Influenza A em ave no Pantanal revela como os animais antecipam riscos aos humanos
Pesquisas conduzidas por médicos veterinários revelam que a vigilância em fauna silvestre é peça-chave para rastrear riscos antes que eles cheguem aos humanos.
A captura de uma pequena ave no Pantanal acendeu um alerta sanitário importante. Em uma pesquisa conduzida pela médica-veterinária Tayane Bruna Soares Magalhães, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), um Charadrius collaris (batuíra-de-coleira), espécie que não migra do bioma, foi diagnosticado com o vírus Influenza A. A descoberta, descrita como ‘inusitada’ pela pesquisadora, mostrou que o vírus pode circular dentro do bioma, independentemente de rotas internacionais.
A pesquisa divulgada em 2024 analisou 1.138 aves silvestres capturadas em cinco municípios do Pantanal e do entorno, entre 2021 e 2023. Os animais foram coletados em zonas úmidas, margens de baías e áreas alagáveis, locais onde espécies residentes e migratórias se concentram para alimentação, em um ambiente propício para a transmissão fecal-oral de vírus como a Influenza A.
Métodos de captura das aves
Aves capturadas através do método de rede de neblina (A) e passaguá (B), durante o monitoramento no Pantanal.
- Redes de neblina foram instaladas entre a vegetação para capturar aves que voam baixo, como o Taraba major.
- Passaguá foi utilizado em áreas abertas e alagadas para capturar aves que se deslocam no solo, como o Charadrius collaris.
- Após a captura, as aves eram manuseadas por equipe treinada, tinham amostras coletadas e eram liberadas de volta ao ambiente.
O Charadrius collaris, popularmente conhecido como batuíra-de-coleira, é uma dessas espécies. Ele mede cerca de 15 centímetros, pesa pouco mais de 30 gramas e circula apenas por deslocamentos curtos dentro do território brasileiro. Justamente por não seguir rotas migratórias, o registro do vírus nele acendeu o alerta de Tayane.

A médica veterinária explica que os vírus influenza têm origem na população aviária e encontram nas aves silvestres o seu reservatório natural. Segundo ela, espécies das ordens Anseriformes e Charadriiformes sustentam o ciclo do vírus no ambiente e ajudam a entender como essas infecções se movimentam entre diferentes grupos animais.
Tayane reforça que o Influenza A circula com facilidade entre aves, mamíferos e outras espécies, enquanto o Influenza B permanece restrito aos humanos.

A pesquisadora lembra que o risco aumenta quando o Influenza A passa por mutações que o transformam de baixa para alta patogenicidade, processo conhecido como ressortimento genético. Essa mudança já esteve por trás de episódios importantes, como os surtos de H1N1, H1N2 e H5N1, registrados em diversos continentes, com mortalidade elevada entre aves, mamíferos marinhos e até animais domésticos.
“Os vírus influenza começam na população aviária e, quando sofrem transbordamento, passam a acometer outras espécies”, afirma ao Primeira Página. Para ela, compreender essa dinâmica é essencial para interpretar achados como o do Pantanal e antecipar riscos à saúde humana.
Pesquisa de campo no Pantanal
As imagens registram o trabalho da equipe durante o manuseio das aves, coleta de material biológico e armazenamento das amostras utilizadas na vigilância da Influenza A em aves silvestres.
Armazenamento do material genético
A pesquisadora acondiciona as amostras coletadas em uma caixa refrigerada de campo, garantindo conservação adequada até a análise laboratorial.
Exame físico inicial
A equipe avalia a condição corporal da ave antes da coleta dos materiais biológicos.
Coleta de amostras
São realizados swabs orofaríngeos ou cloacais, utilizados para análise molecular de Influenza A.
Triagem em campo
Os pesquisadores conferem a espécie, registram biometria e fazem identificação antes da liberação.
Registro da ave
Momento final do procedimento, com foto e identificação para o banco de dados da pesquisa.
Tayane observa que o estado de Mato Grosso possui três biomas e duas rotas migratórias internacionais, o que torna suas zonas úmidas verdadeiros nós de conexão viral. A pesquisadora destaca que, em regiões assim, “as interações interespecíficas favorecem a circulação de vírus entre aves de perfis diferentes”, ampliando o risco epidemiológico não apenas para os animais, mas para toda a cadeia ambiental.
