'A Morte do Demônio: Em Chamas' entrega um dos capítulos mais brutais da franquia
Novo filme da franquia aposta em mortes criativas, amplia a mitologia do Livro dos Mortos e entrega um dos capítulos mais violentos da série, apesar de desperdiçar a chance de aprofundar sua história.
A franquia criada por Sam Raimi nos anos 80 retorna aos cinemas com A Morte do Demônio: Em Chamas, sexto longa da série e terceiro dessa nova fase iniciada em 2013 pelo diretor Fede Álvarez. Depois de dois filmes que revitalizaram a marca para uma nova geração, o novo capítulo, dirigido por Sébastien Vaniček (Infestação), entende exatamente o que os fãs esperam: violência extrema, mortes criativas, tensão constante e Deadites (nome dado aos possuídos na franquia) cada vez mais perturbadores.

Desta vez, a história acompanha Alice (Souheila Yacoub), uma mulher que, após perder o marido, busca conforto na casa isolada dos sogros. O que deveria ser um período de luto logo se transforma em um pesadelo quando o Livro dos Mortos — ou Necronomicon — desperta forças demoníacas capazes de possuir todos ao redor. Aos poucos, cada integrante da família vai sendo transformado em um Deadite, dando início a uma sequência quase ininterrupta de perseguições e carnificina.
Um dos aspectos mais interessantes do longa é a tentativa de expandir a mitologia da franquia. Desde o reboot de 2013, pouco foi explicado sobre a origem do Livro dos Mortos. Sabemos apenas que suas palavras jamais devem ser pronunciadas em voz alta. Em A Morte do Demônio: Em Chamas, o patriarca da família possui uma ligação com esse universo, tendo dedicado anos de estudo ao livro. O roteiro ainda apresenta uma adaga que supostamente seria uma arma capaz de enfrentar o mal e sugere que o neto deste homem pretende reunir essas descobertas em um livro.
O problema é que tudo isso fica apenas na superfície. O filme cria a expectativa de finalmente responder algumas das maiores dúvidas da franquia, mas termina sem desenvolver quase nada. É como se abrisse uma porta para a mitologia apenas para fechá-la logo em seguida.

Ainda assim, isso não compromete completamente a experiência. O roteiro entende que a essência da franquia continua sendo o terror, as possessões e a violência criativa, mas acaba frustrando ao insinuar que finalmente irá aprofundar a mitologia sem realmente responder às perguntas sobre a origem do Necronomicon. O público quer ver possessões, tensão e mortes cada vez mais criativas — e nesse aspecto o longa entrega exatamente o que promete.
Este é o capítulo mais violento de toda a série. Apesar de não ter tantas cenas de gore e litros de sangue como os filmes anteriores, a ação impressiona pela criatividade e pela brutalidade, sem dar muito tempo para o espectador respirar. Depois que o terror começa, os momentos de pausa são mínimos. A sensação é de tensão constante, com uma sequência praticamente ininterrupta de perseguições, ataques e mortes.
Assim como aconteceu em A Morte do Demônio (2013) e em A Morte do Demônio: A Ascensão (2023), de Lee Cronin, o terror também serve como pano de fundo para discutir traumas pessoais. Se Mia enfrentava a dependência química no reboot e Beth lidava com questões familiares em Ascensão, agora a protagonista precisa enfrentar o luto pela morte do marido e as marcas deixadas por um relacionamento abusivo. O passado acaba assumindo uma forma quase literal dentro da narrativa, funcionando como mais um monstro que ela precisa enfrentar.

A direção reforça essa atmosfera desde o início. A fotografia é bastante escura, com tons frios e uma ambientação soturna que transmite desconforto durante praticamente todo o filme. A casa isolada parece refletir a própria desestrutura daquela família, enquanto os enquadramentos fechados mantêm o espectador constantemente em alerta. Muitas vezes, a câmera permanece tão próxima dos personagens que a sensação é de que algo pode surgir a qualquer instante fora do campo de visão.
Os jump scares também funcionam muito bem justamente porque não parecem gratuitos. Eles surgem de forma orgânica dentro da construção da tensão e raramente soam como sustos apenas pelo susto.
As atuações cumprem seu papel, mas dificilmente ficarão marcadas. O elenco não conta com nomes muito conhecidos e os personagens também não foram construídos para despertar grande apego emocional. Curiosamente, isso acaba funcionando a favor do filme. A maioria deles possui comportamentos moralmente questionáveis, fazendo com que o espectador esteja mais interessado em descobrir como cada um será possuído do que propriamente em torcer por sua sobrevivência.

A única exceção envolve um dos primeiros momentos realmente chocantes do filme — e aqui fica um pequeno spoiler. A morte de um cachorro acaba sendo uma das cenas mais difíceis de assistir. Justamente por acontecer logo no início, ela estabelece o tom da violência que dominará todo o restante da história.
Enquanto os filmes originais de Sam Raimi equilibravam terror e uma comédia completamente escrachada, a nova fase iniciada em 2013 optou por um caminho muito mais sombrio. A Morte do Demônio: Em Chamas segue essa mesma linha, embora reserve alguns momentos de alívio cômico por meio da avó da família, pela maneira como seus esquecimentos e sua personalidade acabam produzindo situações inesperadas em meio ao caos, funcionando como pequenas pausas antes de o terror voltar com força total.
Além da mitologia pouco explorada, o outro ponto que mais decepciona aparece no terceiro ato. Sem entrar em spoilers, o visual do último Deadite enfrentado pela protagonista aposta em um CGI que destoa bastante do restante do filme. Existe uma justificativa narrativa para aquela aparência, mas a execução digital acaba destoando dos excelentes efeitos práticos apresentados até então. Felizmente, é um detalhe que não chega a comprometer a experiência geral.
Quanto à comparação com os demais filmes da série, a resposta depende muito do gosto de cada fã. Para mim, o reboot de 2013 continua sendo o ponto mais alto dessa nova fase por conseguir reapresentar a franquia para uma nova geração sem abrir mão de sua essência. A Ascensão teve o mérito de transportar o terror para um cenário urbano e mostrou que a fórmula ainda funcionava longe da clássica cabana. A Morte do Demônio: Em Chamas mantém essa consistência, entrega um dos filmes mais brutais da saga, mas perde a oportunidade de dar um passo maior ao ampliar a mitologia do Livro dos Mortos.
O longa ainda traz duas cenas pós-créditos que ajudam a preparar o caminho para o futuro da série. Embora a continuação já estivesse confirmada anteriormente, as cenas reforçam que o universo ainda tem histórias para contar. O próximo projeto, inclusive, deverá ser uma prequela ambientada antes mesmo dos acontecimentos do filme original de 1981.
No fim das contas, A Morte do Demônio: Em Chamas não reinventa a franquia, mas também nunca parece interessado em fazer isso. Seu objetivo é entregar terror, sangue, Deadites memoráveis e uma experiência intensa do começo ao fim. E, nesse aspecto, cumpre sua missão com folga. Mesmo sem aprofundar a mitologia como promete, o filme prova que A Morte do Demônio continua muito viva — e ainda sabe como fazer o público se contorcer na cadeira.
Nota: ★★★★☆ (4/5).
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