Psiquiatra explica por que a Copa do Mundo faz tanta gente chorar, gritar e sofrer

Neurociência ajuda a entender por que uma simples partida é capaz de provocar lágrimas, euforia e tensão

Muito grito, emoção, ansiedade e até lágrimas. A cada quatro anos, milhões de brasileiros vivem uma montanha-russa de sentimentos durante a Copa do Mundo. Mas você já se perguntou por que ficamos tão envolvidos com os jogos da Seleção Brasileira?

A resposta vai muito além da paixão pelo futebol. Segundo a ciência, a emoção despertada pelo Mundial é resultado da atuação de diferentes áreas do cérebro e da liberação de hormônios ligados ao prazer, ao estresse e ao sentimento de pertencimento.

A Copa do Mundo transforma a rotina, movimenta ruas, empresas e famílias, reunindo diante da televisão até pessoas que normalmente não acompanham futebol.

Torcedor do Brasil comemorando
Torcedor do Brasil comemorando (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

Para o psiquiatra do Hospital Universitário da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Kleber Vargas, o torneio é um fenômeno social capaz de ativar simultaneamente emoções, memórias, mecanismos de recompensa e comportamentos coletivos.

“A Copa do Mundo mobiliza emoções porque ativa estruturas fundamentais do nosso cérebro e da nossa vida social. É um evento que nos faz sentir parte de algo maior”, explica.

Sentimento de pertencimento

Torcida do Brasil na Copa do Mundo
Torcida do Brasil na Copa do Mundo (Marcello Casal jr/Agência Brasil)

De acordo com o especialista, o principal fator por trás da intensidade da torcida é o sentimento de pertencimento.

O ser humano é naturalmente um ser social, e fazer parte de um grupo sempre foi essencial para a sobrevivência e o desenvolvimento da espécie.

Durante a Copa, essa necessidade aparece de forma intensa, fazendo com que as pessoas se identifiquem com a seleção, com o país e com milhões de outros torcedores.

“Na Copa do Mundo existe uma simbologia muito forte relacionada ao país e à cultura a que pertencemos. É um evento com enorme exposição na mídia, que faz as pessoas conversarem, se interessarem e compartilharem esse assunto. Isso gera uma sensação de pertencimento.”

Segundo o psiquiatra, é justamente esse vínculo que faz com que muitos torcedores utilizem expressões como “nós ganhamos” ou “nós perdemos”, mesmo sem terem participado diretamente da partida.

“A nossa torcida faz com que a gente também se sinta vitorioso. Da mesma forma, quando acontece uma derrota, apesar da tristeza e da sensação de fracasso, permanece o sentimento de pertencimento ao grupo.”

O que acontece no cérebro durante um jogo?

Enquanto a bola rola, diferentes regiões do cérebro entram em ação. Uma delas é a amígdala cerebral, responsável pelo processamento das emoções e pela percepção de ameaças e riscos. Ao mesmo tempo, o córtex pré-frontal, área ligada ao raciocínio e ao controle dos impulsos, tenta interpretar racionalmente tudo o que está acontecendo.

Esse equilíbrio entre emoção e razão explica por que o torcedor alterna entre tranquilidade, tensão e euforia ao longo da partida.

Outro protagonista é o sistema nervoso simpático, responsável pela resposta de “luta ou fuga”. Durante os momentos mais decisivos do jogo, ele aumenta a liberação de adrenalina, provocando reações físicas semelhantes às de uma situação de perigo.

“Aumenta a frequência cardíaca, aumenta a atenção e também a percepção do próprio corpo. Essas reações acabam intensificando a ansiedade”, afirma Kleber.

Dopamina transforma o gol em explosão de felicidade

Mulher comemora gol do Brasil
Mulher comemora gol do Brasil (Foto: Michael Dwyer/ Reprodução)

Quando sai um gol decisivo ou acontece uma virada emocionante, outro mecanismo entra em ação: a liberação de dopamina, neurotransmissor relacionado ao prazer e à recompensa.

É ela que provoca a sensação de felicidade intensa após um momento esperado ou uma conquista importante, explicando a explosão coletiva de gritos, abraços e até lágrimas.

Além da dopamina, outros hormônios participam dessa experiência emocional. A serotonina influencia o humor e o bem-estar, enquanto o cortisol está relacionado ao estresse, especialmente nos momentos de maior tensão.

Por que os pênaltis causam tanta ansiedade?

Torcedor nervoso durante pênaltis na Copa do Mundo
Torcedor nervoso durante pênaltis na Copa do Mundo (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

Se existe um momento capaz de deixar qualquer torcedor sem fôlego, esse momento é a disputa por pênaltis.

Segundo o psiquiatra, o cérebro reage de forma intensa diante de situações imprevisíveis, principalmente quando não há qualquer controle sobre o resultado.

“A disputa aumenta a interpretação que fazemos do risco, porque queremos ganhar e nos sentimos representados ali. Isso provoca uma maior ativação da amígdala cerebral e do sistema nervoso simpático.”

Nessas situações, é comum o corpo apresentar sinais físicos de ansiedade, como aceleração dos batimentos cardíacos, alterações na respiração, tensão muscular e aumento da percepção dessas reações.

Esse processo cria um ciclo em que a própria percepção dos sintomas aumenta ainda mais a ansiedade.

Superstições ajudam a reduzir a ansiedade

Outro comportamento frequente durante a Copa do Mundo é recorrer a superstições.

Vestir sempre a mesma camisa, assistir ao jogo no mesmo lugar ou repetir determinados rituais antes da partida são práticas bastante comuns entre os torcedores.

Segundo Kleber Vargas, esses comportamentos acontecem porque o cérebro procura criar uma sensação de controle diante de um evento totalmente imprevisível.

Embora esses rituais não tenham qualquer influência sobre o resultado da partida, eles podem ajudar a diminuir a ansiedade e proporcionar uma sensação de segurança.

Copa pode trazer benefícios, mas também exige equilíbrio

Para o psiquiatra, a Copa do Mundo também pode produzir efeitos positivos para a saúde mental quando é vivida de forma equilibrada.

Ao estimular momentos de lazer, convivência social e integração entre familiares e amigos, o torneio favorece sensações de bem-estar e fortalecimento dos vínculos sociais.

Por outro lado, quando a competição é encarada de forma excessivamente intensa, ela também pode aumentar os níveis de estresse e ansiedade, especialmente em pessoas mais vulneráveis emocionalmente.

“O importante é aproveitar o evento como um momento de diversão e convivência, sem permitir que o resultado de um jogo interfira de forma significativa no bem-estar emocional”, conclui o especialista.

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