No subsolo da Catedral, descansam figuras que ajudaram a construir Cuiabá; veja quais
No espaço subterrâneo da Catedral, urnas guardam personagens ligados à fé, à política e à origem da capital, como Miguel Sutil e Dom Orlando Chaves.
No subsolo da Catedral Basílica Senhor Bom Jesus de Cuiabá, uma cripta guarda não apenas restos mortais, mas histórias de pessoas que marcaram a capital mato-grossense. Fundada em 1722 pelo capitão-mor Jacinto Barbosa Lopes, a igreja nasceu junto com a própria cidade.
Antes da estrutura atual, foi capela, igreja matriz e, posteriormente, elevada à condição de catedral. Ao longo dos séculos, passou por transformações marcantes, sendo elas em 1723, 1739, 1745, 1868 e 1929, refletindo as mudanças arquitetônicas e históricas da região. Em 1964, chegou a ser implodida com dinamite, sendo reconstruída anos depois, em 1973, como símbolo de resistência e fé.
Hoje, o templo é um dos maiores marcos históricos e religiosos de Mato Grosso. Mais do que um ponto turístico, representa a trajetória da Igreja e da sociedade cuiabana, reunindo em sua estrutura elementos artísticos e culturais únicos, como o altar principal, com mais de 20 metros de altura, feito em mosaico pelo artista polonês Arystarch Kaszkurewicz, que, mesmo sem as mãos, produziu a obra com auxílio de alunos e freiras.
Mas é no subsolo que repousa uma das partes mais curiosas e simbólicas da Catedral.
✝️A cripta e os guardiões da história
Desde o início do século XVIII, quando a igreja ainda era uma capela simples, o subsolo passou a ser utilizado como local de sepultamento de autoridades religiosas e figuras importantes da sociedade. Hoje, a cripta abriga os restos mortais de personagens que participaram diretamente da construção política, social e religiosa de Cuiabá e de Mato Grosso.
Ela reúne nomes que ajudam a contar a história da cidade sob diferentes perspectivas da fé à exploração do território.
Ele explica que quando a catedral foi demolida, as cinzas foram enviadas para a Igreja do Bom Despacho, onde permaneceram até 1975 quando a cripta que conhecemos hoje foi inaugurada.
“A cripta preserva os restos mortais, até mesmo para os historiadores que virão fazer pesquisa, estudo sobre a história da nossa igreja e da nossa cidade. Em todos as urnas contém as cartas mortuárias e serve para os pesquisadorem façam futuras pesquisas comprovando que é realmente aquela pessoa”, explica.
Ele afirma ainda que o local possui espaço para mais pessoas, sejam elas autoridades, bispos, arcebispos e pessoas relevantes do mundo da igreja.
“No passado, era muito comum as igrejas terem o cemitério no fundo, onde eram sepultadas pessoas mais importantes”, conta
Mas afinal, quem foram essas pessoas?
⛪Dom José Antônio dos Reis

Dom José Antônio dos Reis foi o primeiro bispo da Diocese de Cuiabá e uma das figuras mais marcantes da história religiosa e social da região. Nascido em São Paulo, teve uma infância difícil, marcada pela pobreza e pela orfandade, sendo incentivado à vida sacerdotal por Dom Mateus de Abreu Pereira. Foi ordenado padre em 1821 e também se formou em Direito, tornando-se o primeiro bacharel da área a ocupar o episcopado no Brasil.
Sua atuação foi decisiva em momentos críticos da história cuiabana. Durante a Rusga, conflito violento na cidade, percorreu as ruas com um crucifixo nas mãos, mediando a paz e ajudando a salvar vidas. Também teve papel importante na educação, ao fundar o Seminário da Conceição, e na promoção do acesso ao conhecimento, sendo reconhecido como o primeiro bibliotecário público de São Paulo.
Conhecido pelo compromisso social, atuou no atendimento a doentes durante a Guerra do Paraguai e a epidemia de varíola, transformando espaços religiosos em hospitais. Defensor da abolição, participou de ações que resultaram na libertação de pessoas escravizadas. Dom José morreu em 1876, em Cuiabá, após décadas de atuação, deixando um legado de fé, justiça e dedicação ao povo.
⛪Dom Luiz de Castro Pereira
Dom Luiz de Castro Pereira foi um dos primeiros líderes da Igreja em Cuiabá e teve atuação política relevante no início do século XIX. Nomeado bispo com o título de Bispo de Ptolomaida, assumiu a prelazia no contexto ainda colonial, sendo o primeiro a ocupar efetivamente essa função na região.
Chegou à então Vila Real do Senhor Bom Jesus de Cuiabá em 1808, após tomar posse por meio de procurador, e foi recebido com grande solenidade pela população. Sua atuação marcou a organização inicial da Igreja Católica no território, contribuindo para estruturar a presença religiosa em um período de formação da sociedade local.
Além da vida religiosa, também exerceu papel político ao presidir a junta governativa da província de Mato Grosso entre 1821 e 1822, momento decisivo na transição do período colonial. Permaneceu à frente da prelazia até seu falecimento, em 1822, deixando um legado ligado aos primeiros anos de organização institucional da região.
⛪Dom Carlos Luiz D’Amour

