Morre primeiro porco clonado no Brasil que participava de pesquisa para transplante de órgãos
Animal nasceu em Piracicaba e participou de pesquisa da USP para desenvolver transplantes de órgãos de porcos geneticamente modificados em humanos.
O primeiro porco clonado no Brasil, criado como parte de uma pesquisa para viabilizar transplantes de órgãos de animais para seres humanos, foi eutanasiado no final de julho. O animal nasceu em abril deste ano, em Piracicaba (SP), e estava saudável, segundo o pesquisador responsável pelo projeto.
A informação foi confirmada neste sábado (8) por Ernesto Goulart, professor do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP) e principal pesquisador do estudo.

Com quase quatro meses de vida, o suíno havia cumprido os objetivos previstos na primeira etapa da pesquisa. A eutanásia já fazia parte do protocolo científico, mas acabou sendo antecipada em cerca de dois meses por causa da falta de recursos financeiros para manter o projeto.
Segundo Goulart, o acompanhamento do animal tinha como objetivo avaliar seu desenvolvimento e verificar se ele apresentava condições de saúde adequadas, inclusive em relação à maturidade sexual.
“O objetivo era acompanhar a saúde dele para saber se era um animal saudável, se ia desenvolver até mesmo a competência sexual. E o animal cumpriu todos os requisitos. Ele era um animal muito saudável”, afirmou o pesquisador.
Apesar da antecipação, segundo o professor, a decisão não comprometeu os resultados obtidos na pesquisa.
Animal será exposto em museu
O porco nasceu no Instituto de Zootecnia de Piracicaba, centro público de pesquisa, e posteriormente foi levado para as instalações da USP, em São Paulo.
Após a morte, o animal será submetido à taxidermia, processo conhecido popularmente como “empalhamento”. A intenção é preservar o suíno como um marco da ciência brasileira.
Depois do procedimento, ele será exposto no Museu de Zoologia da USP, na capital paulista.
A equipe responsável pelo projeto também conseguiu produzir um segundo clone. O animal, porém, morreu um dia após o nascimento. Segundo o pesquisador, a ocorrência estava dentro dos desafios técnicos esperados em procedimentos de clonagem.

Pesquisa enfrenta dificuldades financeiras
O projeto começou a ser estruturado entre o fim de 2019 e o início de 2020 e reúne diferentes instituições. Para desenvolver a técnica, pesquisadores brasileiros passaram por treinamentos em diferentes países.
A pesquisa recebe recursos de governos estadual e federal, mas o congelamento de parte do financiamento federal prejudicou o andamento dos trabalhos.
De acordo com Goulart, a falta de recursos afetou áreas como manutenção da infraestrutura, pagamento de funcionários e alimentação dos animais.
No início deste ano, o grupo contava com aproximadamente 40 profissionais, muitos deles com doutorado e experiência na área. Com a redução dos recursos, parte da equipe precisou ser desligada.
O pesquisador avalia que a perda desses profissionais representa um impacto significativo para o projeto.
Ministério da Saúde já liberou R$ 6,15 milhões
O Ministério da Saúde informou que a pesquisa integra o Programa Genomas Brasil, iniciativa voltada ao desenvolvimento e à incorporação de avanços genéticos e moleculares em tratamentos personalizados no Sistema Único de Saúde (SUS).
Segundo a pasta, foram aprovados R$ 11,6 milhões para o projeto. Até o momento, R$ 6,15 milhões já foram liberados.
Os recursos são repassados por meio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), responsável pela operacionalização do financiamento.
O Ministério explicou que a liberação das parcelas depende do cumprimento do cronograma de metas, da aprovação das prestações de contas referentes às etapas já realizadas e da disponibilidade orçamentária.
Apesar das dificuldades, Goulart afirmou que os pesquisadores reconhecem o empenho do Ministério da Saúde e das agências de fomento para solucionar os problemas financeiros. Segundo ele, o governo federal considera o projeto estratégico, mas a liberação dos recursos depende de questões orçamentárias mais amplas.
Próxima etapa é produzir porcos geneticamente modificados
O nascimento do primeiro porco clonado foi considerado uma etapa importante para o desenvolvimento da pesquisa. Agora, o objetivo é avançar para a produção de porcos geneticamente modificados, capazes de fornecer órgãos que possam ser utilizados em transplantes para seres humanos.
A estratégia faz parte de uma área conhecida como xenotransplante, que busca utilizar órgãos de animais em pacientes humanos.
Estados Unidos e China desenvolvem pesquisas semelhantes há cerca de três décadas. Para Goulart, o domínio da clonagem representa uma etapa fundamental para que os cientistas brasileiros avancem para a próxima fase.
O pesquisador avalia que o país pode se tornar o terceiro do mundo a realizar um xenotransplante em humanos.
“A gente tem a possibilidade real de tornar o Brasil simplesmente o terceiro país no mundo a conseguir fazer um xenotransplante em humanos”, afirmou.
Mesmo diante das dificuldades financeiras, a equipe mantém a expectativa de avançar rapidamente assim que os recursos sejam liberados.
O projeto também busca dar continuidade ao trabalho iniciado pelo professor Silvano Raia, considerado um dos principais mentores da pesquisa e que morreu em 28 de abril deste ano.
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