Grito da morte? Conheça a ave por trás do mito da rasga-mortalha

Presença da ave de “carinha de maçã” próxima a uma residência é vista como mau presságio

Rasga-mortalha, coruja-da-igreja, coruja-das-torres ou suindara. Com qualquer um desses nomes, é provável que você já tenha ouvido a antiga lenda segundo a qual o canto dessa coruja anuncia a morte de alguém. No imaginário popular, a presença da ave de “carinha de maçã” (Tyto furcata) próxima a uma residência é vista como mau presságio.

Rasga-mortalha (Foto: Vinícius Radica Correa)
Rasga-mortalha (Foto: Vinícius Radica Correa)

O próprio nome rasga-mortalha reforça essa crença. A expressão faz referência ao pano usado para envolver cadáveres, e a explicação popular é que o canto da suindara lembra o som de um tecido sendo rasgado (ouça no final da matéria).

Apesar de assustador quando ecoa no silêncio da noite, o grito não tem qualquer relação com mortes.

Na prática, o som emitido pela ave é apenas uma forma de comunicação. A suindara vocaliza para se comunicar com o parceiro, defender território ou durante o período reprodutivo, e não para “avisar” tragédias, embora relatos populares insistam no contrário.

Segundo o Instituto Butantan, o mito da rasga-mortalha surgiu da mistura de crenças europeias trazidas durante a colonização do Brasil e ganhou força, sobretudo, nas regiões Nordeste e Norte do país. Nessas áreas, o folclore ajudou a perpetuar a imagem da ave como um presságio negativo.

Na Amazônia, por exemplo, a suindara é frequentemente associada à personagem folclórica Matinta Pereira.

A lenda descreve uma mulher que se transforma em coruja e percorre as noites emitindo um canto estridente para assustar os moradores.

De acordo com a tradição, ao ouvi-la, as pessoas devem oferecer prendas, como café ou tabaco, para evitar consequências negativas. A personagem retornaria na manhã seguinte para cobrar a oferta.

Apesar da má fama, as suindaras existem há quase 30 milhões de anos e fazem parte da família Tytonidae, que reúne cerca de 20 espécies distribuídas pelo mundo.

No Brasil, ocorre a Tyto furcata, espécie encontrada em praticamente todo o continente americano, dos Estados Unidos ao Chile.

Diferentemente de outras corujas, que costumam ter cabeças arredondadas e olhos grandes, a suindara se destaca pelo rosto em formato de coração ou de maçã e pelos olhos relativamente pequenos, característica que a torna facilmente reconhecível.

Rasga-mortalha (Foto: Vinícius Radica Correa)
Rasga-mortalha (Foto: Vinícius Radica Correa)

A espécie também é uma verdadeira especialista em caça. Pequenas “franjas” nas bordas das asas, chamadas de serrilhas, permitem um voo extremamente silencioso, o que ajuda a ave a se aproximar das presas sem ser percebida.

De hábitos noturnos, a suindara prefere áreas abertas ou semiabertas, como campos, bordas de florestas e até ambientes urbanos. Para se abrigar e proteger os ovos, utiliza cavidades naturais ou artificiais, como ocos de árvores, cavernas, forros de casas, galpões e torres.

Audição precisa e visão estratégica

Assim como outras corujas, a suindara é uma caçadora altamente eficiente. Seus ouvidos são assimétricos, o que amplia a capacidade de identificar a origem exata dos sons.

Além disso, o disco facial, estrutura de penas ao redor do rosto, funciona como uma verdadeira antena parabólica, direcionando o som diretamente para os ouvidos.

Outro recurso impressionante é a capacidade de girar a cabeça em até 270 graus. Essa habilidade compensa a limitação na mobilidade dos olhos e permite que a ave observe o ambiente, localize presas e identifique possíveis predadores sem mover o corpo.

Mais do que um símbolo de mau agouro, a suindara desempenha um papel essencial no equilíbrio ambiental, ajudando no controle de roedores e outros pequenos animais.