Do Pantanal pode sair uma solução inovadora, acessível e sustentável para a saúde pública brasileira. Pesquisas conduzidas pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemt) indicam que o óleo extraído das vísceras do jacaré-do-pantanal tem potencial para ser utilizado como nutracêutico, cosmecêutico e até como substância com propriedades cicatrizantes, com foco em aplicação futura no Sistema Único de Saúde (SUS).
Restos de jacaré-do-pantanal é insumo para teste de medicamento em MT. – Foto: Reprodução
À frente do estudo, o coordenador Fabrício Rios-Santos explica que, apesar de relativamente recente, a pesquisa já apresenta resultados consistentes.
“Estamos apenas há quatro anos de pesquisa, mas as evidências são muito sólidas. Agora aguardamos os próximos passos para produzir esse óleo em maior quantidade e entender como ele pode se transformar em um cosmecêutico, um nutracêutico ou mesmo em uma substância com propriedades cicatrizantes em humanos”, afirmou.
Segundo Fabrício, o principal diferencial do projeto está no impacto social e que pode servir de medicação para população.
“Nosso foco é levar esses produtos ao SUS, para garantir um acesso mais democrático, igualitário e com custo reduzido para os usuários”, destaca.
Outro ponto central da pesquisa é o compromisso ambiental. O óleo é extraído de restos de jacarés criados legalmente, destinados principalmente à produção de carne, bastante consumida, e de pele, que tem alto valor comercial no mercado internacional.
“O que antes seria descartado agora pode virar insumo para a medicina. Trabalhamos com uma cadeia produtiva que respeita o equilíbrio ecológico”, ressalta Fabrício.
Coordenador da pesquisa com óleo de jacaré-do-pantanal em MT, Fabrício Rios-Santos. – Foto: TVCA
Rico em ômegas e com efeito anti-inflamatório
As análises laboratoriais mostraram que o óleo de jacaré é rico em ômega 3, ômega 6 e ômega 9, compostos amplamente reconhecidos por sua ação anti-inflamatória e por auxiliarem no combate a sintomas semelhantes aos da depressão.
“Durante os testes a gente conseguiu observar que o tratamento feito com o óleo de jacaré conseguiu diminuir significativamente esses sintomas semelhantes ao da depressão”, explica a pesquisadora na Unemat, Letícia Carvalho.
Ciência valida saber tradicional
O estudo revelou ainda que o uso do óleo não é exatamente uma novidade. Comunidades indígenas e ribeirinhas do Pantanal já utilizavam subprodutos do jacaré de forma tradicional para fins terapêuticos, um conhecimento que agora começa a ser validado pela ciência.
“Descobrimos que esse tipo de uso também ocorre em países da África e na China, sempre de maneira sustentável”, pontua o coordenador da pesquisa na Unemat, Leandro Nogueira.
Animal topo de cadeia
Símbolo do Pantanal e predador topo da cadeia alimentar, o jacaré sempre desperta respeito. Agora, a ciência revela um novo papel para o animal: aliar conservação ambiental, conhecimento tradicional e inovação científica, transformando um subproduto antes descartado em uma possível ferramenta de cuidado com a saúde humana.
Se confirmados os próximos passos, a pesquisa pode colocar Mato Grosso na vanguarda de soluções sustentáveis voltadas ao SUS e ao bem-estar da população brasileira.
Jacarés-do-pantanal é réptil todo de cadeia e ajuda na manutenção do bioma. – Foto: Reprodução