Estudo inédito mostra jaguatirica cavar toca para caçar filhote de tatu-canastra

Flagrante raro gravado em Mato Grosso do Sul surpreendeu pesquisadores e mudou o entendimento sobre a segurança dos filhotes da espécie

Um novo estudo conduzido por pesquisadores do Instituto de Conservação de Animais Silvestres (ICAS) revelou que os filhotes de tatu-canastra não estão seguros nem na toca, considerada um dos refúgios da espécie.

Armadilhas fotográficas instaladas em uma área de Cerrado, no Mato Grosso do Sul, flagraram uma jaguatirica cavando e arrancando um tatuzinho de 11 dias do refúgio. Veja as imagens:

O estudo foi desenvolvido por pesquisadores do ICAS, dentro das ações do Programa de Conservação do Tatu-Canastra.

O registro foi feito em junho de 2025. As câmeras registraram a fêmea deixando a toca após selar cuidadosamente a entrada com terra. Cerca de uma hora depois, uma jaguatirica apareceu, investigou o local e retornou no dia seguinte. Após cavar durante aproximadamente quatro minutos, o felino entrou na toca e saiu poucos segundos depois, carregando um filhote na boca.

Foi a primeira vez que os pesquisadores registraram uma jaguatirica (Leopardus pardalis) escavando a entrada de uma toca.

Até então, os pesquisadores acreditavam que a troca de tocas, um comportamento natural da espécie nos primeiros meses de vida do filhote, representava o momento de maior vulnerabilidade, já que o filhote precisa acompanhar lentamente a mãe. O novo estudo, no entanto, revelou que nem mesmo o interior da toca oferece a proteção absoluta que se imaginava.

Jaguatirica capturando um tatu. A imagem, feita por uma câmera trap, revela a cena de predação na escuridão, captando os olhos brilhantes do felino que encara a lente.
O registro impressionante mostra uma jaguatirica capturando um tatu. A imagem, feita por uma câmera trap (Foto: ICAS)

Segundo o pesquisador Arnaud Desbiez, presidente do ICAS e um dos autores do estudo, o episódio surpreendeu até mesmo quem estuda a espécie há anos.

“Foi um registro realmente muito surpreendente. Sempre acreditamos que o filhote estivesse muito protegido dentro da toca. Antes de sair para se alimentar, a fêmea fecha completamente a entrada utilizando areia e chega a pressionar a placa óssea da cabeça contra o solo para compactar ainda mais a entrada, tornando o acesso extremamente difícil. Ver uma jaguatirica cavar, entrar na toca e retirar o filhote foi algo que jamais imaginávamos observar”

Arnaud Desbiez

As imagens registraram ainda um comportamento que emocionou a equipe de pesquisadores. Nas noites seguintes, a mãe retornou diversas vezes à toca, entrou, saiu e permaneceu no local por vários dias.

“Somos cientistas, mas também somos humanos. Acompanhamos esses animais durante anos e acabamos criando uma conexão com cada indivíduo. Ver a mãe voltar repetidamente à toca foi muito marcante. Nunca saberemos exatamente o que ela fazia, mas parecia procurar pelo filhote. Mesmo sabendo que a predação faz parte da natureza, foi impossível não sentir tristeza”, disse Arnaud.

O trabalho também descreve um segundo caso de provável predação envolvendo um filhote de apenas 54 dias durante a mudança de toca realizada ao lado da mãe.

O segundo caso aconteceu no Pantanal. O filhote desapareceu durante uma longa travessia entre duas tocas. Após esse deslocamento, apenas os rastros da fêmea continuaram sendo encontrados, e o filhote nunca mais foi registrado pelas câmeras instaladas na região.

Normalmente, os deslocamentos são realizados a cada duas ou três semanas.

A imagem, feita por uma câmera trap, revela tatu cavando na escuridão
A fêmea voltou na toca vários dias em busca do filhote; o comportamento emocionou os pesquisadores (Foto: ICAS)

Baixa densidade populacional

O tatu-canastra possui uma das menores taxas reprodutivas entre os mamíferos sul-americanos. As fêmeas atingem a maturidade sexual apenas entre seis e oito anos de idade e dão à luz um único filhote por gestação.

O filhote depende exclusivamente do leite da mãe durante cerca de seis a oito meses e continua usando as tocas por aproximadamente um ano e meio. Mesmo após a dispersão, permanece vivendo dentro da área de vida da mãe.

No estudo, os pesquisadores destacam que compreender as principais causas de mortalidade dos filhotes é fundamental para entender a dinâmica populacional do tatu-canastra e aprimorar as estratégias de conservação da espécie.

Apesar de o registro impressionar, atualmente os maiores riscos para a espécie são a perda e a fragmentação de habitat, as colisões veiculares em rodovias, a caça predatória e os grandes incêndios florestais.

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