Onça tem árvore genealógica: conheça os filhos e até tataranetos identificados no Pantanal de MT

Linhagem acompanhada em Porto Jofre começa com a matriarca Kyra e reúne filhos, netos, bisnetos e até tataranetos identificados ao longo dos anos.

Imagine encontrar uma onça no Pantanal e saber não apenas o nome dela, mas quem é a mãe, a avó, os irmãos e até os filhos e netos. É o que anos de observação permitiram fazer com uma família de onças-pintadas que vive na região de Porto Jofre, no Pantanal mato-grossense.

No centro dessa história está Kyra, considerada a matriarca da linhagem. A árvore genealógica reunida no Jaguar Catalogue 2026, do Jaguar Camp/Pantanal Nature, mostra uma família que já alcança cinco gerações conhecidas.

A partir de Kyra surgem diferentes ramos, com animais identificados individualmente e acompanhados ao longo dos anos. Entre eles está Patrícia, uma de suas filhas e uma das fêmeas mais conhecidas da região.

Mas a história não para nela. Há irmãos, sobrinhos, netos, bisnetos e até tataranetos de Kyra registrados na árvore.

Onça Bororo aparece com jacaré na boca no Pantanal. - Foto: Mateus Rauber
Onça Bororo é filho da terceira ninhada de Kyra. – Foto: Mateus Rauber

Kyra teve três ninhadas conhecidas

Segundo o catálogo, Kyra teve pelo menos três ninhadas identificadas por observação direta.

Na primeira nasceram Patrícia e Jorge. Na segunda vieram as fêmeas Ara Mirim e Águe. Já a terceira reuniu três machos: Tore, Xanad e Bororo.

A própria Águe também aparece dando continuidade à família, como mãe de Açu e Curumim.

É, porém, pelo ramo de Patrícia que a árvore ganha mais gerações e se espalha de maneira impressionante.

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Um registro da onça Patrícia no Pantanal. – Foto: reprodução

Patrícia teve seis ninhadas registradas

Filha de Kyra, Patrícia aparece na árvore com seis ninhadas conhecidas, que deram origem a nove onças identificadas.

Na primeira nasceu Capi. A segunda trouxe as fêmeas Jaju e Medrosa. Depois veio Chela, na terceira ninhada.

Na quarta nasceram os machos Krishna e Kasimir. A quinta teve Nauru e Yanomami e, na sexta, aparece Makala.

Só esse ramo já seria suficiente para transformar Patrícia em uma personagem importante para o acompanhamento da espécie no Pantanal. Mas duas de suas filhas também começaram suas próprias famílias.

Jaju e Medrosa deram continuidade à linhagem

A árvore mostra que Jaju e Medrosa, irmãs da mesma ninhada de Patrícia, chegaram à idade adulta e tiveram descendentes. Medrosa também é chamada de Amber.

Jaju teve três ninhadas registradas. Delas nasceram Manaith, Marimba e Heleah.

Medrosa formou um ramo ainda maior. Entre os filhotes identificados estão Urca, Rio, Marcela, Aimée, Pantanaleiro, Selva e Kiara, distribuídos em diferentes ninhadas.

Com eles, a linhagem de Kyra já chega à geração dos bisnetos.

E uma dessas onças levou a família ainda mais longe.

onca medrosa linda
Medrosa, também chamada de Amber e sua árvore preferida. – Foto: reprodução

Marcela fez Kyra virar tataravó

Filha de Medrosa, Marcela também aparece na árvore como mãe.

Sua primeira ninhada conhecida teve Suli, uma fêmea, e Scout, um macho.

Na prática, isso significa que a sequência chegou a:

Kyra → Patrícia → Medrosa → Marcela → Suli e Scout.

São cinco gerações da mesma linhagem identificadas no Pantanal.

Suli e Scout são, portanto, tataranetos de Kyra.

arvore genealogica das oncas

A árvore transforma em imagem algo que dificilmente seria percebido por quem encontra uma dessas onças isoladamente na natureza: animais observados atualmente carregam uma história familiar que começou a ser documentada várias gerações antes.

Como pesquisadores sabem quem é parente de quem?

Montar uma árvore como essa depende de acompanhamento contínuo.

As onças-pintadas possuem padrões individuais de manchas, conhecidos como rosetas. A distribuição dessas marcas funciona como uma espécie de identidade visual, permitindo reconhecer o mesmo animal em fotografias feitas em épocas diferentes.

Quando uma fêmea conhecida aparece acompanhada de filhotes, os pesquisadores conseguem registrar aquela ninhada. Anos depois, caso os jovens permaneçam na área e sejam novamente identificados, é possível acompanhar crescimento, dispersão e reprodução.

O guia naturalista e gestor ambiental Ailton Lara, que acompanha os felinos no Pantanal, explica que nem todos os filhotes conseguem ser monitorados durante toda a vida.

Makala e Pantaneiro (Foto: Julius Dadalti)
Makala e Pantaneiro, tio e sobrinho, no Pantanal. – Foto: Julius Dadalti

“Tem alguns filhotes da Patrícia que a gente não conseguiu ver, e outros cresceram e desapareceram. Vida de onça, né?”, conta.

O desaparecimento dos registros não significa necessariamente a morte do animal. Onças podem deixar a região onde nasceram, principalmente quando chegam à fase adulta e passam a ocupar novos territórios.

Uma família que também ajuda a ciência

Saber quem nasceu de quem vai muito além da curiosidade.

A observação de várias gerações permite reunir informações sobre reprodução, intervalo entre ninhadas, sobrevivência dos filhotes, deslocamento e permanência das fêmeas em determinadas áreas.

Estudos sobre a reprodução de onças-pintadas no Pantanal mostram que uma fêmea pode ter, em média, cerca de oito filhotes ao longo da vida, com um intervalo próximo de dois anos entre os partos.

Pesquisas também investigam estratégias de acasalamento e sobrevivência da espécie, incluindo comportamentos que podem ajudar as fêmeas a proteger os filhotes contra o infanticídio praticado por machos adultos.

No caso da família de Kyra, acompanhar sucessivamente mães e filhotes permite observar esses comportamentos não apenas em indivíduos isolados, mas ao longo de diferentes gerações de uma mesma linhagem.

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