Muito além da onça-pintada: mãe renasce junto aos filhos e mostra rotina em meio ao Pantanal
O encontro inesperado a poucos metros de distância revelou que, para criar crianças no coração do Pantanal, é preciso aprender a ler os sinais da mata
O Pantanal já inspirou enredo de escola de samba, documentários, filmes e livros, mas para além da dramaturgia, o bioma dita o ritmo de vida de muita gente. Entre elas, a produtora de audiovisual Brendha Arruda e seus pequenos. Mãe de dois meninos, Bernardo de 12 anos e Benício de 2, cria os filhos livres, literalmente em meio à natureza. Mas, calma! Não se trata de uma réplica da novela Pantanal e sim de vida real.
Aos 29 anos, a jovem traz na bagagem a experiência de duas maternidades vividas em momentos completamente distintos de sua história. Quando Bernardo nasceu, tinha apenas 17 anos, não havia concluído o ensino médio e precisou encarar o peso da responsabilidade e da sobrevivência em um cenário de isolamento social e pessoal.
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Naquela época, a jovem acreditava que a vida que havia idealizado tinha chegado ao fim. Pensamento que permeia as mentes maternas, principalmente no começo da nova identidade: a de mãe.
Mas, o amadurecimento e a chegada de Benício, dez anos depois, permitiram uma transição consciente. Aos 27, a produtora pôde escolher viver o puerpério de forma recolhida, respeitando o próprio ritmo e buscando o contato direto com o meio ambiente.
Diante da mãe natureza, uma mãe segurou a outra!

Para encontrar o seu equilíbrio atual, buscou suporte em conversas com a avó, que criou cinco filhos em Rio Negro, pequeno município sul-mato-grossense, bem como na troca de experiências com outras mães integradas ao ambiente natural e na meditação embalada pelo silêncio quase que absoluto do Delta do Salobra, onde atua como comunicadora.
“Mas foi justamente atravessando essa experiência que comecei a descobrir habilidades que eu não sabia que existiam em mim. Com apoio e a leveza do existir do meu Bernardo árvore. Aprendi a criar, comunicar, liderar projetos, resolver problemas, observar o mundo com mais profundidade, tudo isso enquanto me dedicava a ele. A natureza também me ensinou muito! Observando outras mães, humanas e não humanas, comecei a entender força de um jeito menos performático e mais instintivo, silencioso, presente”.
Tecnologia e o Pantanal
Embora os meninos cresçam cercados pela mata e tenham a liberdade de subir em árvores, pisar na terra e reconhecer pegadas no chão, Brendha recusa a romantização de uma infância totalmente isolada. Ela ressalta que seus filhos também frequentam a cidade, utilizam tecnologia e fazem parte da sociedade contemporânea.
Nada caricato como retratado em muitas produções televisionadas que abusam do lúdico quando o assunto é o Pantanal.
O filho mais velho, Bernardo, por exemplo, passa mais tempo na área urbana devido aos estudos escolares, enquanto o caçula acompanha a mãe em produções e projetos de campo.
A grande diferença apontada por ela está na maturidade emocional desenvolvida pelas crianças diante dos ciclos naturais. No Pantanal, os meninos aprendem desde cedo que fatores como chuva, seca, calor intenso e lama não obedecem às premissas humanas.

“Nossos filhos vão explorar o mundo, físico e digital. O nosso papel não é eliminar completamente os riscos da existência, mas ajudá-los a construir consciência, repertório e segurança para atravessar esses espaços”.
Essa rotina exige presença integral e influencia diretamente a capacidade de atenção, a criatividade e a gestão do medo.
O encontro com a onça e a lógica da coexistência
Brendha recorda que a primeira sensação ao ficar frente a frente com uma onça-pintada na porta de casa não foi coragem e sim impulso instintivo de paralisar o corpo. O episódio trouxe uma percepção imediata de fragilidade e a consciência de que os humanos é que estão compartilhando o território do animal, não o contrário.
A produtora destaca que a circulação responsável por esses espaços é respaldada por uma rede de pesquisadores, guias e pantaneiros que estudam o comportamento da fauna e os ciclos das águas.
Para ela, o respeito ao ambiente é diferente do pânico generalizado que mora no imaginário por quem vive “no asfalto”.
“E é impossível estar diante de uma onça e continuar distraída pelos próprios pensamentos. Ela te traz para o momento presente imediatamente. Não existe passado, nem futuro, é como um mergulho profundo no agora”.
Para os meninos, espera que essa mesma sensação os guie pelo futuro e, mais que isso, que têm uma mãe tão onça quanto a que vive aos arredores de onde moram.
“Desejo que eles cresçam sabendo que vale a pena dedicar a vida a algo que existe para além de si mesmo. Mas também quero que eles entendam o que custa. Que saibam que a mãe deles enfrentou reuniões onde era a única mulher na sala, que carregou filho no colo em campo aberto, que ouviu que certos lugares não eram pra ela, e foi assim mesmo. Não por heroísmo, mas porque alguém precisava ir, e eu fui”.
O trabalho invisível na conservação
Atuar no Instituto Delta do Salobra faz com que a conservação ambiental atravesse a dinâmica familiar por completo. As conversas sobre a proteção do bioma, o enfrentamento dos impactos das queimadas e a crise climática moldam a visão de mundo dos filhos.
Diante de um mercado de trabalho que muitas vezes apaga a atuação feminina e a sobrecarga materna, Brendha enfrenta o desafio dobrado de exercer funções técnicas em campo e manter os cuidados com a criação dos meninos como já resumiu acima.
Ao avaliar suas escolhas, no entanto, define como o verdadeiro luxo pantaneiro a capacidade de guiar o tempo pelo sol, o privilégio de ver os filhos se banharem em águas cristalinas e o silêncio.
O desafio reside na ausência de uma rede de apoio urbana e na falta de glamour de uma profissão que exige entrega profunda. O objetivo final da mãe é colocar homens bons no mundo, utilizando os ensinamentos de uma natureza essencialmente feminina para ensinar os filhos a pertencer e respeitar.
“Conservação não dá likes, não dá salário justo, não dá glamour. E maternar dentro disso é uma camada a mais de entrega que quase ninguém reconhece. Mas se eu olho pra trás e vejo o caminho, não troco. Porque a natureza me ensinou que as coisas mais fortes são as que crescem devagar, em silêncio, sem precisar provar nada pra ninguém. E é assim que eu quero seguir”.


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