Aos 109 anos, Cícero faz história ao ser o primeiro a emitir a nova identidade em aldeia
Seu Cícero, morador mais antigo da comunidade, foi o primeiro a ser atendido
Aos 109 anos, seu Cícero já atravessou mais de um século de histórias. Morador da aldeia Te’yikue, em Caarapó, não teve a oportunidade de aprender a ler e escrever, e hoje já não consegue mais falar.
Mesmo assim, fez questão de registrar a própria identidade e protagonizou um momento simbólico para a comunidade: foi o primeiro indígena atendido pelo novo posto de identificação instalado na aldeia para emissão da Carteira de Identidade Nacional (CIN).

Com a ajuda da família, seu Cícero chegou ao posto montado na Escola Estadual Iviputi para fazer o documento. O atendimento, que pode parecer simples para muitas pessoas, representa uma conquista importante para quem vive em uma região onde o acesso a serviços públicos pode exigir deslocamentos até a cidade.
Para o filho, acompanhar o pai nesse momento teve um significado ainda maior. Segundo ele, seu Cícero é o morador mais antigo da comunidade e nunca havia conseguido tirar um documento como o que recebeu agora.
“Esse meu pai é mais antigo que tem aqui na aldeia e primeira vez que estão tirando a identidade dele. O homem que nasceu aqui é mais antigo. Então hoje ele tá conseguindo tirar a identidade dele mais nova ainda”.
Anisio da Silva, cacique da Aldeia Te’yikue

Antes da instalação do posto na própria aldeia, moradores que precisavam emitir ou atualizar documentos tinham de se deslocar até a cidade. Além da distância, havia dificuldades relacionadas ao agendamento e à comunicação, especialmente para indígenas que têm o Guarani como principal idioma.
A presença do serviço dentro da comunidade busca justamente reduzir essas barreiras e aproximar a população dos serviços públicos.
“Vai facilitar muito porque é uma dificuldade enorme para eles poderem se comunicar na língua portuguesa, né, que é bem difícil de aprender e poder ajudar também na explicação, nas falas, as crianças também”.
Euller Veron Martins, universitário
A nova Carteira de Identidade Nacional utiliza o CPF como número único de identificação em todo o território brasileiro. O documento serve para comprovar oficialmente a identidade e facilitar o acesso a diferentes serviços e direitos.
No caso de seu Cícero, a emissão aconteceu dentro da própria comunidade e contou com uma estrutura montada para atender os moradores. O procedimento começou com a coleta das impressões digitais.
Dedo por dedo, os profissionais fizeram o registro biométrico. Depois, chegou o momento da fotografia, quando seu Cícero precisou olhar para a câmera para registrar a imagem que fará parte do novo documento.
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