Mapeando o monitoramento de aves no Pantanal
Entenda onde o batuíra-de-coleira vive e onde a pesquisa coletou dados
Distribuição geográfica da espécie
O primeiro mapa mostra onde o Charadrius collaris ocorre naturalmente — do norte ao sul da América do Sul, incluindo áreas úmidas, margens de rios e ambientes alagáveis.
Onde a pesquisa coletou as amostras
A pesquisa conduzida pela médica-veterinária Tayane Magalhães, da UFMT, monitorou aves silvestres em cinco municípios do Pantanal e entorno.
- Nobres – área de transição entre Cerrado e Pantanal
- Chapada dos Guimarães – planaltos e campos rupestres
- Poconé – porta de entrada do Pantanal mato-grossense
- Barão de Melgaço – maior área alagável contínua
- Santo Antônio de Leverger – região ribeirinha estratégica
Durante a triagem laboratorial, as amostras positivas foram submetidas a técnicas de biologia molecular e tentativa de sequenciamento por NGS (Next-Generation Sequencing). A baixa carga viral, comum em indivíduos assintomáticos, impediu a recuperação integral do genoma. Ainda assim, a simples confirmação do vírus é suficiente para justificar medidas de vigilância ampliada.
No vídeo, a médica-veterinária Tayane Bruna Soares Magalhães explica a importância do monitoramento de aves, fundamental para acompanhar a circulação do vírus Influenza A.
A veterinária reforça que, em aves silvestres, a influenza pode circular sem causar sintomas aparentes, o que exige monitoramento constante para evitar que surtos passem despercebidos.
A pesquisa também revelou que o Pantanal funciona como um “território de encontro” entre diferentes padrões de comportamento aviário. Enquanto migratórias trazem patógenos de outros continentes, as residentes mantêm a circulação viral dentro do bioma, criando um ciclo ecológico que só pode ser compreendido sob a perspectiva da Saúde Única.

O olhar da infectologia sobre o caso
Para o médico infectologista Luciano Correa Ribeiro, coordenador do Instituto Matogrossense de Medicina Interna e Infectologia (IMMII), a presença de Influenza A em uma ave residente do Pantanal reforça a importância da vigilância integrada entre saúde humana, fauna e ambiente, sobretudo em regiões de grande diversidade ecológica.
Segundo Ribeiro, a transmissão sustentada de vírus aviários entre pessoas é hoje considerada incomum, mas informações vindas da fauna silvestre ajudam a aprimorar o entendimento sobre circulação viral no ambiente. “Esses registros contribuem para fortalecer estratégias de vigilância, porque permitem observar o comportamento do vírus antes que ele entre em contato com populações humanas”, explica.
Esses registros contribuem para fortalecer estratégias de vigilância, porque permitem observar o comportamento do vírus antes que ele entre em contato com populações humanas.
Ele ressalta que, embora não exista um protocolo formal que integre infectologia humana e vigilância veterinária em todos os cenários, estudos como o realizado no Pantanal ampliam a capacidade de interpretação epidemiológica. “Monitorar o ambiente e os animais é uma ferramenta essencial para compreender a dinâmica viral e antecipar tendências”, conclui.
Monitorar aves silvestres é prioridade para proteger a produção animal
Conforme ficha técnica do Ministério da Agricultura e Pecuária, em vigor desde 15 de maio de 2023, o Brasil registra casos de Influenza A em aves silvestres e de subsistência, ainda que permaneça oficialmente livre da forma altamente patogênica em aves comerciais.
O documento também adverte que cepas de “baixa patogenicidade” entre aves silvestres têm mostrado potencial de evoluir para vírus mais graves, reforçando a importância de registros, como o do Pantanal.
A advertência técnica vai na mesma direção do que a pesquisa encontrou no Pantanal. Segundo o Ministério, a circulação silenciosa de vírus influenza em aves silvestres funciona como um dos principais indicadores precoces de risco sanitário. É justamente esse o papel das espécies sentinelas: registrar alterações no ambiente antes que elas alcancem humanos, rebanhos ou sistemas produtivos.
