Onça-pintada reforça nova geração da espécie vulnerável ao surgir com dois filhotes no Pantanal
Um vídeo que mostra a onça Medrosa com os filhotes em um rio de MT, nesta sexta-feira (2), chamou atenção para o tema. Especialista aponta mudança no comportamento da espécie no bioma.
O Pantanal estaria abrigando uma nova geração de onças-pintadas? Um vídeo publicado pelo fotógrafo de vida selvagem Roger Benedik nas redes sociais, nesta sexta-feira (2), chamou atenção para essa dúvida.
Nas imagens, a onça Medrosa aparece com seus dois filhotes, Selva e Kiara, saindo de um rio e subindo tranquilamente um barranco, na região do Corixo Negro, em Porto Jofre (MT).
Avistamentos como esse, de onças acompanhadas de suas crias, vêm sendo registrados com frequência na região pantaneira mato-grossense. Por isso, o Primeira Página ouviu um especialista para entender se a presença cada vez mais frequente desses animais pode indicar um aumento da população de onças no Pantanal.
Aumento de onças no Pantanal? 🐆
Segundo Fernando Tortato, pesquisador da ONG Panthera, ainda não existem dados que comprovem um aumento da população de onças no Pantanal, mas pesquisas apontam essa percepção entre moradores. O turismo também pode explicar os registros mais frequentes, já que as onças estariam demonstrando estarem mais habituadas à presença humana.
Ao Primeira Página, o pesquisador também explicou que para entender esse cenário de possível aumento, é preciso olhar de volta para o passado: nas décadas de 1950 e 1960, a onça-pintada sofreu uma forte pressão por causa da caça ilegal voltada ao comércio de couro.
A atividade reduziu bastante a população da espécie no Pantanal. Tanto que, cerca de 20 anos depois, pesquisadores pioneiros que começaram a estudar as onças tinham dificuldade para encontrar áreas com populações saudáveis, já que os animais eram considerados raros em muitas regiões.
Entre os fatores que podem ter contribuído para uma mudança nesse cenário nas últimas décadas estão a maior tolerância dos pecuaristas, o aumento da conscientização sobre a conservação da espécie e, principalmente, o crescimento do turismo de observação de onças.

Exemplo disso é uma história entre uma onça-pintada e dois produtores rurais, que se tornou o novo exemplo de coexistência no no Pantanal mato-grossense. Na sexta-feira (25), o Instituto Impacto compartilhou nas redes sociais a história da onça Cyntia, que inicialmente havia se tornado motivo de preocupação para o seu Zé e a dona Gonza, já que o felino predava o gado da família.
Diante disso, a propriedade recebeu a implantação de cercas elétricas a partir de um projeto científico desenvolvido pelo Instituto, que busca permitir que o maior felino das Américas continuem vivendo nos ambientes próximos de fazendas sem atacar animais como gados, porcos e galinhas.
Cerca de um ano depois, a onça-pintada Cyntia foi reencontrada pela equipe, acompanhada de dois filhotes. A descoberta, segundo o órgão, representa um resultado positivo na tentativa de conciliação da criação de animais e a presença da fauna silvestre nas proximidades da Pousada Piuval.
Voltando à explicação de Tortato, a presença constante de turistas fez com que algumas onças se habituassem aos seres humanos, passando a demonstrar menos medo.
Isso é especialmente perceptível entre as fêmeas com filhotes. Normalmente, uma mãe tende a ser mais cautelosa para proteger a cria, como lembra o especialista. Por isso, quando uma fêmea se aproxima ou permite que seus filhotes sejam vistos por pessoas, isso pode indicar que ela se sente segura naquele ambiente.
Esse processo de habituação ajuda a explicar por que os registros de fêmeas acompanhadas de filhotes se tornaram mais frequentes em algumas áreas do Pantanal. No entanto, esses avistamentos, sozinhos, não permitem afirmar que a população de onças está aumentando.
Por fim, Tortato pontua que para afirmar que houve, de fato, um crescimento populacional e calcular sua dimensão, seria necessário um monitoramento capaz de produzir números comparáveis ao longo do tempo, o que ainda não é desenvolvido na região pantaneira.
Importância do corredor ecológico
O Primeira Página também ouviu o biólogo e guia turístico Marcos Ardevino, que falou da perigosa possibilidade de dificuldade de reproduções futuras das onças-pintadas devido a um isolamento na região pantaneira.
Nesse cenário, haveria a reprodução entre membros da mesma família, o que poderia acarretar problemas genéticos aos filhotes. É que para se reproduzirem com segurança, as onças necessitam de corredores florestais, também chamados de ecológicos, para criar intercâmbio genético.
Esses corredores, segundo o Instituto Onça-Pintada, são faixas contínuas de vegetação nativa que conectam áreas fragmentadas, possibilitando o deslocamento de animais entre populações.
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