'Engarrafamento de barcos': biólogos defendem observação de onças após polêmica no Pantanal
Enquanto parte do público destacou a importância econômica e ambiental da atividade, outras pessoas avaliaram que o animal parecia cercado e sem uma rota segura para sair.
Um vídeo mostrando dezenas de embarcações reunidas para observar uma onça-pintada em Porto Jofre, no Pantanal mato-grossense, provocou uma discussão sobre os limites do turismo de vida selvagem. Enquanto parte do público destacou a importância econômica e ambiental da atividade, outras pessoas avaliaram que o animal parecia cercado e sem uma rota segura para sair.
A onça que aparece nas imagens é Medrosa, também chamada de Âmbar por causa da cor dos olhos. A fêmea nasceu em 2016 e é acompanhada desde filhote por pesquisadores do Projeto Jaguar ID.
Após a repercussão, os biólogos Fábio Paschoal e Abigail Martin, fundadora do Jaguar ID, defenderam que a quantidade de barcos registrada no vídeo, isoladamente, não é suficiente para concluir que Medrosa estivesse acuada. Eles afirmam que o comportamento da fêmea é monitorado há anos e que ela está habituada à presença das embarcações.
Ao mesmo tempo, o próprio guia de observação do Jaguar ID alerta que o turismo só contribui com a conservação quando são respeitados critérios como distância, ruído, velocidade das embarcações e comportamento apresentado pelo animal.
Quem é a onça Medrosa?
Segundo o Guia de Campo de Onças-Pintadas de 2026, produzido pelo Projeto Jaguar ID, Medrosa foi observada em todas as temporadas entre 2016 e 2026. Ela é filha da onça Patricia e irmã de Jaju, também conhecida na região de Porto Jofre.
A fêmea ficou conhecida por caçar jacarés a partir de árvores localizadas sobre a água. O guia registra ainda diferentes filhotes e parceiros identificados durante os dez anos de acompanhamento.
O comportamento descrito no documento coincide com o relato de Fábio Paschoal. Segundo o biólogo, Medrosa possui árvores preferidas nas margens dos rios e costuma permanecer nelas esperando que jacarés passem pela água.
Foi justamente em uma dessas árvores que o vídeo responsável pela polêmica foi registrado.
“Quando ela sobe em uma delas, fica esperando os jacarés passarem por baixo. Quando isso acontece, muita gente fica em volta esperando ela pular”, explicou.
Paschoal afirmou que já acompanhou uma situação semelhante, no mesmo local, em que a onça estava cercada por embarcações e, ainda assim, pulou da árvore para tentar capturar um jacaré.

“Ela poderia entrar no mato e desaparecer”
Para o biólogo, a posição de Medrosa no momento do vídeo não indica que ela estivesse sem saída.
“Ela poderia dar dois passos para trás, entrar no mato e desaparecer da visão de todo mundo. O avistamento acabaria”, afirmou.
Segundo Paschoal, caso a onça tentasse atravessar o rio, os guias que trabalham em Porto Jofre também abririam espaço entre os barcos para que o animal passasse.
O biólogo considera que a repercussão das imagens deixou de considerar o comportamento individual de Medrosa e a experiência acumulada por guias e pesquisadores que acompanham as onças da região.
Ele também defendeu a participação das comunidades locais nas discussões sobre novas regras para o turismo.
“A gente precisa discutir regras de avistamento, mas isso precisa ser feito com a comunidade local, com quem está trabalhando e colocando comida na mesa por meio da conservação”, declarou.
Pesquisadora acompanha Medrosa desde o nascimento
A bióloga Abigail “Abbie” Martin afirmou que o Projeto Jaguar ID estuda a ecologia populacional das onças de Porto Jofre desde 2013, incluindo os efeitos dos incêndios, das secas e do turismo sobre esses animais.
O banco de dados do projeto reúne informações sobre o território ocupado pela onça, alimentação, reprodução, deslocamentos, parceiros e sobrevivência dos filhotes.
“Eu posso contar a vida inteira dela: onde fica o território, o que ela come, com quem acasalou, quantos filhotes teve e quais chegaram à idade adulta”, disse.
Abigail afirmou que os pesquisadores também realizam estudos específicos sobre a resposta das onças ao turismo.