Influenza A: o que você precisa saber
Entenda o que é a Influenza A, onde ela circula e quais são os principais subtipos.
O que é Influenza A?
A Influenza A provoca infecções respiratórias agudas e circula entre humanos, aves e mamíferos. Os quadros vão desde sintomas leves até complicações graves, como pneumonia e insuficiência respiratória.
Como é classificada
O vírus é dividido em subtipos conforme duas proteínas da superfície:
- H – Hemaglutinina: permite a entrada do vírus nas células.
- N – Neuraminidase: facilita a saída e a disseminação do vírus.
Daí surgem combinações como H1N1, H3N2 e H5N1.
Subtipos mais comuns
- A(H1N1)pdm09
- A(H3N2)
Outros subtipos circulam em aves e exigem vigilância contínua.
Onde circula
Humanos
Causa gripe, febre alta, tosse e dores pelo corpo.
Aves
Pode causar influenza aviária, inclusive formas de alta patogenicidade.
Mamíferos
Suínos e outros animais podem funcionar como ponte entre espécies.
Aves do alto: tucanos e araras revelam circulação de agentes zoonóticos
Tucanos, araras e outras aves apreendidas do tráfico também revelam um cenário silencioso, mas decisivo para a vigilância sanitária em Mato Grosso. Em 2023, o médico-veterinário Ícaro Sérgio Magalhães Rocha, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), analisou 62 psitacídeos recebidos pelo Centro de Triagem de Animais Silvestres (CETAS) e pelo Centro de Reabilitação de Animais Silvestres (CRAS), ambos em Cuiabá. As aves haviam sido confiscadas em operações contra o comércio ilegal, uma das principais portas de entrada de agentes infecciosos no Estado.
Animais resgatados revelam circulação de doenças
- A pesquisa avaliou aves resgatadas em Mato Grosso, incluindo araras e outros psitacídeos em reabilitação.
- O médico-veterinário Ícaro Sérgio Magalhães Rocha investigou agentes capazes de comprometer a saúde das aves e afetar programas de soltura.
- BFDV (vírus da doença do bico e das penas) causa queda de penas, deformidades e imunossupressão, facilitando outras infecções.
- Chlamydia psittaci bactéria responsável pela psitacose, doença que pode atingir aves e também infectar humanos, provocando febre, tosse e infecções respiratórias.
- Ambos os agentes foram detectados com frequência elevada entre os animais resgatados.
- Os resultados reforçam a necessidade de avaliação sanitária antes da reintrodução de psitacídeos na natureza.
Amostras de 54 araras-canindé, duas araracangas e seis tucanos-toco foram submetidas a exames para detecção do vírus das penas e do bico (BFDV) e de bactérias do gênero Chlamydia, responsáveis por doenças respiratórias e consideradas zoonóticas. Os resultados mostraram prevalências elevadas, e em alguns casos, absolutas: todos os tucanos-toco e todas as araracangas analisadas testaram positivo para os dois agentes.
Ícaro chama atenção para o impacto sanitário desse fenômeno, que raramente chega ao público leigo.
“A detecção de Chlamydia psittaci em aves resgatadas representa risco direto para tratadores, profissionais de manejo e famílias que mantêm esses animais. A condição em que chegam, muitas vezes debilitados e sob forte estresse, favorece a disseminação de agentes infecciosos”.

O pesquisador também ressalta a dimensão ambiental e epidemiológica, já que, segundo ele, o tráfico de aves selvagens representa risco significativo para a veiculação e transmissão de doenças infecciosas. “Cada apreensão deve ser tratada como um episódio de vigilância sanitária”, pontua.
Antes de qualquer tentativa de reintrodução na natureza, aves com histórico de cativeiro ilegal passam por avaliação sanitária rigorosa, um processo que pode durar meses. Isso porque, como registra o próprio Ícaro no trabalho, a reabilitação só é segura quando os agentes infecciosos são identificados e monitorados, evitando riscos para outras espécies e para a população humana.
“Identificar esses patógenos é fundamental para garantir que a reabilitação não represente perigo para a fauna silvestre ou para as comunidades próximas”, escreve o pesquisador.
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