Diamante raro encontrado em MT revela pistas de como água pode chegar ao interior profundo da Terra

Estudo analisou um diamante "superprofundo" encontrado em Juína e identificou minerais que podem ajudar a explicar o transporte de água para regiões extremas do manto terrestre.

Um diamante raro encontrado em Juína (MT) pode ajudar cientistas a entender como a água é transportada para regiões profundas do interior da Terra. A descoberta foi feita por pesquisadores do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em parceria com cientistas de outras instituições brasileiras, e publicada em maio deste ano na revista científica Scientific Reports.

Diamante encontrado em Juína foi analisado por pesquisadores no Sirius. - Foto: CNPEM
Diamante encontrado em Juína foi analisado por pesquisadores no Sirius. – Foto: CNPEM

Preservado dentro da pedra, um composto hidratado formado por minerais de ferro apresentou sinais de transformações que podem ter ocorrido sob pressão e temperaturas extremas no manto terrestre. O estudo analisou um diamante superprofundo de Juína e identificou uma inclusão formada por goethita, hematita e magnetita.

Na prática, a pequena estrutura preservada dentro do diamante funciona como uma espécie de registro das transformações sofridas por minerais no interior do planeta e pode dar novas pistas sobre como compostos capazes de carregar água chegam ao manto profundo.

O diamante estudado, identificado como J1, foi coletado no Chapadão, em Juína (MT). A pedra tem cerca de 3 milímetros e, por meio de uma tomografia de alta resolução, os pesquisadores identificaram mais de 100 inclusões em seu interior.

Diamante de Juína foi peça-chave para a descoberta científica. - Foto: CNPEM
Diamante de Juína foi peça-chave para a descoberta científica. – Foto: CNPEM

Uma delas, com aproximadamente 35 micrômetros de diâmetro, tornou-se o foco da pesquisa por estar completamente encapsulada no diamante, sem ligação com fraturas ou contato com a superfície da pedra. A característica foi considerada importante para afastar a hipótese de que o material fosse resultado de uma contaminação externa.

Água presa em minerais

Apesar da descoberta, o estudo não aponta para a existência de rios ou oceanos escondidos nas profundezas da Terra. A água analisada pelos cientistas está relacionada a hidroxilas incorporadas à estrutura cristalina dos minerais.

Conforme a pesquisa, identificar minerais capazes de manter esses componentes em profundidades extremas é importante para entender como a água pode existir e circular no manto terrestre.

ENTENDA A DESCOBERTA

Como a água pode ficar “presa” dentro de um mineral?

Quando os cientistas falam em água no manto profundo, não significa que existam rios, lagos ou oceanos subterrâneos. Em determinadas condições, componentes relacionados à água podem fazer parte da própria estrutura dos minerais.

H₂O
Água É formada por hidrogênio e oxigênio.
OH
Hidroxila Grupo formado por oxigênio e hidrogênio.
Estrutura mineral A hidroxila pode ocupar um lugar na estrutura cristalina.
1
O mineral se forma com uma estrutura organizada

Os átomos de um mineral ocupam posições específicas, formando uma espécie de rede microscópica chamada estrutura cristalina.

2
Hidroxilas entram nessa estrutura

Grupos formados por oxigênio e hidrogênio podem ficar incorporados ao cristal. Por isso, os cientistas dizem que o mineral consegue armazenar componentes relacionados à água.

3
Pressão e calor podem transformar o mineral

Conforme o material é levado para regiões mais profundas da Terra, a pressão e a temperatura aumentam. O mineral pode mudar de estrutura ou começar a se decompor.

4
A água pode ser liberada no manto

Durante a transformação, o hidrogênio e o oxigênio presentes no mineral podem participar de reações que liberam H₂O nas rochas ao redor.

Então, onde está a água?

Ela não fica armazenada como uma gota dentro do mineral. Componentes ligados à água fazem parte da estrutura microscópica do cristal e podem ser liberados quando o mineral sofre transformações no interior da Terra.

Infográfico editorial elaborado com base no estudo publicado na revista Scientific Reports.

O desafio está justamente nas condições encontradas abaixo da superfície. Em regiões profundas do manto, as temperaturas podem ultrapassar 2 mil °C, cenário em que minerais hidratados, capazes de armazenar água ou grupos hidroxila ((-OH) é um grupo funcional formado por um átomo de oxigênio ligado a um de hidrogênio) em sua estrutura, tendem a se tornar instáveis.

No diamante de Juína, os cientistas identificaram uma inclusão de oxihidróxido de ferro ((FeO(OH)) é um composto químico essencial formado por ferro, oxigênio e hidrogênio).

As análises por fluorescência de raios X mostraram que o material é composto principalmente por ferro, que representa cerca de 96% dos elementos identificados, e níquel, com aproximadamente 4%. Pequenas quantidades de titânio, cromo e vanádio também foram detectadas.

DENTRO DO DIAMANTE

O que os cientistas encontraram?

