Onça 'colabora' com ciência ao se esfregar em armadilha no Pantanal

Registro inédito mostra onça-pintada interagindo com armadilha de pelos usada para identificação genética no Pantanal.

As primeiras imagens captadas por câmeras instaladas no fim de 2025 no Pantanal ajudam a confirmar, na prática, a eficácia de um método científico brasileiro voltado à conservação da onça-pintada. O vídeo mostra a onça Baía se esfregando tranquilamente em uma das estruturas, posicionada em seu território (comportamento natural que permite a coleta de DNA sem captura, sedação ou contato direto com o animal).

Onça-pintada Baía é registrada por câmera trap ao se esfregar em armadilha de pelo utilizada para coleta de material genético sem captura no Pantanal. - Foto: Reprodução/Vídeo
Onça-pintada Baía é registrada por câmera trap ao se esfregar em armadilha de pelo utilizada para coleta de material genético sem captura no Pantanal. – Foto: Reprodução/Vídeo

As gravações foram feitas por câmeras trap direcionadas especificamente às chamadas armadilhas de pelo, técnica não invasiva desenvolvida por pesquisadores para a coleta de material genético a partir de pelos que ficam presos em esteiras sintéticas adaptadas, semelhantes a tapetes de carro.

Web Story — Onça ‘colabora’ com ciência no Pantanal

Primeiros registros após instalação das câmeras

As câmeras foram instaladas ao final de 2025, com o objetivo de monitorar o uso das armadilhas de pelo e garantir a correta identificação dos indivíduos. As imagens divulgadas agora são os primeiros registros obtidos desde a implementação do sistema no campo.

No vídeo, Baía aparece se coçando repetidas vezes na esteira e chega a vocalizar. Segundo os pesquisadores, o comportamento pode indicar que ela chamava as filhas, Uma e Lua, que estariam se alimentando de uma carcaça nas proximidades.

Onça-pintada Baía é flagrada por câmera trap ao se esfregar em armadilha de pelo, método não invasivo usado por pesquisadores para coleta de DNA no Pantanal. – Vídeo: IMPACTO

Monitoramento garante precisão na identificação

O uso simultâneo das câmeras trap é considerado fundamental para a pesquisa. Cada armadilha de pelo recebe uma câmera apontada diretamente para a estrutura, assegurando que apenas um indivíduo utilize cada esteira. Dessa forma, os pelos coletados podem ser corretamente associados à onça registrada nas imagens, evitando contaminação de dados genéticos.

Imagens do estudo mostram passo a passo de como é feita a coleta dos pelos das onças-pintadas
Imagens do estudo mostram passo a passo de como é feita a coleta dos pelos das onças-pintadas. – Foto: Reprodução/ Estudo

Método foi desenvolvido no Pantanal Norte

A técnica integra um estudo conduzido por pesquisadores do Instituto de Mitigação de Problemas Ambientais com Comunidades Tradicionais e Onças-pintadas (IMPACTO), sediado em Poconé, em parceria com cientistas da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

A pesquisa, apresentada no ano passado, descreve e valida uma metodologia passiva para a coleta de pelos de onças-pintadas (Panthera onca) em vida livre. As armadilhas são instaladas em locais de passagem frequente dos animais, como trilhas, árvores e áreas próximas a carcaças, permanecendo no campo por cerca de 30 dias.

Pelos revelam dados genéticos e de saúde

As amostras coletadas a partir das esteiras sintéticas se mostraram bem preservadas, permitindo a identificação estrutural e molecular do material genético. O DNA extraído é utilizado para identificar indivíduos, avaliar parentesco, diversidade genética e fornecer informações sobre saúde, dieta, exposição a contaminantes ambientais, presença de parasitas e níveis hormonais.

Imagens do estudo mostra os resultados os pelos de onças-pintadas no microscópio
Imagens do estudo mostra os resultados os pelos de onças-pintadas no microscópio. – Foto: Reprodução/Estudo

Alternativa segura à captura de animais

A captura de onças-pintadas para coleta de dados biológicos envolve sedação e manuseio, o que representa riscos tanto para os felinos quanto para as equipes de pesquisa. O método não invasivo reduz significativamente esses impactos, além de eliminar a necessidade de logística complexa, como uso de tranquilizantes, jaulas ou apoio aéreo.

Imagem mostra esteira sintética colocada em árvore para coleta de pelos de onças-pintadas / Vídeo: Instagram/IMPACTO

Inspirada em técnicas utilizadas em estudos com grandes felinos na Ásia e na América do Norte, a metodologia foi adaptada às condições do Pantanal, considerando fatores como umidade, vegetação e comportamento das onças.

Os primeiros registros obtidos após a instalação das câmeras reforçam a eficácia da técnica e demonstram como soluções simples, de baixo custo e não invasivas podem contribuir de forma decisiva para o avanço da ciência e a conservação da onça-pintada no Pantanal.

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