Caique Raoni completa 94 anos: do contato com não indígenas aos 24 à liderança mundial
Líder nascido em uma aldeia no nordeste de Mato Grosso tornou-se uma das principais vozes internacionais na defesa dos povos indígenas e da Amazônia.
O Cacique Raoni completa 94 anos nesta quinta-feira (20), após uma trajetória que o levou de uma aldeia Mẽbêngôkre, no nordeste de Mato Grosso, aos principais fóruns internacionais. Quando seu povo estabeleceu contato definitivo com não indígenas, em 1954, ele tinha aproximadamente 24 anos e começava a aprender português. Sete décadas depois, tornou-se uma das principais vozes mundiais na defesa dos povos indígenas e da Amazônia.

A idade de Raoni é estimada porque não há um registro preciso de seu nascimento. Biografias apontam que ele nasceu no início da década de 1930, na antiga aldeia Kraimopry-yaka, onde hoje está localizada a região nordeste de Mato Grosso.
A celebração dos 94 anos foi divulgada nesta quinta-feira pela Federação dos Povos e Organizações Indígenas de Mato Grosso (Fepoimt). A entidade destacou a atuação de Raoni na proteção da Amazônia, na defesa dos territórios e na representação dos povos indígenas em diferentes países.
Contato com não indígenas
Durante a juventude de Raoni, o povo Mẽbêngôkre, também conhecido como Kayapó, vivia em aldeias seminômades e ainda não havia estabelecido contato pacífico e permanente com a sociedade não indígena.
Essa realidade começou a mudar em 1954. Naquele período, Raoni conheceu os irmãos sertanistas Villas-Bôas, com quem aprendeu a falar português e passou a compreender o funcionamento da sociedade fora das aldeias.
Ele também atuou na mediação do contato entre diferentes comunidades indígenas e não indígenas. Com o passar dos anos, tornou-se um dos principais interlocutores do povo Mẽbêngôkre diante das instituições brasileiras.
Fico triste quando vejo um garimpeiro, um madeireiro, matar um parente, porque isso está acontecendo diariamente em todos os cantos do Brasil com os povos indígenas.
Da aldeia para o mundo
A atuação de Raoni ultrapassou as fronteiras do Brasil a partir do fim da década de 1970. Em 1978, sua história foi retratada em um documentário indicado ao Oscar.

A projeção internacional cresceu ainda mais após o encontro com o cantor britânico Sting, em 1987. A partir daí, Raoni passou a viajar por diferentes países para denunciar o desmatamento e buscar apoio para a proteção das terras indígenas e da Floresta Amazônica.
Ao longo das décadas, encontrou-se com chefes de Estado, representantes das Nações Unidas e outras autoridades internacionais. A presença nos principais fóruns mundiais ajudou a ampliar a visibilidade das reivindicações dos povos indígenas brasileiros.

As campanhas internacionais também contribuíram para levantar recursos destinados à demarcação e à proteção de territórios indígenas.
Participação na Constituinte
Nas décadas de 1980 e 1990, Raoni teve participação na luta pela demarcação dos territórios Mẽbêngôkre. As áreas formam um dos maiores blocos contínuos de floresta tropical preservada e funcionam como uma barreira contra o avanço do desmatamento na região leste da Amazônia.
O cacique também participou das mobilizações do movimento indígena durante a Assembleia Nacional Constituinte, em 1987 e 1988. A articulação contribuiu para a inclusão dos direitos dos povos indígenas na Constituição Federal de 1988.
Entre os direitos reconhecidos estão a organização social, os costumes, as línguas, as crenças, as tradições e a posse permanente das terras tradicionalmente ocupadas.
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Resultado
Conteúdo baseado na trajetória pública do Cacique Raoni Metyktire.
Mobilização contra hidrelétrica no Xingu
Em 1989, Raoni ajudou a mobilizar lideranças indígenas e a imprensa internacional para o Primeiro Encontro dos Povos Indígenas do Xingu, realizado em Altamira, no Pará.
O encontro marcou a oposição indígena ao projeto do Complexo Hidrelétrico do Xingu, que incluía a usina de Kararaô. O plano foi abandonado naquele período, mas retornou anos depois com alterações e passou a ser chamado de Usina Hidrelétrica de Belo Monte.
A mobilização se tornou um marco da organização dos povos indígenas contra grandes empreendimentos que poderiam afetar seus territórios e modos de vida.
Atuação continua aos 94 anos
A partir de 2018, Raoni voltou a intensificar a atuação internacional diante do avanço do desmatamento, do garimpo e da exploração ilegal de madeira em territórios indígenas.

Em 2019, percorreu diferentes países para denunciar as ameaças à Amazônia e buscar apoio para a proteção territorial e o fortalecimento cultural dos povos indígenas.
No ano seguinte, convocou um encontro de lideranças dos povos da floresta para defender a união das comunidades diante de mudanças nas políticas ambientais e indígenas.
Ao celebrar os 94 anos de Raoni, a Fepoimt ressaltou que o cacique permanece como símbolo da defesa da Amazônia e dos direitos dos povos originários. A entidade também destacou sua contribuição para levar as reivindicações indígenas de Mato Grosso aos principais espaços de decisão do mundo.
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