Crítica | A Odisseia: Nolan transforma Homero em épico monumental
Épico de Christopher Nolan com Matt Damon, Tom Holland e Zendaya
Christopher Nolan passou quase três décadas construindo labirintos narrativos sobre tempo, memória e obsessão. Em A Odisseia, que chega hoje aos cinemas em lançamento global em IMAX, ele finalmente encontra o material que parece ter esperado a carreira inteira: o poema fundador da literatura ocidental, a história de um homem que leva dez anos para voltar para casa e precisa descobrir, no caminho, quem ele se tornou.

O resultado é o projeto mais ambicioso da carreira do diretor. Com orçamento de 250 milhões de dólares e filmagens espalhadas por Marrocos, Grécia, Itália, Escócia, Islândia e Malta, Nolan aposta em uma abordagem realista da mitologia grega, inspirada na tradução de 2017 da classicista Emily Wilson e, curiosamente, no cinema artesanal de Ray Harryhausen. A Odisseia é uma combinação improvável que define o tom do filme: grandioso na escala, humano na essência.
Atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido por volta do século VIII a.C., a Odisseia é um dos textos fundadores da literatura ocidental.
Um herói cansado no centro da tempestade
Matt Damon, em sua terceira colaboração com Nolan, entrega Odisseu como poucas vezes o vimos: não o estrategista invencível dos livros escolares, mas um veterano de guerra assombrado pelo que fez em Troia. A cena em que ele observa, em choque, seus próprios homens massacrando civis durante o saque da cidade estabelece a chave do filme. Esta não é uma aventura sobre monstros. É um estudo sobre culpa, sobre o preço de sobreviver e sobre a distância entre o homem que partiu e o que tenta retornar.
O elenco coadjuvante e de apoio de A Odisseia é um dos mais impressionantes reunidos em um blockbuster recente. Tom Holland, Anne Hathaway, Zendaya, Lupita Nyong’o, Robert Pattinson e Charlize Theron dividem a tela em papéis que a produção manteve sob sigilo até a estreia.
As escolhas que dividem A Odisseia
Nolan toma decisões ousadas de adaptação. A mais comentada: os deuses gregos nunca aparecem em cenas intervindo diretamente. A ira de Poseidon e a proteção de Atena são sentidas, jamais mostradas em atitudes explícitas ou diretas, uma escolha que aproxima o filme do naturalismo de Dunkirk e afasta qualquer tentação de fantasia digital genérica. A violência também é contida, com boa parte do horror acontecendo fora de quadro, priorizando tensão psicológica em vez de espetáculo sangrento.
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A estrutura não linear, marca registrada do diretor, encontra aqui uma justificativa orgânica: o próprio poema de Homero começa no meio da história. O filme não abre mão do clássico contador de histórias (interpretado pelo músico Travis Scott, que também assina a música dos créditos finais) narrando o episódio do Cavalo de Troia em um salão de banquetes. É uma escolha que anuncia o verdadeiro tema do filme: o poder das histórias, quem as conta e por quê.
Técnica a serviço da emoção
A fotografia de Hoyte van Hoytema, rodada com tecnologia IMAX desenvolvida especialmente para a produção, alterna o azul infinito do Mediterrâneo com interiores claustrofóbicos de navios e palácios. A trilha de Ludwig Göransson, vencedor do Oscar por Oppenheimer, pulsa entre o épico e o intimista. A montagem de Jennifer Lame costura as camadas temporais com clareza surpreendente para um filme de quase três horas.
Nem tudo é unanimidade. Parte da obra ocasionalmente flerta com o ponderoso, trazendo a percepção de que, A Odisseia é mais fácil de respeitar do que de amar, uma jornada tecnicamente estonteante que nem sempre arrebata emocionalmente. Ressalvas justas para um filme que exige paciência do espectador acostumado ao ritmo frenético dos blockbusters contemporâneos.
Vale a pena o hype?
A Odisseia é o tipo de experiência que só o cinema em tela grande proporciona, e talvez a síntese definitiva do projeto artístico de Nolan: um filme sobre um homem tentando voltar no tempo para casa, feito por um diretor obcecado pelo tempo desde sempre. Se Oppenheimer foi sua consagração, esta é sua homecoming. Imperfeito em alguns trechos, monumental no conjunto, é cinema épico como não se fazia há décadas. Vale sim.
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