Antes do adulto machista, existe uma criança que aprendeu a ser assim

Como a comunicação na infância pode reproduzir o machismo ou ajudar a combatê-lo

O Agosto Lilás chega ao fim, mas o debate sobre o combate à violência contra a mulher não pode terminar com ele. Falar sobre violência contra a mulher é também falar sobre prevenção. E uma das formas de prevenção está na maneira como educamos e nos comunicamos com nossas crianças.

Antes de se tornar um adulto que agride, controla, desrespeita ou acredita ter mais direitos por ser homem, uma criança pode ter aprendido, dentro de casa, que meninos são mais fortes, que meninas precisam se comportar de determinada maneira ou que determinadas tarefas são obrigação de alguém e não devem ser divididas por igual.  

Comunicacao de Primeira machismo
A prevenção da violência contra a mulher também passa pelas palavras que usamos para educar nossas crianças. – Imagem criada por IA

É claro que nenhuma frase isoladamente é responsável por formar um adulto machista. Mas palavras repetidas todos os dias ajudam a construir valores, crenças e percepções sobre o mundo.

Por isso, nunca diga as frases abaixo para crianças se você quer formar adultos que respeitem as mulheres:

“Isso é coisa de mulherzinha”

Quando dizemos que algo é “coisa de mulherzinha”, estamos ensinando que aquilo associado ao feminino é inferior, frágil ou motivo de vergonha.

A expressão também pode transmitir aos meninos a ideia de que demonstrar medo, delicadeza, sensibilidade ou vulnerabilidade é algo negativo.

Historicamente, características como agressividade e coragem foram associadas ao masculino e vistas como qualidades, enquanto timidez, medo e fragilidade foram atribuídos ao feminino.

Que mensagem estamos passando quando um menino ouve que não pode chorar, que precisa ser forte o tempo todo ou que determinado comportamento é “coisa de mulherzinha”?

“Isso é coisa de homem”

Essa frase cria uma divisão artificial entre o que meninos e meninas podem fazer. Profissões, brincadeiras, habilidades e comportamentos não deveriam ter gênero.

Meninos e meninas precisam crescer sabendo que podem escolher a profissão que quiserem, desenvolver as habilidades que desejarem e ocupar os espaços que conquistarem.

Um menino pode cozinhar. Uma menina pode gostar de futebol. Um homem pode cuidar dos filhos. Uma mulher pode liderar uma empresa.

Quando ampliamos as possibilidades das crianças, também ajudamos a construir uma sociedade em que homens e mulheres podem exercer seus direitos e responsabilidades com mais igualdade.

“Ajudar em casa”

Uma expressão aparentemente inofensiva merece atenção. Homem não “ajuda” nas tarefas domésticas, ele também é responsável por elas.

Quando dizemos que o homem “ajuda” a mulher em casa, podemos reforçar a ideia de que cuidar da casa e dos filhos é obrigação dela e que, quando ele participa, está fazendo um favor. Não é favor. É responsabilidade compartilhada.

Por isso, meninos devem aprender desde cedo a arrumar a própria cama, guardar seus brinquedos, lavar louça, organizar seus pertences e limpar a casa, da mesma forma que ensinamos as meninas. A divisão equilibrada das tarefas domésticas também é uma forma de educação para a igualdade.

“Prenda sua cabrita, que meu bode está solto”

Talvez essa seja uma das expressões mais perigosas justamente porque costuma ser tratada como uma simples brincadeira. Mas o que ela comunica?

A mensagem é clara: a menina precisa ser reprimida porque o menino estaria autorizado a fazer o que quiser. Que é responsabilidade da família da menina impedir que ela use determinada roupa, saia sozinha ou se comporte de determinada maneira para evitar que um homem avance sobre ela.

E, pior: a frase pode transferir para a mulher a responsabilidade pela violência que ela sofreu.

Você não precisa ensinar sua filha a ter medo dos homens se ensinar seu filho a respeitar as mulheres.

A comunicação também educa

Essas são apenas algumas expressões. Muitas outras fazem parte do nosso vocabulário cotidiano e parecem tão naturais que nem percebemos mais o que estão comunicando.

Um texto que publiquei anteriormente nesta coluna reuniu ‘10 falas preconceituosas contra as mulheres’ e vale a leitura para quem deseja refletir mais sobre o assunto.

Se palavras têm poder para ferir, também têm força para construir respeito. Por isso, o combate à violência contra a mulher também passa pela comunicação dentro de casa, na escola, nas conversas entre amigos e na forma como adultos se dirigem às crianças.

Leia mais

  1. 5 dicas de comunicação para evitar brigas por causa de política

  2. Menos comparação, mais comunicação

  3. Quando a brincadeira não cabe na comunicação

Este conteúdo reflete, apenas, a opinião do colunista Comunicação de primeira, e não configura o pensamento editorial do Primeira Página.

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