Formação prepara seminaristas de MT para atuação junto a povos indígenas

Atividade reúne futuros padres do Regional Oeste 2 e aborda território, cultura, protagonismo indígena e diálogo entre diferentes espiritualidades.

Seminaristas de Mato Grosso participam de uma formação em Missiologia Indigenista, voltada ao conhecimento das culturas, espiritualidades e dos desafios enfrentados pelos povos indígenas. A atividade, realizada na União das Faculdades Católicas de Mato Grosso (Unifacc), também discute a atuação missionária da Igreja baseada na escuta, no diálogo e no respeito ao protagonismo indígena.

A formação integra a preparação dos futuros presbíteros de Mato Grosso e aborda a história, as culturas e as espiritualidades indígenas, além dos desafios relacionados à defesa dos territórios e dos direitos dos povos originários.

Seminaristas de MT fazem formação em Missiologia Indigenista. - Foto: Renan Dantas
Seminaristas de MT fazem formação em Missiologia Indigenista. – Foto: Renan Dantas

As atividades são coordenadas pelo padre Francisco Prim, doutor em Teologia e missionário do Conselho Indigenista Missionário em Mato Grosso (Cimi-MT), com participação de professores e especialistas na temática indígena. Entre os assuntos discutidos estão a história da missão indigenista no Brasil, a legislação relacionada aos povos indígenas, a atuação do Cimi e a defesa dos territórios tradicionais.

A proposta também discute novos caminhos para a presença missionária da Igreja, com foco na escuta, no diálogo e no respeito às diferentes culturas. Criado em 1972, o Cimi é apresentado durante a formação dentro do processo de mudança da atuação da Igreja junto aos povos indígenas, com maior defesa da diversidade cultural e do protagonismo dos próprios povos.

Terra, cultura e protagonismo indígena

As discussões foram divididas em quatro eixos principais: terra, cultura, protagonismo indígena e diálogo inter-religioso. No primeiro deles, o território é abordado para além do valor econômico ou da ideia de propriedade, sendo relacionado à memória, identidade, cultura, espiritualidade e continuidade da vida das comunidades indígenas.

Outro ponto trabalhado com os seminaristas é a necessidade de conhecer línguas, costumes, rituais, símbolos e conhecimentos tradicionais. A formação defende que compreender uma cultura significa também reconhecer as formas próprias de cada povo interpretar a vida e se relacionar com o mundo.

Seminaristas de MT fazem formação em Missiologia Indigenista. - Foto: Renan Dantas
Seminaristas de MT fazem formação em Missiologia Indigenista. – Foto: Renan Dantas

No debate sobre protagonismo, os povos indígenas são apresentados como sujeitos de sua própria história, que devem participar das decisões sobre seus territórios, comunidades, culturas e futuro. Nesse sentido, a atuação missionária não deve substituir a voz das lideranças, mas estabelecer relações de escuta, respeito e colaboração.

O diálogo inter-religioso e intercultural também integra a formação, propondo uma aproximação respeitosa com as diferentes experiências espirituais dos povos originários e com seus símbolos, mitos e rituais.

Experiência com o povo Bororo

Um dos destaques foi a participação do irmão salesiano Mário Bordignon Enauréu, de origem italiana, historiador e missionário com décadas de experiência junto aos povos indígenas, especialmente o povo Bororo, em Mato Grosso. Ele também desenvolveu trabalhos relacionados à educação e à cultura Bororo.

Durante o encontro, Mário apresentou mudanças ocorridas na compreensão da missão da Igreja ao longo das últimas décadas. A perspectiva discutida busca deixar de lado uma atuação baseada apenas em fazer algo “para” as populações indígenas para priorizar uma caminhada com os povos, reconhecendo autonomia, conhecimento, cultura e protagonismo.

O testemunho de Padre Rodolfo e Simão Bororo. - Foto: Reprodução
O testemunho de Padre Rodolfo e Simão Bororo. – Foto: Reprodução

Também foi lembrada a história do padre Rodolfo Lunkenbein, missionário salesiano que atuou junto ao povo Bororo em Meruri. Ele participou da defesa do território indígena em um período marcado por conflitos fundiários e foi assassinado ao lado do indígena Simão Bororo, em 15 de julho de 1976, na Missão de Meruri.

Para os responsáveis pela formação, estudar Missiologia Indigenista permite aos futuros padres conhecer uma realidade presente no território onde muitos poderão exercer o ministério. A proposta é preparar religiosos para uma atuação orientada pela escuta, pelo diálogo e pelo respeito às comunidades.

Conforme apresentado aos seminaristas, o caminho passa por “escutar antes de falar, conhecer antes de julgar e caminhar antes de propor”, reconhecendo os povos indígenas como protagonistas da própria história, e não apenas como destinatários da ação da Igreja.

Leia mais

  1. Da farda para a batina: padre de MT conta como deixou a Polícia Militar para seguir vida religiosa

  2. Aos 61 anos, mato-grossense se torna padre depois de casar, ter filhos e virar avô e realiza sonho de infância

  3. Do tronco ao recorde: maior Santa Ceia entalhada em madeira do Brasil fica no interior de MT

FALE COM O PRIMEIRA PÁGINA

Para falar com a redação do Primeira Página em Mato Grosso, clique aqui. Curta o nosso Facebook e siga a gente no Instagram.

Leia também em Cidadania!

  1. Placa sinalizando vaga exclusiva para idosos 60+ (Foto: Júlia Ortega)

    Tem 60 anos ou mais? Aprenda a emitir a credencial para estacionar em vagas de idosos

    Já completou 60 anos, mas ainda não emitiu sua credencial para estacionar...

  2. Pessoa em situação de rua dorme em espaço público de Cuiabá. - Foto: TVCA

    Cuiabá pode ter mais de 400 ex-presidiários em situação de rua, diz CNJ

    Um estudo do CNJ estima que 1.604 pessoas vivam em situação de...

  3. Carteira de Identidade Nacional pode ser obtida por toda a população - Foto: Reprodução/Ascom INSS

    Shopping terá 2ª edição de mutirão para emitir o novo RG

    Ainda não emitiu o novo RG? Um mutirão no shopping vai distribuir...