'Foi brincadeira' não exclui injúria racial, alerta especialista em MT; estado está entre líderes em registros

Mato Grosso ocupa o terceiro lugar no país em taxa de registros de injúria racial; advogado explica como preservar provas e denunciar casos.

Ofensas raciais feitas em tom de piada ou tratadas como uma ‘simples brincadeira’ podem configurar injúria racial e gerar responsabilização criminal. O alerta é do advogado especialista em Direito Antidiscriminatório Marciano Xavier, de Mato Grosso, que ocupa o terceiro lugar no ranking nacional em taxa de registros desse tipo de crime, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

Segundo o especialista, alegar que não havia intenção de ofender e que determinada expressão foi usada apenas como brincadeira não é suficiente para afastar a possibilidade de crime.

Especialista alerta que alegar “brincadeira” não exclui injúria racial; MT tem a 3ª maior taxa de registros do país.
Foto: Ilustrativa | Crédito: Agência Brasil

“É bastante comum depois alegar: ‘Ah, não, mas foi uma brincadeira’. A jurisprudência vem no sentido de que alegações como ‘foi uma brincadeira’ não excluem o crime”, explica Marciano.

As situações podem ocorrer em diferentes ambientes do cotidiano, como escolas, locais de trabalho, condomínios e estabelecimentos comerciais. Além de denunciar, o advogado orienta que a vítima tenha cuidado para preservar desde o início tudo o que possa servir como prova.

Prints, vídeos e mensagens podem servir como provas

Conversas, mensagens, prints, fotografias e vídeos devem ser preservados. A orientação muda também de acordo com o ambiente em que a situação ocorreu.

No trabalho, por exemplo, Marciano recomenda que a comunicação ao setor de Recursos Humanos, gestor ou responsável seja feita por escrito. Em condomínios, a vítima pode notificar formalmente o síndico e solicitar o registro do episódio em ata.

Nos estabelecimentos comerciais, além do registro de boletim de ocorrência, o especialista aponta a possibilidade de procurar órgãos de defesa do consumidor, como o Procon.

Segundo Marciano, esses procedimentos são importantes tanto para comunicar o episódio às autoridades quanto para preservar elementos que poderão contribuir para a apuração.

Injúria racial

As maiores taxas do Brasil em 2025

Número de boletins de ocorrência para cada 100 mil habitantes nas unidades da Federação com os maiores índices.

  1. Distrito Federal 28,9
  2. Santa Catarina 27,1
  3. Mato Grosso 20,6
  4. Paraná 19,3
  5. São Paulo 17,1
  6. Piauí 12,4
  7. Sergipe 12,0
  8. Amapá 10,2
  9. Minas Gerais 9,8
  10. Acre 9,5

Taxa por 100 mil habitantes

Fonte: Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026.

Gráfico elaborado pelo Primeira Página

Medo de retaliação pode levar vítimas ao silêncio

As consequências, porém, não ficam restritas à esfera criminal. O psicólogo Wallace Rodolfo explica que episódios de racismo podem provocar impactos emocionais e que o medo de não ser acreditado ou de sofrer retaliações pode fazer com que vítimas deixem de relatar o que aconteceu.

“A maioria das vezes a vítima do racismo se silencia porque ela tem medo. Tem medo de não ser, no sentido prático da palavra, endossada. Então, o que ela falou vai ficar por aquilo mesmo”, afirma.

O receio pode ser ainda maior quando a vítima acredita que denunciar poderá trazer consequências para sua rotina ou para as relações no ambiente em que vive ou trabalha.

Para o psicólogo, acolher quem relata uma experiência de racismo passa, primeiro, por permitir que a pessoa fale sobre o que viveu e sobre os impactos provocados pela situação.

“A única forma de conseguir ajudar alguém que passou por uma experiência de racismo é deixar ela falar à vontade, deixar ela pontuar o que sente, o que vivenciou”, explica.

Segundo Wallace, experiências de racismo podem deixar marcas duradouras. Por isso, comentários relacionados à aparência, à cor ou à história de outra pessoa não devem ser minimizados simplesmente por terem sido apresentados como piada ou brincadeira.

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