Tarifa zero pode ampliar acesso à saúde e reduzir desigualdades, aponta estudo

O levantamento analisou dados do IBGE, Datasus e Ipea, que apontaram como o custo da tarifa dificulta o acesso à saúde.

A adoção da tarifa zero no transporte público pode contribuir para reduzir desigualdades raciais e ampliar o acesso da população aos serviços de saúde, educação, trabalho e lazer. É o que aponta o estudo “Quem Pode Circular? Tarifa Zero, Mobilidade e Desigualdades Raciais no Acesso à Cidade e aos Serviços”, divulgado por pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) em maio deste ano.

O levantamento analisa dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (Datasus) e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) para discutir como o custo do transporte e as dificuldades de deslocamento afetam principalmente a população negra e de baixa renda.

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Estudo apontou que tarifa zero no transporte poderia ampliar acesso à saúde. – Foto: Luiz Alves

Segundo o estudo, cerca de 70% dos brasileiros dependem exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS), sendo a população negra a principal usuária da rede pública. Os pesquisadores argumentam que o acesso formal aos serviços de saúde nem sempre significa acesso efetivo, já que muitas pessoas enfrentam obstáculos financeiros e logísticos para chegar às unidades de atendimento.

A pesquisa destaca que moradores de regiões periféricas costumam percorrer trajetos mais longos para acessar serviços públicos. Em áreas metropolitanas, deslocamentos superiores a uma hora e meia por dia são frequentes entre as camadas mais pobres da população, o que pode dificultar consultas, exames e tratamentos médicos.

 Novo programa promete reduzir filas de consultas e exames no SUS. (Fernando Frazão/Agência Brasil)
Cerca de 70% dos brasileiros dependem exclusivamente do SUS. – Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Outro dado apresentado no estudo mostra que mulheres negras possuem aproximadamente o dobro do risco de morte materna em comparação com mulheres brancas. Para os autores, embora essa desigualdade tenha múltiplas causas, as barreiras de mobilidade também influenciam o acesso aos cuidados de saúde.

A pesquisa ressalta ainda o peso do transporte no orçamento familiar. Com base em dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), do IBGE, o documento afirma que famílias de baixa renda podem comprometer entre 15% e 25% dos rendimentos com despesas de mobilidade urbana.

Para os pesquisadores, a gratuidade no transporte coletivo eliminaria uma das principais barreiras econômicas para a circulação da população. A expectativa é que a medida aumente o número de deslocamentos realizados, facilite o acesso a serviços públicos e libere parte da renda familiar para outras necessidades, como alimentação, moradia e lazer.

Prefeitura oferece transporte coletivo gratuito no 7 de Setembro em Cuiabá. (Foto: Emanoele Daiane)
Estudo apontou que tarifa zero no transporte poderia ampliar acesso à saúde. – Foto: Emanoele Daiane

O estudo também relaciona a mobilidade urbana à saúde mental. Longos períodos em ônibus lotados, atrasos constantes, insegurança e desgaste provocado pelos deslocamentos diários são apontados como fatores que contribuem para o aumento do estresse, da ansiedade e de outros problemas emocionais.

Apesar de defender a tarifa zero como uma ferramenta importante de inclusão social, os autores reconhecem que a medida, isoladamente, não resolve os problemas estruturais das cidades brasileiras. O documento afirma que a política deve ser acompanhada de investimentos em qualidade do transporte, ampliação da cobertura das linhas e planejamento urbano capaz de reduzir a segregação territorial.

Na avaliação dos pesquisadores, a tarifa zero deve ser entendida não apenas como uma política de transporte, mas como uma estratégia de promoção da equidade social e racial. A conclusão do estudo é que facilitar a circulação das pessoas pela cidade pode ampliar o acesso a direitos e contribuir para reduzir desigualdades historicamente presentes no país.

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