Boca D’Água: primata do Pantanal pode ser espécie ainda desconhecida pela ciência
Boca d’Água, zogue-zogue ou guigó; pesquisadores laçam projeto para estudar animal
Boca d’Água, zogue-zogue ou guigó. Conhecido há gerações por moradores do Pantanal, um pequeno primata que vive na região pode representar uma espécie ainda não descrita pela ciência. Agora, pesquisadores da ONG Ecoa lançaram o Projeto Boca D’Água, iniciativa que busca desvendar os mistérios do animal encontrado em uma área de mais de 76 mil hectares no bioma sul-mato-grossense.

Popularmente chamado de Boca d’Água no Pantanal, o primata recebe outros nomes em diferentes regiões do país, como zogue-zogue, na Amazônia, e guigó, na Mata Atlântica. Cientificamente, ele é identificado provisoriamente como Plecturocebus cf. pallescens.
A sigla “cf.”, utilizada pelos pesquisadores, indica que o animal se assemelha à espécie conhecida como macaco-titi-do-Chaco (Plecturocebus pallescens), mas ainda existem dúvidas sobre sua classificação científica. Na prática, isso significa que ele pode ser uma espécie inédita.
O projeto pretende responder perguntas fundamentais sobre o comportamento e a distribuição do primata: onde exatamente ele ocorre, como utiliza o habitat durante as diferentes estações do ano, do que se alimenta e de que forma interage com a paisagem pantaneira.
A iniciativa reunirá levantamentos de campo, modelagem de distribuição geográfica e o conhecimento tradicional das comunidades locais.
“Há perguntas que o GPS não responde, mas a memória de um morador antigo, sim”, destacam pesquisadores envolvidos no projeto.

O Projeto Boca D’Água será desenvolvido na chamada Paisagem Modelo Pantanal, território construído ao longo de anos por comunidades locais, pesquisadores e instituições parceiras que defendem a convivência entre conservação ambiental e atividades humanas.
Além dos estudos científicos, o projeto aposta no conhecimento acumulado por moradores da região para compreender melhor o comportamento do animal e sua relação com o Pantanal.
Possível nova espécie

O Pantanal abriga diversas espécies de primatas, entre elas o mico-estrela (Callithrix penicillata), o sagui-de-rabo-preto (Mico melanurus), o macaco-da-noite (Aotus azarae) e o bugio-preto (Alouatta caraya).
Até então, o Boca d’Água era descrito cientificamente como o macaco-titi-do-Chaco (Plecturocebus pallescens), espécie registrada no Chaco Paraguaio e na Floresta Chiquitana da Bolívia.
No Brasil, estudos indicavam a presença em uma faixa do oeste do Pantanal, entre Corumbá e a Serra do Amolar.
No entanto, um artigo científico recém-publicado trouxe informações inéditas que reforçam as diferenças entre o animal encontrado no Pantanal e a espécie originalmente descrita.
A principal divergência está na coloração da pelagem. Enquanto o macaco-titi-do-Chaco é descrito como grisalho claro e uniforme, com cauda cinzenta sem contraste, o Boca d’Água apresenta tons castanho-avermelhados ou amarelados na cabeça, além de braços e pernas em tons bicolores de cinza claro.
Fotografias registradas por pesquisadores da Embrapa Pantanal e pela bióloga Carolina Martins Garcia, mestre em Ecologia e Conservação e autora do estudo, reforçam as diferenças visuais entre os indivíduos encontrados no Pantanal e aqueles registrados no Paraguai e na Bolívia.
Segundo o estudo, o primata pantaneiro apresenta características intermediárias entre o macaco-titi-do-Chaco e o titi-boliviano-cinza, espécie marcada pela cauda contrastante e tufos brancos nas orelhas.
Essa combinação de características é justamente o que levanta a hipótese de que o Boca d’Água seja uma nova espécie ainda desconhecida pela ciência.
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