No interior do diamante de Juína, os pesquisadores identificaram uma pequena inclusão de oxihidróxido de ferro.

FeO(OH) Oxihidróxido de ferro

É um composto formado por ferro, oxigênio e hidrogênio. A presença de hidrogênio e oxigênio na estrutura ajuda a explicar por que esse tipo de mineral pode participar do transporte de água para regiões profundas da Terra.

Composição identificada na análise
Ferro 96%
Níquel 4%
Também foram detectadas pequenas quantidades de:
Titânio Cromo Vanádio
Por que o ferro domina a composição?

A inclusão é formada por minerais ricos em ferro, como goethita, hematita e magnetita. Por isso, esse elemento aparece em quantidade muito maior nas análises.

Infográfico editorial elaborado com base nas análises apresentadas no estudo publicado na Scientific Reports.

Diamante de Juína guardou um registro do manto

A inclusão encontrada dentro do diamante reúne goethita, hematita e magnetita. Segundo o estudo, a presença dos três minerais em uma única estrutura é incomum em sistemas naturais, já que cada fase depende de condições físicas e químicas específicas.

O mapeamento por difração de raios X mostrou que a goethita e a hematita estão distribuídas pela inclusão, enquanto a magnetita aparece restrita a uma região central.

PRESERVADO NO DIAMANTE

Um registro do manto ficou isolado dentro da pedra

A inclusão analisada reúne três minerais de ferro e estava completamente encapsulada no diamante, sem ligação com rachaduras ou com a superfície.

ISOLADA
Sem contato com a superfície As imagens mostraram que a inclusão não estava conectada a fraturas do diamante.
GOETHITA Mineral hidratado Contém hidroxilas em sua estrutura cristalina.
HEMATITA Presente nas áreas mais densas Apareceu distribuída em diferentes regiões da inclusão.
MAGNETITA Concentrada no interior Foi identificada em uma região mais restrita da estrutura.
Por que a combinação chamou atenção?

Encontrar goethita, hematita e magnetita juntas em uma única inclusão é incomum. Os minerais dependem de diferentes condições físicas e químicas para se formar.

Goethita Hematita + Magnetita
A principal hipótese dos pesquisadores

A inclusão pode ter sido aprisionada pelo diamante enquanto o mineral passava por transformações em condições extremas no interior da Terra. O diamante teria preservado parte desse processo.

Representação editorial baseada nas análises do diamante J1 descritas no estudo publicado na Scientific Reports.

Como o material está completamente isolado dentro da pedra e não possui fraturas que o conectem à superfície, os pesquisadores consideram que a inclusão pode ter sido aprisionada pelo diamante durante um processo de transformação ocorrido no manto profundo.

A interpretação contraria uma explicação comum para a presença de goethita em diamantes. Por ser um mineral encontrado em solos e sedimentos, ela costuma ser considerada resultado de alterações ocorridas próximo à superfície ou da entrada de fluidos por rachaduras na pedra.

No caso do diamante J1, as imagens em micro e nanotomografia mostraram que a inclusão estava totalmente encapsulada. Para os autores do estudo, a combinação dos minerais e o isolamento do material sustentam a hipótese de uma origem ligada ao interior profundo da Terra.

Tecnologia brasileira revelou estrutura microscópica

As análises foram feitas no Sirius, um acelerador de partículas de última geração usado em pesquisas científicas, instalado no CNPEM, em Campinas (SP).

Os pesquisadores utilizaram a luz produzida pelo equipamento para investigar o interior do diamante em escalas microscópicas e nanométricas. As análises foram realizadas nas linhas de pesquisa Mogno, Ema e Carnaúba e permitiram mapear a pedra em três dimensões, além de identificar a composição e a estrutura do material preservado em seu interior.

POR DENTRO DO DIAMANTE

Uma estrutura microscópica guardou pistas do manto profundo

O diamante J1, encontrado em Juína (MT), preservava mais de 100 inclusões. Uma delas chamou a atenção dos pesquisadores.

Diamante J1 cerca de 3 mm
+100 inclusões mapeadas no interior da pedra
≈ 35 μm diâmetro da inclusão analisada
Completamente isolada A inclusão não tinha ligação com fraturas nem contato com a superfície.
Composição identificada
Goethita Hematita Magnetita

Infográfico editorial baseado nos dados do estudo publicado na Scientific Reports.

A tomografia identificou mais de 100 inclusões no diamante. Já as análises em escala nanométrica permitiram observar uma estrutura de apenas 35 micrômetros e mapear diferenças na concentração de ferro dentro do material.

O diamante foi mantido sem polimento durante as análises para preservar a forma natural da pedra e todas as estruturas presentes em seu interior.

Da superfície ao manto profundo

A principal hipótese apresentada no estudo começa nas zonas de subducção, regiões onde uma placa tectônica mergulha sob outra e avança em direção ao interior do planeta.