De acordo com a pesquisadora, Medrosa teve quatro ninhadas e cinco dos seis filhotes chegaram à idade adulta. Ela também estaria entre as fêmeas com maior número de ataques de caça bem-sucedidos e registros de acasalamento.
“Você não veria esses resultados em um indivíduo que responde negativamente ao turismo. Veria exatamente o oposto”, afirmou Abigail.
O Projeto Jaguar ID informa que utiliza identificação fotográfica e ciência cidadã para acompanhar as áreas de vida, linhagens familiares, reprodução, interações sociais e deslocamentos das onças-pintadas. A organização afirma possuir um dos maiores bancos de dados de acompanhamento individual de onças selvagens.
Estudo mostra que distância pesa mais que número de barcos
Apesar de defender a importância do turismo, o guia de 2026 do Jaguar ID reconhece que encontros mal conduzidos podem interromper comportamentos naturais essenciais, como a caça.
Um estudo citado pela organização analisou 97 encontros entre onças-pintadas e embarcações no norte do Pantanal. A conclusão apresentada é que a distância entre os barcos e o animal foi o principal fator de perturbação.
Em aproximações inferiores a dez metros, houve maior probabilidade de reações como fuga e abandono da caça. A partir de 30 metros, o impacto comportamental foi considerado mínimo.
O que mais perturba as onças-pintadas?
Estudo analisou 97 encontros entre onças e embarcações no norte do Pantanal.
Durante a caça: as onças ficam mais sensíveis à presença humana.
Durante o repouso: os animais tendem a reagir menos.
Mais barulho: encontros ruidosos provocam mais reações.
Alta velocidade: barcos rápidos causam respostas mais intensas.
Devagar ou à deriva: embarcações lentas reduzem a perturbação.
Número de barcos: tem efeito menor que a distância e o ruído.
Foto: João Marcos Rosa.
Isso significa que uma imagem com muitas embarcações chama a atenção e exige cuidado, mas não permite, sozinha, determinar o nível de estresse da onça. Também não significa que um animal habituado possa ser observado sem limites de distância, velocidade ou barulho.
Guia recomenda menos barcos e distância mínima
As regras do Projeto Jaguar ID orientam que os barcos mantenham pelo menos 25 metros de distância das onças-pintadas. O documento também afirma que menos embarcações significam menos estresse e melhores interações com os animais.
O guia recomenda evitar canais estreitos, especialmente durante a seca. Nesses locais, os barcos podem se acumular nas margens e reduzir o espaço disponível para que a onça se desloque, além de provocar perturbações à vida aquática.
Entre as boas práticas estão reduzir a velocidade, minimizar o barulho do motor, evitar gritos e movimentos bruscos, limitar as embarcações ao redor de uma única onça e dar mais espaço aos animais durante a caça, alimentação ou deslocamento.
O projeto também orienta turistas e guias a observarem sinais de desconforto. Olhar fixamente para o barco, interromper uma atividade, movimentar a cauda, mudar de direção, recuar ou entrar na vegetação podem indicar que a presença humana está interferindo no comportamento.
Em situações mais graves, a onça pode mostrar os dentes, rosnar, vocalizar ou realizar uma falsa investida. A recomendação é aumentar imediatamente a distância.

Turismo gera renda e dados para pesquisas
Fábio Paschoal argumenta que o turismo de observação ajuda a transformar a presença da onça-pintada em fonte de renda para moradores, guias, piloteiros, pousadas e outros trabalhadores da região.
Para ele, essa atividade contribui para aumentar o interesse econômico e social pela manutenção dos animais vivos e do ambiente preservado.
O Guia do Jaguar ID também afirma que o turismo de observação no norte do Pantanal gera renda e promove maior tolerância em relação à presença das onças. Além disso, guias, piloteiros, turistas e operadores auxiliam na produção de dados científicos ao enviar registros dos animais.
Desde 2019, o projeto contabilizou 4.593 registros de ciência cidadã. Ao todo, 493 onças-pintadas diferentes já foram identificadas por meio do padrão único de manchas e rosetas de cada indivíduo.
Polêmica começou após vídeo em Porto Jofre
As imagens que iniciaram o debate foram registradas pelo guia de turismo Redouane Lachgar, de 32 anos, na região de Porto Jofre, em Poconé.
No vídeo, dezenas de embarcações aparecem enfileiradas enquanto turistas fotografam e filmam Medrosa. Na publicação, o guia resumiu a dimensão do avistamento:
“Uma única onça. Dezenas de barcos. Centenas de turistas.”
Redouane também afirmou que a presença das onças possui impacto direto na economia das comunidades pantaneiras.
“A onça-pintada é um dos maiores símbolos do Pantanal e uma das principais razões pelas quais pessoas do mundo inteiro visitam esta região. Proteger a onça é proteger a natureza, fortalecer o turismo e apoiar a economia local”, escreveu.
Após a repercussão, Fábio Paschoal reforçou a necessidade de fiscalização e recomendou que os visitantes contratem operadores e guias cadastrados no Cadastur.
Para os pesquisadores, o caminho não seria interromper a observação, mas aperfeiçoar as regras, fiscalizar a atividade e analisar cada encontro a partir de dados concretos — principalmente distância, barulho, velocidade e resposta apresentada pela onça.
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