'Meu coração quase saltou': cineasta indígena de MT celebra dois Kikitos
Documentário sobre Divino Tserewahú venceu as categorias de melhor montagem e júri popular no Festival de Cinema de Gramado.
“Meu coração quase saltou”, contou o cineasta xavante Divino Tserewahú ao lembrar do momento em que soube que o documentário sobre sua trajetória havia conquistado dois Kikitos no Festival de Cinema de Gramado, no Rio Grande do Sul.
A produção mato-grossense “Divino: Sua Alma, Sua Lente” venceu as categorias de melhor montagem e júri popular na mostra competitiva de curtas-metragens brasileiros. O filme foi realizado com apoio da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).
Dirigido por Gilson Moraes da Costa e Clea Torres, o documentário apresenta a história de Divino, indígena da etnia xavante que vive na Terra Indígena Sangradouro, no leste de Mato Grosso. Há mais de 30 anos, ele utiliza câmeras para registrar os costumes, os rituais e a memória do próprio povo.

Divino estava na aldeia quando recebeu a notícia da premiação. Além da conquista no festival, ele se emocionou porque o documentário reúne uma das últimas imagens do pai, que morreu poucos meses depois das gravações.
“Isso me emocionou muito porque, dois ou três meses depois da gravação que realizamos para o filme, meu pai me deixou. Foi chocante para mim”, relatou.
O pai foi um dos principais incentivadores da trajetória de Divino no audiovisual. Mesmo nos momentos em que o cineasta pensava em não fazer os registros, era encorajado a continuar.
“Quando eu não queria fazer, meu pai falava: ‘Filho, filma, vai lá, não perde isso’. Então, é uma das últimas presenças dele”, lembrou.
Câmera virou instrumento de preservação
A trajetória de Divino no cinema começou quando uma câmera chegou à aldeia e foi utilizada para registrar um ritual xavante. A experiência despertou nele o desejo de produzir as próprias imagens e contar as histórias de seu povo.
“Eu não pensava em ser cineasta, mas logo veio o pensamento de que queria fazer cinema e fazer os registros. Realizei a minha ideia de ser cineasta. É uma longa história que vai ficar na minha vida”, afirmou.

Para Divino, o audiovisual se tornou uma ferramenta de preservação da cultura, da memória e das tradições indígenas. Atualmente, ele também se considera uma referência para outros xavantes interessados em produzir seus próprios registros.
A Terra Indígena Sangradouro reúne 122 aldeias, conforme relatado pelo cineasta. A aldeia central é o local onde são realizadas atividades e celebrações que envolvem as comunidades da região.
Produção feita no interior de MT
Diretor do documentário e professor do curso de Jornalismo da UFMT no campus do Araguaia, Gilson Moraes da Costa destacou que o filme foi produzido no interior de Mato Grosso e contou com profissionais da região.
“Essa premiação é muito importante porque Gramado é um dos maiores festivais de cinema do país. Ter um filme realizado no interior de Mato Grosso, no âmbito de uma universidade e com profissionais locais valoriza a produção audiovisual de todo o estado”, disse.
Segundo o diretor, a circulação do documentário por festivais também amplia o reconhecimento do trabalho desenvolvido por Divino e da cultura xavante.
“Quando contamos essa história em diferentes cidades, engrandecemos o trabalho do Divino. O cineasta e a população xavante são valorizados em sua potência cultural, étnica e em sua importância socioambiental para a preservação do Cerrado”, concluiu.
O Festival de Cinema de Gramado reuniu, neste mês, 61 produções, entre longas-metragens, curtas, documentários e filmes infantis de diferentes regiões do país.
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