De vendedor de geladinho e pastel ao diploma na Unemat: aluno da APAE vence barreiras e se forma em arquitetura
Com deficiência intelectual e motora, Thiago Lima Soares começou a desenhar ainda criança na Apae, descobriu a arquitetura enquanto vendia geladinhos e pastéis e agora transforma uma trajetória de luta em inspiração para outras pessoas.
Antes de imaginar que um dia receberia diploma de Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de Mato Grosso (Unemat), Thiago Lima Soares de Oliveira, de 38 anos, tinha outros sonhos. Um deles era bem simples: ajudar a avó a ter uma casa mais confortável na cidade em que moravam, Colíder (MT).
Acometido pela paralisia infantil, na infância não andava, não falava e tinha dificuldades de coordenação motora. Passava boa parte do tempo em casa, sem tratamento e sem aprender. Mas foi na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) que começou um processo que mudaria sua vida.

Ao Primeira Página Thiago conta que na instituição passou por fisioterapia, acompanhamento médico e fonoaudiologia, aos poucos, aprendeu a andar, falar, ler e escrever.
Lá, conseguiu se desenvolver, fazer tratamentos e, para além da saúde, passou a sonhar em ser independente e ajudar a família a ter uma vida melhor. A paixão pelo desenho, que um dia faria com que se tornasse arquiteto, também nasceu ali.
🧃Da venda de pastel aos desenhos e projetos
Na infância e adolescência, Thiago estudava e, nas horas vagas, vendia geladinhos e pastéis. O objetivo era ajudar em casa, especialmente a avó. O sonho era conseguir dar a ela uma casa confortável. Até então, a família vivia em uma casa de madeira.
Foi justamente durante as vendas que a arquitetura apareceu em seu caminho. Enquanto vendia os produtos, Thiago observava engenheiros, arquitetos e projetistas trabalhando. Em vez de apenas entregar os pastéis, começou a prestar atenção nos desenhos e na maneira como os profissionais trabalhavam.
A curiosidade chamou a atenção deles. Os engenheiros Fábio Luiz Amaral e Wagner Aparecido Cassiano e o projetista Talles Mesquita perceberam o interesse do garoto e decidiram ajudá-lo. Compraram cadernos e materiais de desenho, pagaram um curso básico de informática e ofereceram a ele a oportunidade de aprender.
Depois, passou a aprender programas utilizados em engenharia e a desenvolver projetos. Um deles foi especialmente marcante: o projeto da Igreja Matriz de Colíder, quando tinha 14 anos.

Talles o ensinava a trabalhar com os programas de engenharia e com desenho à mão, enquanto os engenheiros contribuíam com conhecimentos de cálculos e mapas.
O que poderia ter sido apenas uma ajuda acabou se tornando uma porta para uma profissão. Thiago começou a praticar desenhos, o que também contribuiu para sua coordenação motora.
📚 Da curiosidade à universidade
A arquitetura deixou de ser uma curiosidade e se transformou em objetivo profissional. Em 2020, Thiago entrou na primeira turma de Arquitetura e Urbanismo da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) em Colíder. Mas chegar à universidade não significava que o caminho seria fácil.
Ele conta que tinha receio de não conseguir acompanhar o curso por causa da coordenação motora. A estrutura da universidade ainda não estava totalmente adaptada às suas necessidades, mas, conforme as demandas apareciam, adaptações foram feitas.
Ao longo da graduação, construiu uma relação de parceria com colegas. Ajudava os amigos quando podia e também recebia ajuda quando precisava. A convivência se tornou tão intensa que ele conta que passava mais tempo na faculdade do que em casa.

Na universidade, a dificuldade não estava necessariamente no conteúdo. O maior desafio, segundo ele, estava em provar que uma pessoa com deficiência não deve ser tratada como incapaz.
Para Thiago, muitas vezes falta apenas uma oportunidade para que essas pessoas mostrem o que conseguem fazer. “Todos temos direito de crescer apesar da dificuldade”, afirma.
Mesmo depois de conquistar o diploma, ele decidiu continuar frequentando a instituição para manter os tratamentos e também para incentivar outros alunos a perseguirem seus próprios sonhos.
🏛️ O primeiro diploma da Apae
Ao se formar em Arquitetura e Urbanismo pela Unemat, Thiago se tornou o primeiro aluno da Apae de Colíder a conquistar esse diploma na instituição. Para ele, ser o primeiro é uma vitória, mas também uma responsabilidade.
Thiago acredita que sua história pode servir de incentivo para outros alunos da Apae. Mais do que uma escola, ele vê a instituição como um espaço que prepara pessoas para a vida e para conquistar independência.
Não foi fácil, mas consegui. O peso não foi o canudo e me formar, e sim por causa da luta para não ser tratado como incapaz, de ter oportunidades pra provar que conseguimos. Apesar de ter a mobilidade reduzida, posso falar: graças a Deus eu venci e realizei meu sonho, sou arquiteto e urbanista. Agradeço a todos que contribuíram para que isso fosse possível: Deus, família e Apae, amigos e colegas.
Por isso, mesmo depois da formatura, continua sendo aluno da Apae. A intenção é seguir com os tratamentos, mas também permanecer perto de pessoas que fizeram parte de sua história e mostrar, com a própria trajetória, que sonhos podem ser perseguidos mesmo quando o caminho possui dificuldades.
Thiago cita que ainda cumpre o estágio exigido pela graduação na Prefeitura de Colíder. A experiência o coloca justamente diante do universo que despertou sua curiosidade anos atrás, quando ainda vendia pastéis e observava profissionais trabalhando. Agora, é ele quem participa de projetos.
Entre as experiências, estão trabalhos relacionados a unidades de saúde e melhorias urbanas. E existe um projeto especial que gostaria de transformar em realidade: o Centro de Reabilitação desenvolvido como tema de seu Trabalho de Conclusão de Curso, o TCC.
Além da arquitetura, Thiago também trabalha com edição de vídeos e produção gráfica, incluindo fachadas e design de móveis. E não parou de estudar: afirma gostar de fazer cursos e se esforçar para alcançar seus objetivos.
“Todos temos direito de crescer apesar da dificuldade, é correr atrás do seu sonho e persistir por mais que seja difícil”, conclui.
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