíduos.
Ao levar a filhote até esse local, a mãe não está apenas descansando ou se alimentando. Ela está, na prática, introduzindo Makala a uma das “linguagens” mais importantes da espécie. É nesse tipo de ponto que a jovem onça começa a reconhecer cheiros, entender sinais deixados por outros indivíduos e aprender como se posicionar em um ambiente competitivo.

Aprender a ser onça começa cedo
As onças-pintadas são animais solitários, e o vínculo entre mãe e filhote dura, em média, até dois anos. Durante esse período, a cria depende totalmente da fêmea para sobreviver. É a mãe quem ensina onde andar, quais áreas evitar, como reagir a ameaças e, principalmente, como caçar. A comunicação territorial faz parte desse pacote de aprendizados essenciais.
No Pantanal, esse processo é ainda mais complexo. O bioma passa por ciclos intensos de cheia e seca, o que muda completamente a paisagem ao longo do ano. As onças pantaneiras aprenderam a nadar longas distâncias, a caçar em áreas alagadas e a usar corredores naturais formados por rios e vazantes. Ensinar tudo isso a um filhote exige tempo, paciência e um ambiente relativamente estável.
Câmeras que revelam o invisível
As imagens de Patrícia e Makala foram captadas por câmeras automáticas, instaladas em locais estratégicos usados com frequência pelas onças. Esse tipo de monitoramento não invasivo se tornou uma das principais ferramentas da conservação moderna. Com ele, pesquisadores conseguem identificar indivíduos, acompanhar reprodução, mapear territórios e entender padrões de comportamento sem interferir na rotina dos animais.
No caso desse registro específico, o material ajuda a confirmar que aquela área do Pantanal segue funcionando como um ambiente seguro para a reprodução da espécie. Cada filhote observado representa um sinal positivo em meio a um cenário de crescentes pressões ambientais.
Beleza que também é alerta
Apesar da delicadeza da cena, o contexto não é isento de preocupação. O Pantanal tem enfrentado nos últimos anos incêndios de grandes proporções, eventos climáticos extremos e avanço de atividades humanas. Esses fatores reduzem áreas seguras para caça, deslocamento e criação de filhotes.
Por isso, momentos como o registrado pelas armadilhas fotográficas vão além do encantamento. Eles ajudam a transformar dados científicos em histórias compreensíveis para o público, mostrando que a sobrevivência da onça-pintada depende não apenas do indivíduo, mas da integridade de todo o ecossistema.
Enquanto Patrícia conduz Makala até o scratch post, ocorre uma aula silenciosa, invisível para quem não conhece os códigos da floresta. Ali, a filhote começa a aprender como se comunicar sem brigar, como marcar presença sem se expor e como ocupar um território que, um dia, será só dela.
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