Moradores são peça chave na redescoberta da anta na Caatinga
Com a ajuda de moradores, pesquisadores já tem data marcada para retornar ao bioma e capturar os primeiros animais para monitoramento
Após descobrirem que a anta ainda resiste na Caatinga, pesquisadores já têm data marcada para retornar ao bioma e capturar os animais que ajudarão a traçar o “perfil” da espécie nas regiões mais áridas do país.

A expedição da Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira (INCAB), um projeto do IPÊ (Instituto de Pesquisas Ecológicas), será realizada em novembro, na Caatinga da Bahia, visando à instalação de colares com GPS e à coleta de material biológico para estudos de saúde e genética.
Desde 2023, os ambientalistas da iniciativa realizam viagens pela Caatinga em busca de relatos sobre a presença das antas ao longo dos anos e, em cada incursão, contam com o apoio de moradores na coleta de informações científicas sobre os animais.

Foram mais de 300 entrevistas com moradores da Caatinga, nos estados de Minas Gerais, Bahia e Piauí, que ajudaram a redescobrir a anta no bioma 12 anos depois de ser considerada extinta.
Relatos como o de Abdo, que, aos 96 anos, viu a onça “sumir” da Caatinga baiana e é enfático ao opinar sobre os motivos:
“Por três razões… primeiro, desmataram tudo; segundo, o pessoal comeu muita anta; e, terceiro, a água foi se tornando cada vez mais escassa”.
Abdo.
Com o auxílio dos moradores, os pesquisadores determinaram locais potenciais para a captura de antas na Caatinga da Bahia e, em novembro, retornarão ao bioma para as primeiras capturas. Em março, a equipe também esteve na região durante 20 dias de expedição.

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A sabedoria das populações locais sobre as ameaças à conservação das espécies é vital para as pesquisas, conforme a INCAB-IPÊ. Trata-se de uma parceria que exemplifica a ciência cidadã, um processo de democratização do conhecimento em que pesquisadores e cidadãos atuam juntos na coleta de dados para investigações científicas.
“É muito claro para nossa equipe que não teríamos encontrado as antas caatingueiras sem o apoio das comunidades da região. A Caatinga nos ensinou que essas pessoas têm muito conhecimento sobre a fauna e a flora locais, conhecimento que nem sempre é buscado por nós, pesquisadores. Uma de nossas entrevistadas no oeste da Bahia, uma senhora, líder comunitária e ambientalista, Dona Maria da Glória, nos relatou que: ‘A anta nunca deixou de existir na região do Rio Carinhanha. O animal sempre esteve por aqui, e nós sabíamos, mas ninguém [pesquisadores] veio perguntar.’ Relatos e testemunhos como este mostram que ainda temos muito a aprender com essas pessoas incríveis, detentoras de conhecimentos e sabedoria que vão muito além das revisões bibliográficas.”
Patrícia Medici, coordenadora da INCAB-IPÊ.
O trabalho da INCAB-IPÊ na Caatinga surgiu a partir da publicação da Lista Vermelha Nacional do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), em 2012, que classificou a anta como regionalmente extinta no bioma. Em 2024, enfim, os pesquisadores confirmaram a presença da espécie na região.

A equipe percorreu mais de 6 mil quilômetros durante 20 dias, passando pelo oeste da Bahia e pelo entorno do Parque Nacional da Serra das Confusões, no Piauí. A presença da anta foi determinada por meio de vestígios do animal detectados pela própria equipe e por um vídeo proveniente de armadilha fotográfica.
“Naquele momento, realizamos uma avaliação em nível nacional e, separadamente, para cada bioma. Os profissionais presentes — eu inclusa — classificaram a anta como regionalmente extinta na Caatinga, pois os poucos dados disponíveis à época apontavam para isso. De lá para cá, refletimos muito sobre essa decisão extremamente importante, tomada com base em pouquíssimas informações. Então surgiu uma grande vontade de percorrer a Caatinga em busca de dados mais consistentes sobre o histórico da anta, seu passado e seu presente na região.”
Patrícia Medici, coordenadora da INCAB-IPÊ.
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