Oficina de Luiz Carlos Lacerda transforma Bonito em laboratório de documentários durante o Cinesur
Com mais de 20 anos dedicados ao ensino de cinema, o cineasta afirma que a formação de novos profissionais é uma das maiores motivações de sua carreira
A programação do 4º Bonito Cinesur – Festival de Cinema Sul-Americano segue neste sábado (25) com uma das atividades mais aguardadas da programação formativa: a oficina de produção de documentário ministrada pelo cineasta Luiz Carlos Lacerda, conhecido nacionalmente como Bigode.

Diretor, roteirista, produtor e professor de cinema, Lacerda conduz uma imersão prática em que os participantes são convidados a produzir um documentário durante o festival, experimentando todas as etapas da criação audiovisual.
Com mais de 20 anos dedicados ao ensino de cinema, o cineasta afirma que a formação de novos profissionais é uma das maiores motivações de sua carreira.
“Faço essas oficinas há mais de 20 anos em vários festivais. Dei aula na Escola de Artes Visuais do Rio de Janeiro e na Escola Internacional de Cinema de Cuba. Muitas pessoas que passaram por essas oficinas hoje fazem parte das minhas equipes profissionais. Formar mão de obra técnica e artística para o cinema brasileiro é uma coisa que me dá um imenso prazer.”
Segundo ele, a troca de experiências também acontece no sentido inverso.
“Eu aprendo muito com essas novas gerações, principalmente com os novos formatos tecnológicos e digitais. Eles me ensinam muitas coisas e isso é muito enriquecedor.”

Uma referência do cinema brasileiro no Bonito Cinesur
Luiz Carlos Lacerda é um dos nomes mais importantes do cinema brasileiro contemporâneo. Iniciou a carreira na década de 1970 e construiu uma filmografia marcada por documentários e longas de ficção, frequentemente dedicados à preservação da memória cultural do país.
Ao longo da trajetória, dirigiu filmes como Leila Diniz, For All – O Trampolim da Vitória (codireção), Casa 9, Viva Sapato!, Mãos Vazias e Introdução à Música do Sangue, além de documentários sobre personalidades da cultura brasileira, como Tônia Carrero, Mário Peixoto e Nelson Pereira dos Santos.
Também é reconhecido pelo trabalho de preservação da história do cinema nacional e pela atuação como professor e formador de novas gerações de cineastas.
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Compromisso com a realidade
Para Lacerda, o documentário vai além do registro de imagens. É uma forma de compreender e interpretar o mundo.
“Documentar é uma forma de você se comprometer com a realidade, seja do ponto de vista social, do cotidiano, da cultura ou da antropologia. A importância do documentário está justamente nisso.”
Ao comentar o avanço da inteligência artificial na produção audiovisual, o diretor acredita que as novas ferramentas podem dialogar com os métodos tradicionais, mas faz um alerta sobre seus impactos.
“A gente pode mesclar essas novas tecnologias com o que já existe. Mas é tudo muito novo. Tenho até um certo pé atrás, principalmente quando vejo a substituição da mão de obra em alguns lugares.”
Espaço para o cinema sul-americano
Durante a oficina, o cineasta também destacou a importância de festivais como o Bonito Cinesur para ampliar a circulação das produções latino-americanas.
Segundo ele, o principal desafio do cinema brasileiro não é a produção, mas a distribuição.
“Hoje o Brasil produz mais de 100 filmes por ano. O problema é que nem 10% chegam às salas de cinema. O mercado é dominado pelas grandes distribuidoras americanas.”
Na avaliação do diretor, eventos como o Cinesur ajudam a aproximar o público de filmes que dificilmente entram no circuito comercial.
“A importância deste festival é justamente dar visibilidade ao cinema da América do Sul. É fundamental para a formação do público e também dos jovens cineastas.”
Aprender fazendo
A jornalista Beatriz Abrahão, que já produziu curtas documentais e integra a mostra competitiva do festival com um filme gravado na região de fronteira de Mato Grosso do Sul.
Ela conta que decidiu participar da oficina para experimentar novas linguagens e aperfeiçoar a própria produção.
“Quis me desafiar a produzir um documentário junto com os outros alunos durante o festival. Quero entender o que posso melhorar para os próximos projetos.”
Para Beatriz, o principal ganho está na troca de ideias entre participantes com diferentes experiências.
“A discussão sobre documentário e sobre cinema é muito importante. Ela não precisa ser única. Acho que essas discussões precisam ser diversas.”
Ao longo da oficina, os participantes irão desenvolver um documentário coletivo que será exibido ao público ao final das atividades, encerrando uma experiência que une formação, experimentação e produção audiovisual dentro da programação do Bonito Cinesur.
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