Aos 78 anos, francês faz do rugby um caminho de liberdade para mulheres em Cuiabá

Com quase oito décadas de vida, Michel Leplus prova que envelhecer pode significar criar novos projetos e transformar o futuro de outras gerações

Aos 78 anos, o francês Michel Henri Leplus mostra que a idade pode ser sinônimo de vitalidade e transformação. Ele participou do podcast 60+ De Bem com a Vida, produzido pelo portal Primeira Página, em uma conversa conduzida pelas jornalistas Haillyn Heiviny e Joice Gonçalves, e compartilhou a trajetória dele marcada por disciplina, inovação e paixão pelo rugby.

michel
Michel Henri Leplus fala sobre a paixão pelo rugby e o segredo da felicidade. (Foto: Reprodução/Instagram)

Radicado em Cuiabá desde os anos 1970, Michel é fundador do Melina Rugby Clube, o primeiro time feminino profissional de rugby do Brasil. Sob a liderança dele, a equipe conquistou títulos importantes, como o tricampeonato sul-americano, mas o maior feito é o impacto social que o projeto gerou. Veja a entrevista completa:

“Quando se chega aos 70 anos, é preciso ter se preparado. Eu não poderia simplesmente virar aposentado e ficar em casa. Encontrei no rugby meu projeto de vida e de bem com a vida”, disse durante a entrevista.

Das raízes francesas ao coração de Cuiabá

Nascido em 1947, Michel cresceu em uma França ainda marcada pela Segunda Guerra Mundial. A infância foi suavizada pela presença da tia Melina, que lhe ofereceu cuidado e inspiração. O nome dela, em homenagem, batiza hoje a fazenda, uma marca de sucos e o clube de rugby que carrega sua história.

tia melina
Melina foi uma tia que cuidou de Michel e do irmão dele. (Foto: Reprodução/Instagram)

Sua chegada ao Brasil ocorreu em 1975. Viveu no interior paulista, passou por Mato Grosso do Sul e, mais tarde, estabeleceu-se em Cuiabá. No agronegócio, destacou-se como inovador: foi um dos primeiros a vender gado por vídeo, algo impensável para muitos na época.

A guinada viria em um gesto simples: Michel emprestou R$ 500 para jovens atletas participarem de um torneio de rugby. O incentivo modesto deu origem ao Melina Rugby Clube, que cresceu até se tornar potência esportiva e espaço de oportunidades.

Desde o início, ele quis que o projeto fosse muito além do campo. As jogadoras precisam tirar a carteira de habilitação, ingressar na universidade e participar de programas habitacionais. “Quero que todas saiam daqui com estrutura para viver”, explica.

Rugby, disciplina e legado

Essa filosofia transformou o rugby em ferramenta de emancipação feminina. Para Michel, a disciplina e a força do esporte são instrumentos de liberdade. “Nenhum homem vai bater em uma das minhas jogadoras, porque apanha. Rugby é dignidade”, afirma.

O envolvimento com o esporte também tem raízes familiares. Michel lembra com carinho do irmão Alain, jogador de alto nível na França, que o acompanhou quando decidiu se mudar para o Brasil. Foi Alain quem trouxe para perto o rugby competitivo e ajudou a plantar as primeiras sementes da modalidade em terras brasileiras.

“Sempre tivemos uma ligação forte. Ele me inspirou muito, e no início era comum ouvirmos: ‘lá vão os irmãos do Alain’. Essa relação foi fundamental para eu enxergar no rugby não só um jogo, mas um caminho de vida”.

O impacto do clube pode ser visto nas histórias de atletas que encontraram ali não apenas esporte, mas também dignidade e perspectivas de futuro. Para muitas, o Melina foi a chance de recomeçar.

Mesmo após duas cirurgias recentes, Michel não se afastou do time. Continua presente nos treinos, incentivando as jogadoras e mostrando que liderança é exemplo. “Sucesso gera sucesso. Cada vitória mostra que o caminho está certo”, resume.

michel e o irmao
Michel e o irmão Alain, jogador e treinador de rugby e quem impulsionou o projeto social mantido em Cuiabá. (Foto: Reprodução/Instagram)

Atento às mudanças, ele também aposta na tecnologia. Usa celulares e relógios digitais para acompanhar em tempo real a performance das atletas e mantém contato com técnicos da Nova Zelândia por videoconferência. “Hoje é impossível trabalhar sem tecnologia. Até no campo ela encurta distâncias”, afirma.

A trajetória dele une tradição e modernidade. Do passado no campo francês ao presente em Cuiabá, Michel carrega disciplina, inovação e desejo de transformação social.

Mais que títulos, o que deseja deixar é um legado humano. O Melina Rugby, acredita, deve continuar como espaço de crescimento e liberdade para as próximas gerações.

Ao refletir sobre envelhecer, Michel é categórico: “É preciso ter orgulho de si mesmo e acreditar que ainda é possível realizar coisas maravilhosas depois dos 60. O importante é deixar um legado e estar de bem com a vida”.

Leia mais

  1. Pantanal: entenda por que onças são batizadas com nomes próprios

  2. “Tive depressão, estava presa a crenças e doenças emocionais.”