Adolescentes, telas e o desafio de se comunicar fora do digital
A geração que se comunica em siglas, áudios e vídeos nem sempre consegue se expressar bem no ‘olho no olho’
Eles nasceram digitando. Antes mesmo de escrever frases completas no caderno, já dominavam o teclado do celular, os áudios acelerados, os emojis e as abreviações. Para muitos adolescentes, comunicar-se é, antes de tudo, uma experiência digital, ou seja, rápida, fragmentada e, com frequência, econômica em palavras: “vc”, “pq”, “blz”, “tb”.
O problema não está na tecnologia em si, nem no uso de duas letras no lugar de uma palavra inteira, como se fosse um outro idioma – o internetês. ). A questão que merece nossa atenção é outra: até que ponto essa forma de comunicação impacta a clareza de pensamento e a capacidade de se expressar fora das telas? E quando esse tipo de comunicação sai das relações pessoais e torna-se barreira no mundo profissional?

É comum ouvir jovens que se comunicam por meio de frases desconexas, ideias interrompidas, raciocínios que não se concluem. Nas redes sociais, perfis que reproduzem esse jeito peculiar de os adolescentes conversarem fazem muito sucesso. Eu dou muitas risadas com os vídeos da Lara Santana.
Soma-se a isso o uso excessivo de vícios de linguagem: tipo, então, enfim, literalmente, véi, juro, não… sério! Essas expressões funcionam como muletas: preenchem o silêncio, mas empobrecem o discurso.
Há ainda um aspecto pouco discutido: a linguagem não verbal. Muitos adolescentes evitam o contato visual, falam olhando para o chão ou para a tela, mesmo quando a conversa é presencial. O corpo, que também comunica, acaba ficando ausente.
É importante dizer: isso não é exclusividade da geração atual. Todo adolescente, em qualquer época, cria suas próprias gírias, códigos e formas de pertencimento. Nos anos 80, 90 ou 2000, a linguagem dos jovens também soava estranha aos adultos. A diferença é que, hoje, a comunicação digital ocupa um espaço muito maior e, muitas vezes, substitui (em vez de complementar) a conversa face a face.
Por isso, o desafio não é “corrigir” ou “proibir” a linguagem com toda essa influência do digital, mas ampliar repertórios. Ensinar que existe um tempo para abreviar e outro para desenvolver ideias. Um espaço para o online e outro para o offline. Um jeito informal entre amigos e outro mais estruturado para apresentações, entrevistas, debates e conversas importantes da vida.
Estimular adolescentes a se comunicarem com desenvoltura no mundo offline é investir em autonomia, autoestima e pensamento crítico. Isso deve ser praticado em casa e na escola.
E desde jovem é preciso compreender que falar bem não é falar bonito, é ser entendido, com clareza, intenção e presença. Afinal, comunicação não é só sobre o que se diz, mas sobre como, quando e para quem se diz. E isso, sim, precisa ser aprendido, treinado e valorizado em todas as fases da vida.





