Onça ataca pessoas? Presidente da COP15 esclarece sobre convivência com o animal

A fala ganhou destaque em meio às discussões da conferência, que colocou o Pantanal no centro da agenda ambiental global

A presença da onça-pintada no topo da cadeia alimentar e seu porte imponente ajudam a alimentar um imaginário de medo. Durante a entrevista do “Papo da 7” no Bom Dia MS desta segunda-feira (30), o presidente da COP15, João Paulo Capobianco, esclareceu que essa percepção não corresponde à realidade.

IA
Onça-pintada tomando água em corixo no Pantanal. (Foto: Luciano Candisani)

“A onça não é um animal agressivo. A onça não ataca humanos”, afirmou durante entrevista. Para ele, o grande desafio atual não é afastar o animal, mas “mudar a chave” na forma como as pessoas lidam com a espécie. “É necessário criar todo um processo de convivência.”

A fala ganhou destaque em meio às discussões da conferência, que colocou o Pantanal no centro da agenda ambiental global.

Realizada em Campo Grande na última semana, a COP15 reuniu representantes de mais de 130 países e resultou na aprovação de mais de 70 documentos. Um dos marcos foi a chamada Declaração do Pantanal.

Capobianco ressaltou a dimensão estratégica do bioma: “O Pantanal é a maior área úmida do planeta, envolve três países e exige uma cooperação muito intensa.” Segundo ele, a iniciativa “significa colocar o Pantanal sob a luz do interesse da cooperação”.

O bioma se estende por Brasil, Bolívia e Paraguai, além de ser rota de diversas espécies migratórias. “Ele é a rota de passagem de dezenas de espécies migratórias”, destacou.

Ao mesmo tempo, enfrenta ameaças crescentes: “Sendo uma área muito dependente das chuvas, ele é muito vulnerável às mudanças do clima.”

presidente da cop15
João Paulo Ribeiro Capobianco em entrevista no Papo das 7 no Bom Dia MS | (Foto: Jéssica Benitez)

Novas espécies protegidas

Entre os resultados práticos da conferência, está a inclusão de cerca de 40 novas espécies nos anexos da convenção internacional.

“Quando a CMS inclui uma espécie no anexo 1, ela passa a ser legalmente protegida”, explicou Capobianco. “Se um país é signatário, ele obrigatoriamente deve adotar medidas de proteção.”

Um exemplo é a ariranha, que agora passa a exigir ações coordenadas entre países. “Isso gera um conjunto de ações, como proibição de caça, obrigatoriedade de criação de áreas de proteção e cooperação entre os países”, afirmou.

A onça como símbolo da COP

A onça-pintada foi, nas palavras do presidente, “a grande protagonista dessa conferência”. Ele explicou que o animal é considerado um “animal bandeira”, por seu simbolismo e capacidade de mobilizar a sociedade.

Além disso, o reconhecimento da onça como espécie migratória amplia a responsabilidade internacional. “Uma onça no Brasil migra para Bolívia, Paraguai, Argentina”, disse.

Mas o ponto central, segundo ele, é a convivência: “Criar animais, por exemplo, exige uma série de metodologias para proteger os rebanhos e evitar conflito.” Ele destacou experiências bem-sucedidas, como as desenvolvidas no entorno do Parque Nacional do Iguaçu.

“Mostra que é possível preservar as nossas espécies sem que isso impacte as populações ou a produção econômica.”

Uso sustentável: o caso do pintado

Outro tema importante foi o manejo do pintado. Diferentemente das espécies ameaçadas, ele foi incluído em uma categoria que permite uso econômico com നിയന്ത്രação.

“O anexo 2 é daquelas espécies que não estão ameaçadas de extinção”, explicou. “É possível continuar utilizando, mas com planejamento e cuidados.”

Capobianco destacou a importância da cooperação regional: “Como ela circula por toda a bacia do Prata, era fundamental criar uma cooperação entre todos os países.”

Segundo ele, a meta é garantir o futuro da espécie: “Nós vamos ter essa espécie sendo utilizada no longo prazo, porque todos os países vão cuidar da proteção dos juvenis e do período de reprodução.”

Restaurar e conectar

A conferência também reforçou a urgência de recuperar áreas degradadas e conectar ecossistemas. “É necessário garantir espaços protegidos”, afirmou. “Mas também garantir a conectividade entre essas áreas.”

Ele citou ações recentes no Brasil, como a ampliação de unidades de conservação no Pantanal. “São áreas importantíssimas de passagem de espécies migratórias.”

Próximos passos

Com o encerramento da COP15, o foco passa a ser a implementação dos compromissos.

“Os países assumem o compromisso de efetivamente proteger as espécies”, disse Capobianco. Mas ele ressalta que o diferencial da convenção está no espírito coletivo: “Cada país está cuidando de uma espécie que não é sua, é de todos.”

Para ele, essa lógica representa o melhor da cooperação internacional: “Não há como proteger uma espécie migratória sem que todos os países se unam.”

E, no caso da onça-pintada, a mensagem é clara e direta: “A onça não ataca humanos. O que precisamos é aprender a conviver.”

FALE COM O PP

Para falar com a redação do Primeira Página em Mato Grosso do Sul, mande uma mensagem pelo WhatsApp. Curta o nosso Facebook e nos siga no Instagram.