Estudo explica como cercas com choque salvam onças no Pantanal
Estruturas ativadas apenas à noite evitam prejuízos, reduzem retaliação e favorecem a coexistência com a onça-pintada no Pantanal.
O uso de barreiras eletrificadas instaladas de forma estratégica no Pantanal tem reduzido ataques de onças ao gado e, como consequência direta, diminuído a perseguição e a morte desses grandes felinos. A técnica faz parte do estudo ‘Sessenta Graus de Soluções: Técnicas de Campo para a Coexistência entre Humanos e Onças-pintadas’, que reúne experiências práticas de manejo testadas em propriedades rurais da região.

A metodologia foi detalhada pelo médico veterinário e pesquisador Paul Raad, coordenador do Instituto Impacto, durante entrevista ao programa uruguaio Desayunos Informales. Segundo ele, a proposta não é afastar nem ferir a fauna silvestre, mas impedir que o gado se torne uma presa fácil para a onça-pintada.

As cercas são instaladas em áreas pequenas e bem delimitadas, conhecidas como ‘dormitórios noturnos’. Durante o dia, o gado permanece solto na propriedade, mas à noite (período em que as onças costumam caçar) vacas e bezerros são recolhidos para esses espaços protegidos.
“As cercas ficam ativadas só à noite, no horário de caça da onça-pintada. Durante o dia, os animais ficam soltos”, explicou o pesquisador.
Choque sem risco e aprendizado dos felinos
As estruturas funcionam com cerca de seis mil volts, mas com amperagem extremamente baixa e pulsativa, o que provoca apenas um choque momentâneo, sem causar ferimentos. O objetivo é criar um estímulo negativo suficiente para afastar o predador, sem oferecer risco à fauna.
Registros feitos por câmeras instaladas nas propriedades mostram que o contato com a cerca elétrica altera o comportamento das onças. “Depois que uma onça-pintada leva o choque, ela aprende. Colocamos câmeras e vimos que outras se aproximam, testam com a pata e não encostam mais. Elas têm capacidade de aprendizado”, afirmou Paul Raad.
Em um dos registros analisados no estudo, quatro onças-pintadas se aproximaram da estrutura após a primeira experiência, mas nenhuma voltou a tocar a cerca, demonstrando aprendizado por observação, um dos pontos centrais do trabalho científico.
Cercas pontuais evitam fragmentação da fauna
O estudo destaca que a técnica não consiste em cercar grandes áreas. Em uma das propriedades-modelo acompanhadas pelo Instituto Impacto, com cerca de 7 mil hectares, apenas duas áreas de um hectare receberam cercas eletrificadas, usadas exclusivamente durante a noite.

A estratégia evita a fragmentação do habitat e permite que a fauna silvestre continue circulando livremente durante o dia, reduzindo impactos ambientais e mantendo corredores naturais de deslocamento.
Redução de prejuízos e da retaliação
Os resultados têm sido expressivos. Em propriedades onde o modelo foi adotado, produtores relataram redução de até 83% nas perdas de gado. Segundo o pesquisador, o custo médio de instalação das cercas gira em torno de US$ 2 mil.
Durante a entrevista, Paul Raad citou casos em que produtores acumulavam prejuízos anuais superiores a US$ 18 mil antes da adoção da medida, valor muito acima do investimento necessário para a instalação das cercas.
Com a redução das perdas financeiras, também diminui a retaliação contra os felinos — prática ainda comum em algumas regiões do Pantanal, apesar de ilegal. O bioma abriga uma das maiores densidades de onças-pintadas do mundo, mas também registra altos índices de abate desses animais justamente por causa do conflito com a pecuária.
Convivência possível no Pantanal
De acordo com o pesquisador, preservar a onça-pintada é essencial para o equilíbrio do ecossistema. Como predador de topo da cadeia alimentar, o animal controla populações de outras espécies, como capivaras, jacarés e cervos. A retirada desse predador pode causar desequilíbrios ambientais severos.
Além da instalação das cercas, o trabalho do Instituto Impacto inclui educação ambiental, orientação sobre manejo do gado e ações em comunidades ribeirinhas, como o descarte adequado de restos de pesca e o manejo de animais domésticos, que também podem atrair onças.
“A coexistência é possível, mas exige mudança de manejo e de mentalidade. Quando o produtor entende que proteger o gado também é proteger a onça-pintada, o conflito diminui”, destacou Paul Raad.
A experiência sistematizada no estudo mostra que soluções simples, baseadas em ciência e diálogo com quem vive no campo, podem transformar um conflito histórico em um modelo de convivência entre produção rural e conservação ambiental no Pantanal.
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