Dom Carlos Luiz D’Amour foi o segundo bispo diocesano e o primeiro arcebispo metropolitano de Cuiabá, tendo papel fundamental na consolidação da Igreja na região. Nascido em São Luís (MA), em 1837, enfrentou uma infância difícil após ficar órfão ainda jovem, sendo criado por uma tia. Desde cedo, precisou trabalhar como alfaiate para sustentar a família, enquanto conciliava os estudos.
Sua vocação religiosa se desenvolveu a partir da atuação como capelão, onde chamou atenção pelo empenho e dedicação. Incentivado por lideranças da Igreja, ingressou no seminário e foi ordenado sacerdote em 1860, na Arquidiocese de Salvador. Reconhecido por sua formação e postura, chegou a assumir funções importantes, como a de vigário capitular.
Em 1878, foi nomeado bispo de Cuiabá e, posteriormente, tornou-se o primeiro arcebispo da arquidiocese. Sua atuação marcou a estruturação da Igreja Católica em Mato Grosso, deixando um legado decisivo para a organização religiosa na capital.
Seu legado é lembrado como um dos mais significativos para a história religiosa do estado.
⛪ Frei José Maria de Macerata
José Maria de Macerata foi um dos primeiros líderes religiosos a atuar em Cuiabá, tendo sido nomeado bispo-prelado em 1823, a pedido da população local. Chegou à cidade em 1824 e rapidamente se destacou pela atuação próxima aos mais pobres e pelo trabalho de catequização, especialmente entre comunidades indígenas.
Conhecido como um homem benevolente, também ficou cercado por relatos populares que atribuíam a ele supostos poderes de cura e adivinhação. Apesar de ter sido indicado ao cargo de bispo, não chegou a ser oficialmente consagrado, permanecendo como vigário apostólico por um período.
Mesmo após deixar a administração da diocese em 1831, continuou sua missão religiosa na região. Faleceu em Cuiabá, em 1846, e foi sepultado na cripta da Catedral, onde seu nome permanece ligado aos primeiros passos da Igreja na capital mato-grossense.
⛪ Dom Orlando Chaves

Dom Orlando Chaves teve papel decisivo na história recente da Igreja em Mato Grosso. Nascido em Campina Verde (MG), iniciou sua formação religiosa ainda jovem na Congregação Salesiana e foi ordenado padre em 1927, após estudos em Teologia na Itália.
Foi nomeado bispo de Corumbá em 1948 e, anos depois, em 1956, assumiu como arcebispo de Cuiabá. À frente da arquidiocese, promoveu mudanças importantes na estrutura da Igreja, com a criação de paróquias e seminários, fortalecendo a presença religiosa na região.
Sua gestão também ficou marcada por decisões estruturais significativas, como a demolição da antiga Catedral e a construção do atual prédio. Além disso, incentivou a comunicação religiosa ao trazer a Rádio Difusora, hoje Rádio Bom Jesus FM. Dom Orlando faleceu em 1981 e está sepultado na cripta da Catedral, onde permanece como parte da história viva da capital.
⛪ Dom Francisco de Aquino Corrêa

