Ladrões de ninhos? Conheça os pássaros que roubam 'casas' alheias
Especialistas explicam que o comportamento, apesar de parecer cruel, faz parte de estratégias naturais de sobrevivência e reprodução entre aves.
João-de-barro, Casaca-de-couro-amarelo, Tailorbird ou Pássaro-alfaiate são pássaros considerados “arquitetos” e conhecidos por elaborar cuidadosamente os ninhos durante a época do acasalamento para acomodar os filhotes. No entanto, nem todas as espécies costumam “preparar a morada” e podem até roubar os ninhos de outros.
O comportamento, que pode parecer cruel aos olhos humanos, é considerado pelos especialistas em vida selvagem como uma estratégia natural de sobrevivência e reprodução.
“Temos casos de aves que literalmente expulsam a outra espécie e tomam posse do ninho. Isso traz vantagem de tempo e energia. Ela aproveita uma estrutura segura, consegue ocupar lugares mais raros, evitar predadores e agiliza o processo de reprodução com melhores épocas do ano”, explica o biólogo ornitólogo Willian Menq.
É o caso das araras, que constroem os ninhos, mas em alguns casos, podem expulsar os donos que ocupavam buracos de árvores e palmeiras para obter aquele espaço. Este comportamento pode ocorrer em relação a outras aves quanto até mesmo da própria espécie.
No entanto, quem rouba também pode ser roubado. O biólogo conta sobre um caso que chegou a ser estudado em artigo científico, em que um Falcão Relógio roubou o ninho de uma Arara Azul.
Mas vale a pena roubar um ninho?
Fazer um ninho é um processo que demora dias, semanas ou até meses dependendo da ave. Willian descreve que, em ambientes muito competitivos, encontrar uma forma de acelerar esse processo já traz muita vantagem.
“A desvantagem é que essas aves podem perder na briga, podem ser predadas durante o confronto, mas se colocar ‘na balança’ para algumas acaba valendo a pena”, enfatiza.
É o caso da Coruja Buraqueira, que constrói e cava o próprio ninho, mas também usa buracos de tatus e de outros animais, podendo até mesmo expulsá-los.
O especialista explica que nem todos “roubam” o que é do outro. Em alguns casos, o que não tem mais utilidade para uma espécie, pode ser muito útil para outra e nem toda reutilização de ninhos envolve disputa. Algumas aves simplesmente aproveitam estruturas abandonadas na natureza.
Periquitos costumam utilizar ninhos abandonados, assim como a Andorinha do Campo, e o Canário da Terra, que usa ninhos já utilizados pelo João de Barro. Pica-paus, corujas e tucanos frequentemente ocupam ninhos vazios deixados por outras espécies.

Terceirização da criação de filhotes
Além de “roubar” o ninho de outros pássaros, algumas espécies adotam uma técnica ainda mais curiosa: botam seus ovos no ninho de outro pássaro e terceirizam a criação dos próprios filhotes para o dono verdadeiro do ninho, que nem percebe a presença do “intruso”.
“Na biologia esse comportamento é chamado de ‘parasitismo’. É o caso do famoso Chupim, tanto é que virou até um apelido pejorativo, como se fosse uma pessoa trapaceira ou oportunista. A fêmea fica observando o ninho de outra espécie e coloca o ovo ali, para que outras espécies criem o filhote para ela”, explica o biólogo Willian.

Sem perceber a invasão, os pais adotivos passam a alimentar o filhote estranho como se fosse seu.
O biólogo Hélder Cintra de Freitas também comenta que no Brasil, aves como a Iraúna e as espécies da família dos cucos apresentam esse comportamento.
“Entre elas estão o saci e o peixe-frito, parentes do famoso Cuco Europeu conhecido justamente por colocar ovos em ninhos alheios”, cita.
Segundo Helder, muitas vezes o filhote invasor nasce antes dos demais e acaba levando vantagem na disputa por alimento. “Na maioria das vezes ele é maior que os filhotes da ave hospedeira e recebe mais comida”, conta.
Em alguns casos, o comportamento pode ser ainda mais agressivo. O especialista relata que filhotes de espécies como o chupim e o saci podem empurrar ovos ou filhotes do ninho para fora, eliminando a concorrência logo nos primeiros dias de vida.
Estratégia de sobrevivência
Apesar de ser mal visto pelos humanos, segundo os especialistas em aves, podem ocorrer por diferentes motivos. Tais comportamentos revelam como os animais desenvolvem estratégias de adaptação para garantir sucesso reprodutivo.
“São estratégias e adaptação ao meio ambiente para alcançar sucesso reprodutivo. Na natureza a lei do menor esforço é sempre bem-vinda”, explica o biólogo Hélder.
De acordo com ele, entre as espécies brasileiras mais conhecidas por esse comportamento estão aves da família dos tucanos e araçaris. “Os tucanos e araçaris podem predar ninhos feitos por pica-paus e araras, expulsando os ocupantes quando o ninho ainda não está abandonado”, afirmou.

Já entre as aves da família Icteridae, como o João-Pinto, o comportamento também é comum. A prática faz parte de uma estratégia reprodutiva que economiza tempo e energia das aves invasoras.
“Em vez de gastar energia construindo um ninho, elas utilizam esse esforço para cuidar dos ovos e filhotes”, destacou o biólogo.
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