Na nova trend que domina as redes sociais, o ChatGPT virou conselheiro digital. A brincadeira, que ganhou muitas visualizações no TikTok e no Instagram, começa com uma pergunta simples: “Qual é a minha bênção e a minha maldição?”
O ChatGPT responde com frases reflexivas, que chamam atenção por descreverem situações emocionais que muita gente se identifica. Um exemplo é:
“Sua bênção é nunca desistir. Sua maldição é achar que precisa aguentar tudo sozinho”.
Trend viral com ChatGPT preocupa especialistas ao simular aconselhamento emocional. (Foto: Freepik)
O conteúdo tem sido compartilhado por usuários em vídeos curtos, com trilhas sonoras emocionais e legendas dramáticas. Apesar do tom mais sério, tudo não passa de uma interação com um modelo de linguagem, ou seja, não tem qualquer valor psicológico, espiritual ou científico.
Trend viral com ChatGPT preocupa especialistas ao simular aconselhamento emocional. (Foto: Reprodução IA)
Por que viralizou?
A trend chama atenção pela forma como as frases geradas pela IA parecem “falar verdades” sobre quem lê, mesmo sem conhecer a pessoa. O fenômeno lembra outras modas da internet, como testes de personalidade ou frases de horóscopo, que criam identificação a partir de textos genéricos.
Segundo especialistas, a popularidade dessas brincadeiras costuma aumentar em momentos de grande exposição emocional nas redes. No caso do ChatGPT, o apelo está na rapidez da resposta e na linguagem envolvente.
A trend usa inteligência artificial para simular autoconhecimento e gera preocupação entre psicólogos.
Especialista alerta para os limites da trend
A psicóloga Andressa Cassaro explica que a popularidade desse tipo de conteúdo se dá, em parte, pela falsa sensação de acolhimento que a inteligência artificial pode gerar.
“O grande problema é que essas inteligências artificiais criam uma falsa sensação de segurança. Como se trata de um algoritmo, ele interpreta a linguagem a partir do banco de dados disponível na internet e elabora respostas que parecem apropriadas. Mas são baseadas apenas em informações teóricas, sem considerar a escuta clínica, que é essencial no cuidado psicológico”, explica.
Segundo Andressa, o algoritmo entregra respostas que mantêm a atenção do usuário, algo que à primeira vista, pode até parecer inofensivo, mas é perigoso justamente por criar uma falsa sensação de segurança.
“Ele capta sua atenção o tempo todo e faz parecer que aquilo faz sentido sempre. Mas quando a gente leva pra realidade e reflete um pouco mais, percebe que nem sempre é a melhor saída, nem a melhor resposta. Já vimos casos de pessoas que cometeram suicídio depois de buscar aconselhamento com o chat. É bem triste, porque nesse processo o que se perde é justamente o vínculo humano, que é a essência da terapia”, lamenta a psicológa.
A psicóloga Samela reforça que, apesar da popularidade das interações com a IA, os impactos emocionais ainda são pouco compreendidos.
“Existem muitas situações que observamos nas interações com o chat e que a psicologia também reconhece como preocupantes, embora ainda não existam pesquisas consolidadas sobre os impactos. Mas já dá pra perceber um possível desgaste emocional, risco de vício e outros impactos. É algo que precisa ser estudado cada vez mais”, afirma.
Para ela, é importante lembrar que “o chat é uma relação superficial”.