Dom Francisco de Aquino Corrêa foi uma das figuras mais importantes da história de Mato Grosso, com atuação destacada como arcebispo, escritor, poeta e político. Nascido em Cuiabá, foi o primeiro mato-grossense a integrar a Academia Brasileira de Letras, consolidando seu nome também no cenário cultural brasileiro.
Ingressou na Congregação Salesiana em 1902 e foi ordenado sacerdote em 1909, após estudos em Roma. Poucos anos depois, aos 29 anos, tornou-se bispo auxiliar de Cuiabá, sendo considerado o mais jovem do mundo à época. Em 1921, assumiu como arcebispo, fortalecendo a educação, a ação social e a presença da Igreja na região.
Além da atuação religiosa, foi governador de Mato Grosso entre 1918 e 1922, período em que buscou reorganizar o estado e deixou marcas importantes, como a criação do Brasão. Também teve papel fundamental na cultura, ajudando a fundar instituições como a Academia Mato-grossense de Letras. Faleceu em 1956, deixando um legado que une fé, política e produção intelectual.
Sua presença na cripta reforça a ligação entre fé, conhecimento e identidade cuiabana.
⛪Dom Bonifácio Piccinini

Dom Bonifácio Piccinini foi um dos principais líderes da Igreja em Mato Grosso no período recente. Nascido em Luiz Alves (SC), em 1929, ingressou ainda jovem na Congregação Salesiana e foi ordenado padre em 1960, na Itália, após formação em Filosofia e Teologia.
Chegou a Cuiabá na década de 1970, sendo nomeado arcebispo coadjutor em 1975 e assumindo definitivamente a arquidiocese em 1976, após a morte de Dom Orlando Chaves. Seu trabalho ficou marcado pelo dinamismo pastoral e pela expansão da Igreja, com a criação de comunidades e paróquias, especialmente em áreas rurais e periféricas.
Durante sua gestão, investiu na formação de novos sacerdotes, reestruturou o seminário e acompanhou de perto a construção e reforma de igrejas e centros de evangelização. Renunciou ao cargo em 2004 e faleceu em 2020, sendo sepultado na cripta da Catedral de Cuiabá, onde seu legado permanece ligado à expansão da fé na região.
Pascoal Moreira Cabral

Considerado o fundador de Cuiabá, Pascoal Moreira Cabral liderou as expedições bandeirantes que resultaram na descoberta de ouro na região, dando origem ao povoamento da cidade.
Era um bandeirante, considerado o fundador de Cuiabá. A região da Capital mato-grossense costumava ser visitada por bandeirantes, que vinham em busca de índios, para escravizá-los. Moreira Cabral foi o responsável pela fundação do primeiro arraial da região, a Forquilha, criada após intensas lutas travadas com índios.

Moreira Cabral é considerado o fundador de Cuiabá por ter notificado a capitania de São Paulo, após a criação do povoado, que havia sido encontrado muito ouro na região, na margem do Rio Coxipó.
“Caso não houvesse o comunicado oficial, a caravana de Moreira Cabral seria considerada contrabandista, pelo fato de não ter notificado a Coroa Portuguesa, então proprietária das terras”.
A ata sobre a criação de Cuiabá foi emitida pelo bandeirante em 8 de abril de 1719.
Sua presença na cripta simboliza o início da história cuiabana. Ele representa o ciclo do ouro e a formação inicial da capital, marcada pela exploração e pela ocupação do território.
Miguel Sutil de Oliveira
Miguel Sutil de Oliveira foi outro personagem fundamental na história da fundação de Cuiabá. Também bandeirante, participou das expedições que impulsionaram o desenvolvimento da região. Comandando inclusive a fundação da Igreja Matriz.
Ele era proprietário de uma região com plantações de diversos itens, como mandioca e banana. Proprietário de escravos negros e indígenas, ele utilizava a mão de obra deles para encontrar pepitas de ouro. Durante um tempo, os moradores da região da Forquilha migraram para o arraial fundado pelo bandeirante.
Sutil restruturou o garimpo e percebeu a necessidade da criação de uma igreja, que era item fundamental para a Coroa Portuguesa. A partir de então, ele fundou a Igreja Matriz, com o auxílio dos padres. A primeira construção foi feita de pau a pique”.
Seu nome está diretamente ligado ao crescimento econômico inicial da cidade, especialmente no contexto da mineração, sendo lembrado como um dos protagonistas desse período.
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