Documentário revela novo lado da "Bruxa da Sapolândia" e levanta dúvida: ela era inocente?
Documentário revisita a história de Célia de Souza, mulher acusada de matar crianças na década de 1960
Um dos casos mais emblemáticos e cercados de mistério de Mato Grosso do Sul está prestes a ganhar uma nova versão.
O documentário “O Retrato do Erro – A Bruxa da Sapolândia”, dirigido por Isabelle Silva, revisita a história de Célia de Souza, mulher acusada de matar crianças na década de 1960, e apresenta documentos, depoimentos e especialistas que levantam uma pergunta que atravessa gerações: ela era culpada ou vítima de uma perseguição religiosa e racial?

O longa-metragem “O Retrato do Erro” busca reconstruir os acontecimentos envolvendo Célia de Souza, mulher acusada, na década de 1960, de assassinar crianças em uma região conhecida como Sapolândia, atual Taquarussu.
Mais do que revisitar o caso, a produção questiona a narrativa que permaneceu viva no imaginário popular por mais de meio século.
“Nosso objetivo não é dizer se ela matou ou não matou. Queremos mostrar que existem outras perspectivas e que há muitas perguntas que nunca foram respondidas”, explica Isabelle.

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Segundo a diretora, a ideia surgiu a partir da pesquisa de mestrado de João Prestes, um dos roteiristas do projeto. O material chamou a atenção da equipe da Misa Filmes, especializada em documentários sobre casos criminais, que decidiu transformar a investigação acadêmica em uma produção audiovisual.
“O caso sempre foi contado como uma lenda. Eu mesma conhecia apenas dessa forma. Quando tivemos acesso à pesquisa, percebemos que havia uma história muito maior por trás”, relata.
A produção, financiada pelo Fundo Municipal de Investimentos Culturais (FMIC), reúne documentos históricos, autos do processo, entrevistas e análises de especialistas das áreas do Direito, Psicologia, História e Jornalismo.
Entre os entrevistados estão delegados, juízes, psicólogos, jornalistas, historiadores e moradores da região. O objetivo é contextualizar não apenas as acusações contra Célia, mas também o cenário social da época, marcado por pobreza extrema, ausência de políticas públicas e preconceitos religiosos.
“Talvez ela tenha sido vítima de uma perseguição religiosa e racial. Talvez não. O documentário não entrega uma resposta pronta. Quem vai decidir isso é o público”, afirma Isabelle.

A produção também aborda o papel da imprensa na construção da imagem da “Bruxa da Sapolândia”. Uma das fotografias publicadas pelo extinto jornal Diário da Serra tornou-se, ao longo dos anos, a principal representação visual de Célia e ajudou a consolidar a narrativa de que ela seria uma feiticeira.
“Aquela imagem praticamente definiu como ela seria lembrada para sempre. Existe uma discussão importante sobre a responsabilidade da mídia na vida das pessoas”, destaca a diretora.
Outro ponto abordado é a ausência de elementos considerados fundamentais em investigações criminais, como laudos conclusivos e provas materiais. Apesar das acusações, Célia acabou absolvida pela Justiça, mas nunca conseguiu se desvincular do estigma criado pela população.
“Ela foi inocentada pelo juiz, mas jamais foi inocentada pela sociedade”, resume Isabelle.
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Pesquisa e produção
Com gravações concluídas em apenas 15 dias e cerca de um ano de trabalho entre pesquisa e pré-produção, o documentário está em fase final de edição e deve ser concluído até o fim deste ano.
Inicialmente, a produção será exibida para convidados das áreas do Jornalismo e do Direito, e o lançamento para o público está previsto para fevereiro de 2027, em uma sessão aberta.
Ao revisitar um dos episódios mais marcantes da história sul-mato-grossense, o documentário propõe uma reflexão que permanece atual: quantas pessoas foram condenadas pela opinião pública antes mesmo de serem julgadas?
O longa-metragem reúne profissionais do audiovisual de Mato Grosso do Sul. A direção geral é assinada por Isabelle Silva, com roteiro de Luis Gabriel e João Prestes, responsável pela pesquisa acadêmica que deu origem ao projeto.
A direção de fotografia é de João Pelosi, com assistência de Daniel Felipe. O som é assinado por Laura Cristina, enquanto a direção de arte fica a cargo de Miya Miyashiro. A equipe conta ainda com Isadora Tiemi (assistência de produção), Maurílio Valle (making of) e Rafaela Correia (logger).

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