Da Bahia a Mato Grosso: família reúne diferentes gerações todos os anos como tradição para honrar antepassados

Descendentes de retirantes nordestinos se reúnem pela quinta vez neste fim de semana, em Cuiabá, para celebrar os antepassados, reencontrar parentes e transmitir às novas gerações um legado de união e esperança.

Há histórias de família preservadas em fotografias, documentos e objetos antigos. A trajetória dos Bento, Oliveira e Silva, porém, permanece viva também em um encontro que reúne diferentes gerações todos os anos.

Neste sábado (25) e domingo (26), cerca de 90 parentes participam do quinto Encontro da Família Bento, Oliveira e Silva, realizado em um rancho no bairro Pedra 90, em Cuiabá. Entre os convidados estão filhos, netos, bisnetos e trinetos de uma família formada a partir da migração, do trabalho e da busca por uma vida melhor.

A família Bento, Oliveira e Silva reúne diferentes gerações todos os anos para manter legado vivo. - Foto: Daniel Bento
A família Bento, Oliveira e Silva reúne diferentes gerações todos os anos para manter legado vivo. – Foto: Daniel Bento

Idealizada pelos primos Adelaide e Ruy, a reunião anual nasceu com o propósito de aproximar parentes que vivem em diferentes cidades e estados, além de reconectar o presente às histórias daqueles que vieram antes.

Retirante nordestino recomeçou a vida em Mato Grosso

No centro dessa história está Agnello Bento de Oliveira, chamado carinhosamente de Dim Dim pela família. Baiano e retirante da seca que castigava o Nordeste, ele deixou sua terra natal em busca de melhores condições de vida para os filhos.

Antes de chegar a Mato Grosso, Agnello viveu durante alguns anos em Regente Feijó, no interior de São Paulo. Em 1948, enfrentou a morte da primeira esposa, Regina Rosa de Oliveira, com quem teve oito filhos.

Mesmo diante da perda, encontrou forças para recomeçar. Seguiu para Mato Grosso acompanhado de filhos, genros e noras, levando a esperança de construir um novo futuro.

Em território mato-grossense, Agnello conheceu Maria Alves de Oliveira, chamada carinhosamente de Maria de Jesus, pernambucana nascida em Exu e também marcada pela migração. Os dois se casaram e tiveram 13 filhos, ampliando uma descendência que, atualmente, está espalhada por diferentes regiões do país.

Família começou com Agnello Bento de Oliveira, Regina Rosa de Oliveira e, posteriormente, Maria Alves de Oliveira. - Foto: Arquivo pessoal
Família começou com Agnello Bento de Oliveira, Regina Rosa de Oliveira e, posteriormente, Maria Alves de Oliveira. – Foto: Arquivo pessoal

Agnello morreu em 1976, aos 74 anos. Maria faleceu em 2024, aos 93 anos.

Dos 13 filhos do casal, quatro já morreram. A perda mais recente foi a de Osnildo Bento de Oliveira, vítima de câncer na garganta. Ele morreu em 2025, aos 63 anos, após ainda participar do encontro realizado naquele ano.

Osnildo Bento de Oliveira na reunião da família em 2025. - Foto: Arquivo pessoal
Osnildo Bento de Oliveira na reunião da família em 2025. – Foto: Arquivo pessoal

Família participou da ocupação da região sul de Mato Grosso

A trajetória dos Bento, Oliveira e Silva também está ligada ao processo de ocupação da região sul de Mato Grosso. Na década de 1950, famílias migrantes chegaram à Gleba São Paulo por meio da Companhia de Colonização Cipa.

Parte delas se estabeleceu na região do rio Barroso e nas áreas próximas, entre Jaciara, Dom Aquino e o território que atualmente pertence ao município de São Pedro da Cipa.

Na nova terra, os migrantes enfrentaram dificuldades e trabalharam para garantir o sustento dos filhos. Além dos bens construídos ao longo dos anos, deixaram como herança valores como honestidade, solidariedade, coragem e união familiar.

Foi justamente nessa região que ocorreu o primeiro encontro dos descendentes. O lugar foi escolhido por representar o cenário onde parte da família cresceu, fez amizades, enfrentou dificuldades e aprendeu as primeiras lições da vida.

Retornar à região significava, para os parentes, reencontrar as próprias raízes.

Encontro já passou por três cidades

Depois da primeira edição, o encontro ganhou novos destinos. A segunda reunião foi realizada em Primavera do Leste, e a terceira, em Cuiabá. Na quarta edição, a família retornou ao local da primeira reunião.

Agora, no quinto encontro, os parentes voltam a se reunir na capital mato-grossense, reafirmando o compromisso de preservar a memória dos antepassados.

Família Bento, Oliveira e Silva se reuniram em Cuiabá, neste sábado (25). – Vídeo: Daniel Bento

João Bento de Oliveira, de 69 anos, um dos filhos de Agnello e Maria, explicou ao Primeira Página que a tradição é uma forma de reconhecer os sacrifícios feitos pelas gerações anteriores.

“Essa reunião é uma maneira de honrarmos nossos ancestrais. Na alegria ou no sofrimento do passado, estamos aqui até hoje graças a eles, e isso é uma grande alegria”, afirmou.

João Bento de Oliveira, de 69 anos, é um dos 13 filhos de Agnello e Maria. - Foto: Daniel Bento
João Bento de Oliveira, de 69 anos, é um dos 13 filhos de Agnello e Maria. – Foto: Daniel Bento

Um dos costumes mantidos nos encontros é o pedido de bênção, inclusive entre parentes com idades pouco convencionais para essa relação. Conforme João, alguns sobrinhos já têm entre 70 e 80 anos e ainda pedem a bênção aos tios mais novos, que estão na faixa dos 40 ou 50 anos.

“Abençoamos desejando vida longa e que nossa família ainda tenha muito para se reunir e celebrar a vida. Isso é o mais importante”, completou.

Outro exemplo curioso, é a diferença de idade entre Théo Bento, de 2 anos, e Adélio Barbosa Filho, de 82. Eles são primos e, respectivamente, o neto mais novo e o mais velho de Agnello.

Théo Bento, de 2 anos, e Adélio Barbosa Filho, de 82, são primos e, respectivamente, o neto mais novo e o mais velho de Agnello. - Foto: Daniel Bento
Théo Bento, de 2 anos, e Adélio Barbosa Filho, de 82, são primos e, respectivamente, o neto mais novo e o mais velho de Agnello. – Foto: Daniel Bento

Legado atravessa quatro gerações

A expectativa é reunir aproximadamente 90 pessoas durante os dois dias de celebração em Cuiabá. Para os organizadores, a presença de filhos, netos, bisnetos e trinetos mostra que a história iniciada há muitos anos continua sendo transmitida.

A reunião não se limita a recordar o passado. Ela também reforça a identidade de uma família construída pelo trabalho, pela coragem e pela esperança de migrantes que atravessaram o país para começar novamente.

“É uma homenagem àqueles que abriram caminhos para as gerações que vieram depois e um compromisso de manter vivo esse legado, para que filhos, netos, bisnetos e todos os que ainda virão conheçam a história de seus antepassados e sintam orgulho de pertencer à família Bento, Oliveira e Silva”, destaca a família.

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