Tucunaré azul e de fogo: conheça os segredos por trás das cores, força e comportamento 'brigão' do peixe que encanta pescadores nos rios de MT
Biólogo explica como o peixe usa cores, camuflagem, força e comportamento territorial para caçar, reproduzir e proteger a própria prole.
Com força no nado e cores vibrantes que impressionam turistas, fotógrafos, pescadores esportivos e observadores da vida selvagem, o Tucunaré é um dos peixes mais conhecidos dos rios mato-grossenses. Das 16 espécies de tucunarés reconhecidas atualmente, três são encontradas em Mato Grosso.
Além do tradicial tucunaré-amarelo (Cichla kelberi) nativo da bacia do Araguaia, também introduzido em outras regiões do país, estão o tucunaré-azul (Cichla piquiti) nativo das drenagens amazônicas Araguaia-Tocantins do norte do estado, introduzido na bacia do alto Paraguai; e ainda o tucunaré-fogo (Cichla mirianae) endêmico da bacia do rio Teles Pires, do médio-norte de Mato Grosso até o sul do Pará.

Apesar das semelhanças como as cores vibrantes, os dois gigantes tem suas diferenças.
🐠💧 Tucunaré Azul
De acordo com o biólogo e documentarista José Sabino, o tucunaré azul, de nome científico Cichla piquiti tem corpo robusto e alongado, cabeça grande e boca larga, típica de um predador de emboscada. O nome “piquiti”, de origem tupi-guarani, remete ao padrão listrado do corpo do peixe.
O peixe pode ser encontrado em Mato Grosso tanto como espécie nativa, ao norte nos rios da porção amazônica do estado, nas bacias do Xingu, Teles Pires, Juruena e afluentes, ao norte, ou como espécie introduzida, ou “invasora”, na bacia do Alto Paraguai e na divisa com Mato Grosso do Sul, trechos do São Lourenço e do próprio Paraguai.
A chamada invasão decorreu a partir de um episódio de escape de tanques de piscicultura nos rios Piquiri e Itiquira durante as grandes cheias da década de 1980.
O pesquisador menciona que diferente do amarelo ou do vermelho de outros peixes, que vêm de pigmentos como carotenoides obtidos na dieta, o azul dos tucunarés é, em grande parte, uma cor estrutural.
“Um mesmo indivíduo pode parecer vívido em água limpa e e visivelmente pálido logo após ser capturado, transportado ou submetido a estresse”, explica.
Segundo José Sabino, a intensidade do azul é variável e depende tanto da transparência e qualidade da água, da luminosidade, quanto do estado fisiológico do peixe e do momento do seu ciclo de vida.
Células da pele chamadas iridóforos contêm plaquinhas cristalinas de guanina organizadas em camadas; quando a luz atravessa essas estruturas, ocorre um fenômeno físico de interferência e espalhamento (efeito Tyndall) que reflete preferencialmente comprimentos de onda azuis e esverdeados, de forma parecida com o que faz o céu parecer azul. Essa camada de iridóforos costuma se sobrepor a melanóforos (pigmento escuro), o que reforça o contraste e a profundidade da cor azulada.
As barras verticais escuras no corpo do peixe “quebram o contorno” entre troncos submersos e vegetação, funcionando como camuflagem que facilita a emboscada às presas.
Já a intensidade do azul possui mudanças de padrão ligadas ao ciclo reprodutivo parecem funcionar como sinal para parceiros e rivais: um macho com coloração viva e em bom estado sinaliza vigor durante a formação do casal e a defesa do território de desova.
🐡 🔥 🩸Tucunaré de fogo
Já o tucunaré de fogo (Cichla mirianae) leva este nome em função da cor alaranjada semelhante a tonalidade das chamas. A coloração é composta por uma combinação de tons de vermelho, preto, amarelo, laranja e verde.
Assim como outros membros de seu gênero, o tucunaré fogo é conhecido por conhecidos por ser um excelente lutador e um predador voraz, ágil em seu ambiente.
De acordo com informações do Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA) o tucunaré tem hábitos diurnos e vive principalmente em lagos, lagoas e áreas de remanso dos rios, onde caça peixes menores e camarões.
Além disso, é considerado um predador e um caçador visual e diurno, dependendo de água relativamente clara para localizar a presa, combinada com a emboscada e perseguição.
“Ao contrário de muitos peixes que desistem do ataque após uma tentativa frustrada, o tucunaré tende a insistir até capturar o alvo, o que o torna também um dos peixes mais “esportivos” para quem pesca com iscas artificiais”, avalia o biólogo José Sabino.
Mas afinal, cor importa? De acordo com Sabino, sim! A tonalidade das cores do corpo do peixe funciona como um indicador visual útil até mesmo em relação à saúde do animal, embora não seja um diagnóstico exato.
“Peixes em bom estado nutricional, em água limpa e sem estresse recente tendem a exibir cores mais saturadas; peixes doentes, subnutridos, recém-manuseados ou em água turva/poluída tendem a ficar opacos ou pálidos. É um sinal a mais para observação de campo, não um exame clínico”, explica.
Peixes protetores e bons de briga!
Mas não é só a cor que chama atenção. De modo geral, o tucunaré, independente da cor, é uma espécie de peixe conhecida pela fama de “peixe brigador” e o fato de boa parte dessa agressividade está ligada à defesa da prole, não à fome.
José Sabino explica que o tucunaré promove o cuidado “biparental” com a prole, ou seja o casal patrulha e defende ativamente os filhotes, chegando a ponto do macho promover o “jejum reprodutivo”, vivendo de reserva de gordura acumulada em uma protuberância na testa enquanto protege o ninho e os filhotes.

Os adultos são predominantemente solitários e territorialistas, exceto durante a formação do casal reprodutivo. Os filhotes, por sua vez, formam cardumes como “bola de filhotes” que permanecem sob a guarda dos pais até atingirem tamanho suficiente para se dispersar.
Machos e fêmeas formam casais que escolhem áreas de água parada ou de baixa correnteza e constroem um ninho rústico sobre substrato de cascalho, areia ou raízes submersas. A fêmea deposita os ovos de forma “parcelada” ao longo da estação reprodutiva, com fecundação externa.
Depois da desova, os dois pais permanecem no local e revezam-se limpando os ovos, e, após a eclosão, escoltam a “bola” de alevinos como uma verdadeira patrulha, atacando qualquer intruso que se aproxime.
🎣 Espécie visada na pesca esportiva e cuidados com os peixes pós-soltura
A combinação agressividade, força na luta e resposta visual e explosiva a iscas artificiais fazem do tucunaré uma das espécies mais emblemáticas da pesca esportiva no Brasil, com forte apelo para o turismo de pesca.
Contudo, o biólogo alerta para cuidados durante esse tipo de prática. Se atentar a determinados fatores durante a captura reduzem o estresse e aumentam a chance de sobrevivência pós-soltura:
- minimizar o tempo do peixe fora d’água
- manusear com as mãos molhadas, evitando tocar guelras e olhos
- usar puçá de material adequado (sem nó ou de silicone)
- evitar anzóis que causem perfuração profunda
- fotografar rapidamente e devolver o peixe segurando-o de frente para a correnteza até que recupere o equilíbrio antes de soltá-lo
- respeitar tamanhos mínimos de captura e períodos de defeso, especialmente durante a fase de reprodução e cuidado da prole, quando o peixe está mais vulnerável e mais importante para a manutenção da população.
Além disso, a pesca predatória afeta as populações de tucunarés. José Sabino afirma que a retirada de exemplares grandes reduz o potencial reprodutivo da população, já que peixes maiores tendem a ser mais fecundos.
Além disso, como o tucunaré depende de cuidado parental biparental, a captura de um dos pais durante a fase de guarda do ninho ou dos alevinos pode deixar a prole exposta a outros predadores, com impacto que vai além do indivíduo capturado.
Nas áreas onde é nativo, as principais pressões são degradação de habitat:
- desmatamento de mata ciliar, que gera assoreamento
- alterações no regime de cheias por barramentos
- perda de qualidade da água
- pesca predatória fora dos períodos e tamanhos permitidos
Segundo o Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), o Tucunaré está na lista das espécies-alvo da pesca amadora e esportiva de acordo com o banco de dados da União Internacional para Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (UICN).
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