A Hora do Mal: quem não viu, tá atrasado
Diretor de Noites Brutais acerta mais uma vez com história de crianças que desaparecem no meio da noite
Na semana passada, escrevi sobre a maratona semanal de filmes candidatos à melhor película de terror do ano. E falo com certeza que A Hora do Mal não deve nada para o até agora preferido Os Pecadores.
No filme do diretor Zach Cregger, 17 crianças deixam suas camas quentinhas ao mesmo tempo às 2h17 da madrugada. Abrem as portas de suas casas e saem correndo com os braços abertos como se quisessem voar.
Na manhã seguinte, nenhum dos pais encontra os filhos.
Todas os desaparecidos têm em comum estudarem na mesma sala de aula.
São alunos da professora Justine que, claro, passa a ser a principal suspeita do sumiço.
Interpretada pela ótima Julia Garner, de Lobisomem e O Quarteto Fantástico: Primeiros Passos, ela já não era bem-vista pela comunidade por tratar os alunos com carinho demais.
A frieza, o distanciamento profissional deveriam ser o comportamento ideal, como diz o diretor numa conversa franca com ela.
Ainda mais quando ela parece ser a única funcionária da escola incomodada com a lentidão das investigações.
Não para se livrar da culpa imposta pela sociedade, mas porque realmente se importa com as crianças. Principalmente com Alex, o único dos alunos da sala que não desapareceu.
E Justine não tem nada de mocinha pura. Ela é alcoólica e seduz um homem comprometido com o maior prazer.
Humana.
Como qualquer um de nós.
Da mesma forma, Archer (Josh Brolin). O pai que vive diariamente a dor de não ter tido o tempo necessário com o filho. Que dorme no quarto do menino, que passa a cometer erros no trabalho por causa da tristeza, da sensação de impotência;
Humano.
Como qualquer um de nós.
Archer e Justine vão acabar numa união improvável para tentar resolver esse mistério.
O enigma do desaparecimento das crianças já seria suficiente para segurar a atenção no filme, porém, Cregger, também roteirista, de forma acertada, conta a história repetindo algumas cenas, mas mostrando-as do ponto de vistas dos envolvidos.
A cada um desses “capítulos”, somos esclarecidos sobre alguns pontos da trama ao mesmo tempo que novos elementos nos deixam grudados na tela.
A condução do diretor é segura e inteligente.

Os sustos se justificam. E a boa dose de humor alivia as cenas tensas e pesadas, especialmente quando o gore explode sangue na tela.
A vilã, caricata, também mescla sensações de risos com as de arrepios no público.
Anthony (Austin Abrams), um viciado que acaba no meio da confusão, garante cenas bem engraçadas.
Mas não pensem que A Hora do Mal é um terrir, um terror pra fazer rir.
Ele trabalha vários medos.
Imagine não saber o que aconteceu com seu filho que sumiu de repente.
Imagine ser acusado de algo que não fez.
Imagine ser sequestrado e não poder pedir socorro mesmo andando livre pela cidade.
Dá pra imaginar muito mais maldades.
Manipulação
Em determinado momento do filme, nos é revelado quem é o responsável pelo sumiço das crianças.
E aí surge um outro medo.
O de sermos manipulados.
De surgir alguém em tua vida que, de repente, te leva a atacar outas pessoas.
Te leva a machucar a si mesmo.
Te leva a se afastar de seus filhos.
Em A Hora do Mal, um instrumento é usado como fonte dessa manipulação.
Uma ficção.
Uma metáfora.

Na vida real, também existem pessoas que surgem de tempos em tempos para nos manipular.
Que desejam permanecer com esse poder por muito tempo ao custo do sangue, do suor de pessoas que ficam refém de seus feitiços.
Feitiços que não funcionam através de raios, de poções mágicas.
Mas de lábia.
De criação de inimigos que precisam ser combatidos, atacados e por que não, mortos.
E aí, basta pegar um objeto de cada um – ou o desejo de cada um totalmente exposto aos algoritmos das redes sociais – para que a manipulação se espalhe criando zumbis vivendo no mundo em que foram presos.
Presas.
Fáceis de serem capturadas.
Tirar as crianças dos pais é mais uma metáfora possível de ser interpretada em A Hora do Mal.
É afastar de nós o último laço que nos liga à inocência que perdemos ao longo da vida.
Inocência no sentido de pureza.
De não termos preconceitos.
O filme de Cregger nos mostra, com maestria, disfarçado de sustos e sangue, que vivemos numa sociedade que precisa mudar.
Que precisa não aceitar mais qualquer tipo de manipulação.
Não acreditar em vozes que nos ensinam a odiar ao invés de amar.
A brigar ao invés de se unir.
A afastar ao invés de acolher.
A respeitar ao invés de humilhar.
Esse deveria ser o único encanto de nossas vidas.
Estamos atrasados.
Muito atrasados.
Mas dá tempo ainda.
É só mudar o timming.
Da hora do mal para a era do bem.
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