Cada país tem um jeito de se comunicar
Viajar, negociar ou simplesmente conversar com estrangeiros exige mais do que falar outro idioma. Exige compreender diferentes formas de se comunicar.
Antes de viajar, costumamos pesquisar sobre a culinária, o clima, a moeda e os costumes do país que vamos visitar. Mas raramente pensamos em estudar outro aspecto igualmente importante: a forma como as pessoas se comunicam. E isso faz muita diferença não somente em viagens, como também em qualquer tipo de interação com alguém de outra nacionalidade.
Um comportamento considerado simpático no Brasil pode ser interpretado como invasivo em outro lugar. Um silêncio que aqui pareceria constrangedor pode representar respeito em outra cultura. Até um simples “não” muda completamente de significado dependendo do país.
Depois de conversar com brasileiros que vivem ou viveram em diferentes partes do mundo, ficou evidente que a comunicação também tem sotaque cultural.

A empresária Claudia Duffield mora no Canadá há 26 anos e percebeu isso logo nos primeiros anos vivendo por lá. Segundo ela, o brasileiro comunica-se muito pela emoção. Demonstra facilmente o que gosta, o que incomoda, expressa opiniões e sentimentos de maneira espontânea. Já o canadense costuma ser mais reservado.
Não significa que seja fechado ou antipático. Pelo contrário. É um povo aberto e tolerante, apenas menos expansivo ao demonstrar emoções.
Curiosamente, Claudia conta que o jeito brasileiro de conversar com desconhecidos não costuma ser visto de forma negativa pelos canadenses. Eles apenas não reagem da mesma maneira. “Não vão retribuir na mesma intensidade, mas também não vão julgar”, resume.
Nos Estados Unidos, a percepção é semelhante. A bancária Ricarda Oakley, que vive no país há 26 anos, diz que muitos brasileiros classificam os americanos como frios. Para ela, a impressão é equivocada: “Não são frios. Apenas não se comunicam de forma efusiva como nós.”
Ela conta que só percebeu o quanto os brasileiros são intensos nas expressões faciais, na entonação da voz e nos gestos depois de viver tantos anos longe do Brasil. Enquanto dizemos que está “tãããão frio” fazendo uma expressão de sofrimento, um americano apenas informa: “está frio”.
A diferença também aparece na objetividade. Nos Estados Unidos, dizer simplesmente “não” não é considerado falta de educação. Interromper alguém, porém, costuma ser visto como desrespeito. Da mesma forma, falar alto, tocar frequentemente nas pessoas durante uma conversa ou invadir o espaço pessoal pode causar desconforto.
“A comunicação americana é muito direta. Já a brasileira é muito mais baseada na conexão e nas relações”, observa Ricarda.
Se em alguns países a objetividade é valorizada, em outros acontece exatamente o contrário.

O adido agrícola brasileiro na Malásia, Dalci Bagolin, que também trabalhou durante quatro anos na Índia, conta que uma reunião de negócios com indianos dificilmente começa pelo assunto principal. Antes, é preciso conversar sobre a família, sobre o clima, sobre a viagem. Existe uma espécie de aquecimento da conversa.
Mais do que isso: perguntas que muitos brasileiros considerariam invasivas — como estado civil, cidade de origem ou até salário — fazem parte da construção natural do relacionamento naquele contexto cultural.
Na Malásia, porém, a situação muda novamente. O país reúne influências chinesas, indianas e muçulmanas. Enquanto empresários de origem chinesa costumam ser mais objetivos nas negociações, muitos malaios muçulmanos evitam confrontos a qualquer custo. Dificilmente dizem “não” de forma direta. Saber interpretar essas sutilezas pode ser decisivo em uma negociação.
O médico cardiologista Ali Kassen Omais, que viveu a adolescência no Líbano, enxerga muitas semelhanças entre libaneses e brasileiros. Segundo ele, ambos são povos extremamente acolhedores, gostam de conversar, de celebrar, de receber visitas e de servir bem quem chega.
No Líbano, recusar um café ou um prato oferecido pelo anfitrião pode até ser interpretado como falta de gentileza. A hospitalidade faz parte da comunicação, do jeito libanês de se expressar.
Já quem conhece bem Áustria e Alemanha percebe diferenças bastante marcantes.
A empresária Tania Kramm viveu 13 anos na Áustria e cresceu dividida entre Brasil, Alemanha, Áustria e Suíca, onde moram seus parentes. Filha de pai alemão e mãe austríaca, ela explica que interromper alguém durante uma conversa, algo relativamente comum entre brasileiros mais empolgados, é considerado falta de educação nesses países. Primeiro escuta-se até o fim. Depois se responde.
Outra característica é o respeito ao silêncio. Falar alto em restaurantes, no transporte público ou em ambientes compartilhados costuma chamar atenção negativamente. Não porque sejam pessoas frias, mas porque valorizam profundamente a privacidade e o bem-estar coletivo.
Talvez o maior aprendizado de todas essas histórias seja perceber que nenhuma dessas formas de comunicação é melhor ou pior, certa ou errada. São apenas diferentes.
Quando entendemos isso, deixamos de interpretar comportamentos com os nossos próprios filtros culturais. A objetividade deixa de parecer grosseria. A reserva deixa de parecer frieza. A expansividade deixa de parecer exagero.
Em tempos de viagens frequentes, empresas globais, reuniões on-line e equipes multiculturais, comunicar-se bem também significa saber mudar o próprio repertório.
Como ex-professora de inglês e entusiasta do ensino de idiomas, posso afirmar que falar uma língua estrangeira abre portas. E como comunicadora, aprendi que compreender a cultura por trás da conversa abre muito mais. Quem fala apenas o idioma entende as palavras. Quem adapta a comunicação ao contexto e à cultura consegue, de fato, estabelecer conexões.
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