Uma das espécies mais raras do mundo, anta-anã é registrada em MT
Registro da anta-anã (Tapirus kabomani) em Mato Grosso revela que a espécie vive em uma área maior do que a ciência imaginava.
Uma descoberta científica recente colocou Mato Grosso no centro do debate sobre a biodiversidade amazônica. Um estudo publicado em setembro de 2025 na revista internacional Mammalia confirmou a ocorrência da anta-anã (Tapirus kabomani), uma das espécies mais raras do mundo, no Parque Estadual do Cristalino, em Alta Floresta, no norte do Estado.

Conhecida como anta-anã ou anta-pretinha, a espécie é considerada a menor entre as antas existentes e foi descrita oficialmente pela ciência apenas em 2013, sendo a primeira nova espécie do gênero Tapirus descoberta desde 1865.
Apesar do reconhecimento recente, sua existência já era mencionada há décadas por populações tradicionais e povos indígenas da Amazônia, que sempre diferenciaram mais de um tipo de anta vivendo na floresta.
Monitoramento de longo prazo foi decisivo
Em Mato Grosso, registros anteriores da anta-anã já vinham sendo documentados durante ações de monitoramento de fauna terrestre no município de Aripuanã (MT), realizadas desde 2014.
Os trabalhos são conduzidos sob responsabilidade técnica do biólogo, zoólogo e perito ambiental Thiago Paiva de Paula, especialista em manejo e conservação da fauna silvestre.

Segundo Thiago Paiva, os dados obtidos ao longo dos anos reforçam que a espécie ocorre de forma discreta e localizada, o que dificulta sua detecção. Em janeiro de 2020 e agosto de 2021, exemplares da anta-anã foram registrados por armadilhas fotográficas (camera traps) instaladas em trilhas da região, equipamentos que permanecem em campo por até seis meses e podem armazenar milhares de imagens.

Os registros em Aripuanã se somam agora à confirmação científica no Parque Estadual do Cristalino, consolidando a presença da espécie no território mato-grossense.
Registro histórico no Cristalino
De acordo com o estudo, o registro mais recente ocorreu em março de 2024, durante campanhas sistemáticas de monitoramento de mamíferos no Cristalino II, uma área de floresta de terra firme, ambiente não alagável que parece ser preferencial para a espécie.

O animal adulto foi observado a poucos metros de uma trilha e permaneceu na área por vários dias, evidenciado por pegadas recentes. A identificação foi confirmada a partir de características morfológicas, como porte reduzido, pelagem escura, crânio compacto e juba menos evidente, o que diferencia a anta-anã da anta-brasileira (Tapirus terrestris).
Ampliação expressiva da área conhecida
Até então, a distribuição confirmada da anta-pretinha se restringia principalmente aos estados do Amazonas, Rondônia e Amapá. O novo registro em Mato Grosso ampliou em cerca de 899 quilômetros o limite conhecido da espécie, representando um aumento de 35% em sua área de ocorrência documentada.

Para os pesquisadores, isso indica que a anta-anã pode estar mais amplamente distribuída no sul da Amazônia do que se acreditava, mas permanece pouco detectada devido ao comportamento solitário, hábitos discretos e à baixa densidade populacional.
Espécie rara sob pressão
Embora ainda não tenha sido oficialmente avaliada pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), a Tapirus kabomani enfrenta ameaças semelhantes às demais espécies de antas, como desmatamento, fragmentação florestal, caça e atropelamentos.

O alerta é ainda maior porque o Parque Estadual do Cristalino está inserido no chamado Arco do Desmatamento, uma das regiões mais pressionadas pela expansão agropecuária na Amazônia. O estudo destaca que, mesmo em áreas protegidas, espécies raras podem ser impactadas por pressões externas e pela perda de conectividade florestal.
Ciência, tecnologia e saber tradicional
A descoberta reforça a importância da integração entre monitoramento científico, tecnologia e conhecimento tradicional. Relatos de povos indígenas, que há gerações descrevem a existência da anta-anã, foram fundamentais para direcionar pesquisas que só agora confirmam cientificamente a presença da espécie.
Os autores do estudo e especialistas como Thiago Paiva de Paula destacam que a combinação de armadilhas fotográficas, caminhamentos em trilhas, análise de vestígios e, futuramente, DNA ambiental (eDNA) é essencial para revelar espécies consideradas “invisíveis” na floresta.
Um símbolo da biodiversidade ainda desconhecida
Mais do que uma curiosidade científica, a presença da anta-anã em Mato Grosso evidencia que a Amazônia ainda guarda espécies pouco conhecidas, inclusive grandes mamíferos. Cada novo registro amplia o entendimento sobre a fauna brasileira e reforça a urgência de políticas eficazes de conservação.
Para pesquisadores, o caso da anta-pretinha é um lembrete claro: proteger a floresta é também proteger espécies que a ciência ainda está começando a compreender.
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Comentários (2)
Não será um filhote de anta já chegando na fase adulta?
Ela deve ser uma gracinha,👏👏👏👏👏