De acordo com o modelo proposto pelos cientistas, a goethita presente na crosta ou na litosfera oceânica pode acompanhar uma placa fria durante esse movimento.

Por volta de 230 quilômetros de profundidade e sob pressão de aproximadamente 7 GPa, a α-FeOOH, forma da goethita encontrada em condições próximas à superfície, pode se transformar em ε-FeOOH, uma estrutura estável sob pressões mais elevadas.

VIAGEM AO INTERIOR DA TERRA

Como um mineral pode levar água para o manto profundo?

A hipótese apresentada no estudo começa na superfície. Um mineral que possui hidrogênio e oxigênio em sua estrutura pode ser levado para o interior da Terra junto com uma placa tectônica.

Antes de começar: onde está a água?

Ela não viaja como uma gota dentro do mineral. Componentes ligados à água, principalmente hidrogênio e oxigênio, ficam incorporados à estrutura cristalina do material.

1 · PRÓXIMO À SUPERFÍCIE

A goethita já carrega componentes ligados à água

A goethita é um mineral de ferro que contém grupos hidroxila, formados por oxigênio e hidrogênio. Esses componentes fazem parte da própria estrutura do cristal.

Ferro + Oxigênio + Hidrogênio
2 · ZONA DE SUBDUCÇÃO

Uma placa tectônica começa a afundar

Em algumas regiões do planeta, uma placa tectônica mergulha por baixo de outra. Esse processo, chamado subducção, leva rochas e minerais da crosta para regiões cada vez mais profundas da Terra.

Pense em uma esteira para o interior do planeta A placa que afunda pode carregar minerais hidratados junto com ela.
3 · CERCA DE 230 KM DE PROFUNDIDADE

A pressão muda a estrutura do mineral

Conforme a placa afunda, a pressão aumenta. Por volta de 230 quilômetros de profundidade, a goethita pode mudar sua estrutura e se transformar em uma forma capaz de resistir a pressões muito maiores.

α-FeOOH ε-FeOOH

Os nomes indicam duas formas estruturais diferentes do composto de ferro.

4 · REGIÕES AINDA MAIS PROFUNDAS

O calor e a pressão começam a desmontar o composto

Em condições extremas, a estrutura do mineral pode perder estabilidade. O composto começa a se transformar e dá origem a outros minerais de ferro, como hematita e magnetita.

Mineral hidratado Hematita + Magnetita
5 · LIBERAÇÃO NO MANTO

A transformação pode liberar água e oxigênio

Quando o composto se decompõe, o hidrogênio e o oxigênio presentes em sua estrutura podem participar de reações que formam e liberam H₂O e O₂ nas rochas ao redor.

H₂O Pode ser liberada e incorporada a outros minerais ou participar de novos processos químicos.
O₂ Pode alterar as condições químicas das regiões profundas do manto.
Resumindo: o mineral funciona como um possível transportador

Ele pode carregar hidrogênio e oxigênio em sua estrutura enquanto desce com uma placa tectônica. Em grandes profundidades, a transformação do composto pode liberar água no interior da Terra.

Importante Esse caminho é uma hipótese proposta pelos pesquisadores com base nas características preservadas no diamante e na comparação com experimentos realizados sob altas pressões e temperaturas.

Infográfico editorial elaborado com base no estudo publicado na Scientific Reports.

À medida que a placa avança para regiões ainda mais profundas, esse composto pode começar a se decompor e formar óxidos de ferro, como hematita e magnetita. Durante o processo, água e oxigênio podem ser liberados nas rochas ao redor.

As características identificadas no diamante de Juína são semelhantes às observadas em experimentos de alta pressão e temperatura. Alguns desses testes reproduziram condições relacionadas a profundidades de aproximadamente 900 a 1.250 quilômetros.

Os autores, no entanto, destacam que a comparação ainda é uma hipótese. As condições utilizadas nos experimentos não reproduzem exatamente o comportamento natural do manto terrestre.

O que a descoberta pode revelar?

A descoberta reforça a hipótese de que o ciclo da água na Terra vai além dos oceanos, rios e da atmosfera e também envolve processos que ocorrem no interior profundo do planeta.

Segundo o estudo, a presença e a liberação de água nessas regiões podem alterar propriedades físicas e químicas do manto, incluindo a temperatura de fusão das rochas, a estabilidade dos minerais e o comportamento do material sob altas pressões.

A água e o oxigênio liberados durante a decomposição do oxihidróxido de ferro também podem ser incorporados à estrutura de outros minerais ou provocar reações químicas nas rochas próximas.

Para os pesquisadores, as transformações identificadas na inclusão preservada no diamante J1 podem representar um registro de que o mineral já havia liberado água no interior da Terra antes de ficar aprisionado na pedra.

O estudo teve como primeira autora a pesquisadora Carolina Camarda, que desenvolveu o trabalho durante o mestrado no CNPEM. A pesquisa reúne cientistas do Centro, da Universidade de Brasília (UnB), da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

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