Amigos de infância, Luara e João viram amor florescer após transição
Nesta quarta-feira, 28 de junho, Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+, o Primeira Página conta a história de amor de Luara e João
O Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+ é celebrado nesta quarta-feira, 28 de junho. Em Campo Grande, João Vilela, homens trans, e sua esposa Luara Diniz Vilela, lutam pelo fim do preconceito em meio aos pedidos da caçula, Manuela, que sonha com uma irmãzinha.

“Aqui a gente sempre tem uma comunicação assertiva, de sentar, conversar e a Manuela tem uma personalidade muito forte. Ela fala: ‘Quero minha irmã’”, conta rindo o psicólogo, de 30 anos.
Ele e Luara, de 31, se conhecem desde crianças, por terem primos em comum. Juntos, eles criam os dois filhos do primeiro casamento da sacerdotisa: Guilherme, de 12, e Manuela, de 8.
Dentro de casa, a conversa sobre a comunidade LGBTQIA+ é livre e responsável. Afinal, é esse mundo de respeito e de amor que o casal quer deixar para os meninos.

“O Mês da Visibilidade existe por um motivo, por algo específico, do mesmo jeito que temos ‘Setembro Amarelo’, ‘Agosto Lilás’. O Brasil, infelizmente, continua sendo um país muito LGBTfóbico, é líder do ranking por 14 anos consecutivos. Estamos em primeiro lugar no índice de país que mais mata pessoas trans. É algo muito importante”, destaca João.
Homem trans
Foi na internet, no final da faculdade de psicologia, que João se deparou com um mundo que ele jamais conheceu, mas que, no fundo, ele sabia que existia.
“Foi quando me entendi. Eu sei que o sou desde os sete, oito anos. Eu não sabia que isso tinha um nome e que outras pessoas passavam pela mesma situação. Eu fui me entender como homens trans vendo um vídeo de um rapaz canadense fazendo a transição dele, no YouTube. Nem era um tema em alta. Não tinha nenhum representante brasileiro. Minha cabeça fez: ‘Caraca. Tudo faz sentido agora’”, relembra João.

Em 2017, o psicólogo fez a transição social, que durou dois anos e meio. “Mudanças de roupa, cabelo, pronome, e depois de dois anos tive a segurança pra poder começar a transição hormonal, e fazer todo o tratamento. Luara estava esperando isso. Minha versão 2.0. Fiquei mais bonito”, diz João rindo.
Luara acompanhou todo o processo do marido. “A gente sempre foi muito amigo. Eu costumo dizer que me casei com o meu melhor amigo”, completa ela, toda apaixonada.

O casamento dos dois, celebrado em 2021, foi um “acordo” entre eles. “Já estamos com 30, quietar o facho, criar o Guilherme e a Manuela, constituir uma família. Aí vimos o amor entre a gente”, afirma Luara.
Bissexual
O caminho da sacerdotisa também não foi fácil. Luara enfrentou uma onda de preconceito na própria família.
“Pra mim foi um pouco mais complicado. Eu sempre fui bi [bissexual], sempre bem escondida, e fechada da família extremamente preconceituosa. Me casei com 19 anos, tive meus dois filhos, fiquei sete anos casada. Chegou um momento que eu não estava feliz e me separei”, recorda.
Por um bom tempo, Luara foi mãe solo. “Criei eles sozinha, me assumi e resolvi me casar com João Fernando. Eu fiquei interessada na horta dele, no isopor, e numa piscina de plástico”, revela aos risos junto do marido. Ao lado do João, um verdadeiro pai para as crianças, Luara é muito feliz.
“A gente vai levando a loucura da nossa vida. Sempre na militância. Manuela totalmente aberta. Eu crio eles com uma responsabilidade muito grande. Sentei com os dois, expliquei, falei que o importante é amar, respeitar”, diz Luara.
Família
No casamento, quem levou Luara para o altar foi o filho, Guilherme. Depois que a mãe morreu, a avó materna, Ana Luiza, de 81 anos, mora com todos eles. E diferentemente de muitos parentes, a idosa abraçou a neta.
“Vivo a minha vida pra cuidar dos meus filhos e da minha vó. Essas pessoas mais de idade são bem mais tolerantes do que os próprios jovens. Ela me disse: ‘Você ama quem você quiser, não tenho nada a ver com isso’”, relembra Luara.

Na família de João, o apoio falou mais alto, mas com um período mais longo de adaptação por parte de uma das tias.
“A gente vai conversando, com conscientização. Eu falei: ‘Você tem que perder uma filha para ganhar um filho, porque se não for assim, você não vai ter ninguém. Não tem outra possibilidade. É uma questão de necessidade, se eu não tivesse me assumido, não tivesse feito terapia, se eu não estivesse me posicionado, eu provavelmente não estaria aqui. Chega uma hora que é muito dilacerante, é mais uma batalha interna do que externa, se encontrar, se assumir, se entender, o restante a gente encara”, declara João.
Aliás, o irmão mais novo do psicólogo, Arthur, hoje com 16 anos, foi o primeiro a apoiar João. “Ele foi o primeiro a me chamar por João, o primeiro a contar a todos os colegas dele. Em casa, ele pegou e fez um paredão de meninos, todos com uns sete, oito anos, e falou: ‘Esse é meu irmão e o nome dele é João’”, E fez todos repetirem. Depois: “Tá. Agora vamos brincar’”, recorda o psicólogo todo alegre.
Outra pessoa especial que marcou a vida dele foi a avó materna, “Minha vó, falava pros enfermeiros: ‘Esse aqui é meu neto. Olha como ele é lindo, ele vem cuidar de mim. Minha vó, com 78 anos, passando mal, com câncer, me respeitava, me tratava super bem”, relembra João.
LGBTQIA+
João e Luara ainda deixam boas mensagens para todos da comunidade LGBTQIA+. Como um bom psicólogo, ele recomenda terapia.

“Façam terapia. Ajuda muito. Em alguns momentos, a briga é mais interna, você com você mesmo. A terapia me ajudou muito. Se fortifique, cuide de você, se priorize. Se tiver com segurança, se assuma, seja o que quer que seja, e deixe que as pessoas falem, elas vão falar de qualquer jeito”, aconselha João.
“Eu acho que as pessoas tem que começar a olhar para dentro delas, e não para bolha que a sociedade quer nos colocar. A gente tem que ser o que a gente quer ser, a gente tem que amar do jeito que acha certo amar, lutar pela nossa felicidade, independente do que as pessoas pensam a nosso respeito ou julgam as nossas atitudes. O importante o que a gente acha que é certo pra nós mesmos”, aponta Luara.
Onde procurar ajuda?
Segundo o psicólogo João, existem profissionais que atendem particular, assim como pela tabela social, com valores abaixo do mercado.
“Eu, como homem trans, atendo 100% LGBTs, e algumas vagas são reservadas para essa tabela social”, explica João.
Além disso, em Campo Grande, existe a Casa Satine, com voluntários. E universidades. A UFMS, por exemplo, realiza atendimento ao público gratuitamente, através de cadastro. Há ainda o projeto nacional e on-line chamado “Saúde Mental para Todos”. Em última instância, os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial).